1) Criação inanimada
O fato do Universo existir não exige alguém para criá-lo, como no caso de qualquer artefato, pois estes não são naturais. Seu surgimento e evolução foi perfeitamente possível sem interveniência externa nenhuma. As próprias forças naturais, por sua conta e de modo aleatório, foram capazes de formar tudo o que existe na natureza. Mesmo a passagem da inexistência para a existência pode ter-se dado de forma fortuita. Não há nada que exija causa para um evento. Alguns a possuem, outros não. Estes, inclusive, no mundo subatômico, são maioria. Na verdade, a impressão de haver causalidade e determinismo é devida aos eventos macroscópicos serem resultantes de miríades de eventos microscópicos interconectados. Mesmo no mundo macroscópico, contudo, a maior parte das ocorrências é fortuita. Por outro lado, a natureza não tem inteligência nenhuma e nem mesmo é perfeita. O que existe é apenas a sobra que teve sucesso em um número imensamente maior de casos fracassados. Se a natureza fosse perfeita não haveria doenças, por exemplo. Mesmo que fosse necessário causa para todo evento, o que indica que a causa primeira teria sido Deus, tal qual é concebido pelas religiões? A noção de um criador é completamente dispensável e isto é que, realmente, o bom senso indica. Supor que exista não tem nada de lógico. É tão somente uma crença, desprovida de fundamento.
2) Criação animada
Não é verdade que a vida não possa surgir de um conteúdo inanimado. É claro que um ser vivo complexo, como os que existem hoje, mesmo uma bactéria, só pode ser proveniente de outro ser vivo mas, regredindo a complexidades cada vez menores, chega-se a um sistema replicante e autosustentável simples que pode perfeitamente surgir de compostos inorgânicos, sob condições especiais, que prevaleceram na Terra primitiva, mas hoje só se dão em lugares bem restritos, como as fumarolas submarinas. O fato do padrão biológico ser o mesmo em todos os seres vivos, apenas confirma o processo evolutivo pelo qual eles se diferenciaram. Novamente, mesmo que houvesse necessidade de que todo ser vivo venha de outro, de onde se conclui que Deus é que criou o primeiro? Porque não poderiam haver seres vivos desde uma eternidade estendida infinitamente para o passado? Não é o que eu acho que se deu, mas não é uma impossibilidade. Uma vez que Deus não é um ser biológico, seu ato criador não contrariaria exatamente o pretenso princípio de que a vida sempre provém de outra?
3) Consciência humana
A consciência ética nada tem a ver com Deus. É uma característica evolutiva do ser humano, que privilegiou os que a possuem (pois há quem a não possua), uma vez que sua falta acarreta prejuízo irreversível para as comunidades e o homem evoluiu como um ser gregário. Ser “do bem” contribui para o sucesso do grupo, enquanto ser “do mal” pode, temporariamente, ser vantajoso para o indivíduo, mas, no aspecto global, prejudica a sociedade. Assim, o bem é um imperativo impregnado nas características biológicas do ser humano, reforçado pelo processo educativo que toda criança sofre em qualquer cultura. Por outro lado, não é verdade que uma “lei” exija um legislador. Isto ocorre com as leis artificiais, criadas pelas sociedades. As leis naturais não são um imperativo, mas tão somente uma descrição do comportamento observado na natureza. A moral é imperativa, pois é promulgada pelo homem, mas a ética é natural, advinda da observação do que seja benéfico para os grupamentos e para os indivíduos, desde que não conflite com o interesse grupal.
4) Ordem do Universo
É por acidente sim, que tudo ocorre do modo como o faz. As órbitas planetárias e a estrutura dos átomos são decorrências de acasos favoráveis. A maior parte da matéria da nuvem protoplanetária que envolvia o Sol em sua formação, não se aglomerou em planeta nenhum e perdeu-se no espaço. Apenas uma fração coincidiu de situar-se com a velocidade e no lugar adequados para permanecer em órbita. Mesmo assim, como no caso dos asteróides, ou não chegaram a formar um planeta, ou ele se formou e rompeu-se pela ação de forças de maré provenientes do Sol e de Júpiter. Os cinturões de cometas também revelam que o caos é preponderante sobre a ordem no Universo. De fato, a ordem é um acidente. A regra é o caos, em todas as estruturas cósmicas. Mesmo a ordem que existe não requer inteligência nenhuma. É o resultado de coincidências. O fato do planeta Terra possuir as condições propícias para abrigar a vida que abriga é uma raridade cósmica, possivelmente só exibida, no máximo, em três lugares em cada galáxia, cada uma com centenas de bilhões de estrelas e trilhões de planetas.
5) Crença em Deus
É claro que a crença em qualquer coisa, por mais difundida que seja, não dá garantia nenhuma da veracidade daquilo em que se crê. Isto é óbvio. Nenhum ateu pensa que teólogos inventaram Deus. Certamente que esta noção surgiu expontaneamente na humanidade como resultado do inexplicado, uma vez que a vida cotidiana associa as ocorrências a um agente. A fé não é ciência nenhuma. É uma crença não justificada. Crença as há, e podem ser aceitas por sua plausibilidade, face a fortes indícios de sua veracidade. Não é o caso da existência de Deus. Quem tem fé, crê de forma tal que se sente seguro da verdade de sua fé, dela não duvidando e deixando-a apenas face a uma ruptura drástica de suas concepções e visão de mundo. Crenças em geral, contudo, sempre são consideradas provisórias, mesmo que assim permaneçam indefinidamente, mas admitidas com a disposição de serem dispensadas, logo se mostre sua inadequação.
Atributos de Deus
A Bíblia descreve os atributos do ente a que se denomina Deus. Mas não é capaz de provar que isto não seja apenas um conceito, não correspondente a nenhum ser de fato existente. A Teologia é, pois, um conhecimento inteiramente vazio, meramente descritivo, do mesmo modo que se pode estudar como são os deuses mitológicos gregos pela leitura da Ilíada e da Odisséia, sem considerar que eles de fato existam. Ou os deuses do panteão hinduísta a partir da leitura dos Vedas. O Corão também descreve Deus com atributos diferentes da Bíblia e os islamitas o consideram como revelado pelo arcanjo Gabriel a Maomé. Allan Kardec, em seus escritos, considerados revelações pelos espíritas, traça um panorama inteiramente diferente do mundo espiritual. Quem está certo, e porque?
Citações bíblicas que dizem que Deus é real merecem mais crédito do que os textos de Allan Kardec que dizem que a alma se reencarna, por que? Porque se tem fé nelas? Mas há quem tenha fé no espiritismo (que não tem nada de cristão como algum o proclamam), ou em Brahma e Shiva.
Por ora vou interromper esta argumentação, apenas dizendo que o ateu não o é absolutamente por querer permanecer em pecado, considerando isto não como uma desobediência a vontade de Deus, já que não há Deus, mas como uma conduta em desacordo com a prática das virtudes e do bem. Pode haver ateu que seja pecador e ateu que seja virtuoso que, inclusive, se tivesse fé, seria considerado santo. Na verdade, a média dos ateus que conheço é mais santa do que a média dos religiosos.