Consistência e correção

by @ 22:27 on 16 novembro 2008. Filed under Epistemologia, Lógica

Sem dúvida, toda discussão pressupõe que a argumentação seja consistente e correta. A consistência ou validade da argumentação está na lógica, mas a correção está no caráter veritativo das premissas. A lógica garante que a conclusão que se tira, raciocinando sobre as premissas colocadas, isto é, o raciocínio, está validado. Mas a conclusão pode ser falsa, se se raciocinou validamente sobre premissas que não sejam verdadeiras. Então a veracidade de uma conclusão não depende apenas da validade do raciocínio (e do cuidado para que sejam evitadas as falácias citadas e outras), mas também de que ele tenha sido baseado em premissas verdadeiras. Estas, por sua vez, podem ser o resultado de raciocínios anteriores, mas, em algum momento, toda seqüência de raciocínios terá que se apoiar em premissas cuja veracidade não se verifica pela lógica, e sim pela constatação fática ou evidência. São os postulados e os axiomas de toda teoria. Se se tratar de uma teoria inteiramente abstrata, sem compromisso algum com sua adequação à realidade, então esses axiomas são arbitrários, podendo-se construir um arcabouço qualquer, inteiramente consistente e completamente dissociado da realidade. Isto pode ocorrer na Matemática. No entanto, as ciências fatuais pretendem construir modelos de explicação da realidade, de modo que as conclusões que se chegam possuam aderência à realidade. Então estas premissas indemonstráveis serão os postulados, que, mesmo não tendo nada anterior de que possam ser deduzidos, são induzidos a partir da observação fática. É aí que reside um grande perigo. Nossa apreensão da realidade se dá não apenas através dos sentidos (mesmo que auxiliados por instrumentos), mas também da modelagem que o cérebro faz, em termos de todas as nossas vivências, que transformam as sensações em percepções. E elas podem estar inteiramente equivocadas, especialmente se lidam com intervalos de abrangência do real inacessíveis ao cotidiano de nossos sentidos. É o que ocorre no micro e no macrocosmo, bem como nas ciências da mente.
Daí que, na construção do edifício do conhecimento, para que seja, de fato, uma “episteme” e não meramente uma “doxa”, deve-se trabalhar com uma “logica epistêmica”, cujas conclusões não são definitivas, mas condicionadas à veritabilidade das suposições. Do tipo: “Caso se considere que…. , então….., todavia, ….. “. Isto deve ser usado sempre que a garantia de verdade das premissas seja pequena. No entanto, se houver certa garantia, baseada na vivência observacional, pode-se tirar uma “endoxa”, que se entende não meramente como uma opinião, mas como uma “crença”, que, mesmo não sendo um conhecimento epistêmico, seja aceita como verdade de forma provisória, mas jamais dogmática. Nisto consiste o salutar “Ceticismo Metodológico”, que considero uma “conditio sine qua non” para se filosofar e construir ciência. É preciso que se entenda que a postura cética não é uma postura de rejeição a conhecimentos não assentados científica ou filosoficamente, mas uma postura de cautela em aceitar como verdade o que não tenha credenciais objetivas para tal.
Certos conhecimentos não são epistêmicos mas revestem-se de uma aparência de o serem, como a astrologia, numerologia, homeopatia, acupuntura, teologia etc. Outros estão num limbo, como a própria psicologia, a sociologia, a história, a geografia, a economia e a filosofia, que ainda se baseiam em muitas “endoxas”, quando não em puras “doxas”. Mas os próprios conhecimentos tidos como epistêmicos, como a física, a química, a biologia e a geologia também possuem suas “endoxas” e parece que a posse total e inquestionável da verdade não seja um empreendimento capaz de ser levado a cabo. Mesmo assim não se pode aceitar dogmaticamente nada como verdadeiro sem comprovação. Por isto as revelações religiosas não constituem conhecimento e a fé não pode ser erigida como critério de verdade.

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