Tempo infinito para o passado

by @ 13:22 on 23 dezembro 2008. Filed under Cosmologia, Metafísica

É ontológicamente perfeitamente possível que o tempo não tenha tido um começo e que se extenda indefinidamente para o passado. Se tal se deu ou não é uma questão a ser decidida por analise dos dados observacionais. O argumento Kalam não procede porque ele diz que, se o tempo fosse infinito para o passado, então nunca se passaria um tempo suficiente para vir do início dos tempos até o presente e, como estamos no presente, por absurdo, o tempo não poderia se extender infinitamente para o passado. Há um erro neste argumento que é o de considerar que teria havido um tempo zero, infinitamente afastado para o passado. Não é isto que se diz ao considerar um tempo infinito para o passado. Isto significa que não houve tempo inicial nenhum. Por mais que se vá para o passado, sempre haveriam momentos anteriores. Pois bem, tal coisa não é vedada por nenhum princípio físico ou filosófico. Nem a segunda lei da termodinâmica que apenas diz que o tempo flui no sentido em que o estado global do universo posterior seja mais provável que o anterior. A diferença pode ser infinitesimal e a entropia (que é proporcional ao logarítimo da probabilidade) e nunca diminui, pode tender assintoticamente a zero quando o tempo tendesse para menos infinito.

Ao que parece, contudo, pelos dados observacionais, de fato, o tempo teve um instante zero, antes do qual ele não existia (e, logo, não havia “antes”). É fácil entender a ausência da passagem do tempo, pois ele só passa porque existem variações no estado do Universo. Se tudo estacionasse, o tempo não mais passaria. Isto é, o tempo é função da dinâmica do conteúdo do Universo. Se esse conteúdo não existir, não passa também o tempo. Ou seja, não havendo nada, também não há tempo (nem espaço, mas isto não está sendo discutido aquí).

No entanto há que se considerar outra coisa. Da mesma forma que não é vedado considerar que o tempo sempre existiu (e, portanto, o Universo, já que só há tempo no Universo), também é possível que o tempo tenha tido um começo, antes do qual não havia nada, nem tempo, nem espaço, nem conteúdo do Universo, nem mesmo vazio. Nesse tempo zero teria surgido, sem causa, o conteúdo do Universo, o espaço para contê-lo (já que não existe vazio no Universo) e o tempo para que ele evolua (já que o tempo não passa se nada mudar). Isto é importantíssimo que fique bem claro: não é necessário que toda ocorrência tenha uma causa. O princípio da causalidade é um preconceito que advém de um raciocínio indutivo, baseado na constatação do dia a dia dos fenômenos acessíveis à escala de tempo e de dimensões próximas ao ser humano. Basta um único contra-exemplo para derrubar um raciocínio indutivo. Nas escalas do extremamente pequeno e do extremamente grande, tanto em termos de espaço quanto de tempo, eventos se dão normalmente sem que possuam causa, isto é, que não sejam efeitos. Por exemplo, a emissão de luz por átomos excitados (a excitação é condição e não causa), devido à interação eletromagnética, o decaimento radioativo, devido à interação fraca e a produção de par partícula e anti-partícula, devido à interação forte, por flutuações do vácuo (que não é vazio). Na verdade, o determinismo e a causalidade são aparências que se dão em virtude da “lei dos grandes números” das probabilidades, no caso de eventos ocorridos com coleções de inúmeras partículas, como os corpos macroscópicos.

Kalam não é o nome de uma pessoa e sim das escolas de ensino religioso muçulmano. O denominado “argumento Kalam” era ensinado nessas escolas como uma prova de existência de Deus, semelhante à prova do “motor primo” de Aristóteles, também defendida por Tomás de Aquino. O que o argumento Kalam acrescenta ao motor primo é o fato de que se poderia arguir que uma alternativa à necessidade de uma causa primeira seria a eternidade do Universo para o passado. Provando que o Universo não poderia ser eterno para o passado se concluiria que, por ter tido um começo, teria que ter uma causa, extrínseca a ele (pois não existia) que se identificaria com Deus.

Dizer que algo “não faz sentido” é outro preconceito advindo de nossas concepções humanas sobre a estrutura da realidade. Os eventos que eu mencionei realmente não possuem causa, e não apenas têm uma causa não detectada. Não há problema nenhum em que o Universo tenha surgido sem nada precedente que o tenha causado (isto é o que se quer dizer quando se fala em “surgir do nada”). Quando um átomo está excitado e elétrons estão em níveis superiores de energia, esta condição possibilita que possam cair para níveis mais baixos, emitindo fótons. No entanto não há mecanismo nenhum que desencadeie esta queda e ela pode se dar ao fim de qualquer tempo ou nunca. A única informação que se tem é sobre a média estatística do tempo de decaimento (vida média) ou do tempo em que metade de uma população tenha decaído (meia vida). Realmente a natureza não é causal e nem determinística. Isto é o seu comportamento intrinseco, que a Mecânica Quântica veio descrever em seu modelamento matemático e que Einstein, por exemplo, por preconceito, não admitia. Outros físicos, como David Bohm, para citar um bem proeminente, também não conseguiram admitir a incausalidade, mas ela é um fato incontestável, a que temos que acostumar e que, juntamente com a relatividade do tempo e do espaço, foram as maiores implicações que a Física legou à Filosofia no início do século XX.

Um dos problemas da Filosofia, depois que se livrou das amarras da religião, é ainda estar presa às amarras do homem, de que precisa também se libertar para ser uma disciplina que procura refletir sobre a realidade tal qual é, e não como o homem a concebe. Mas não é fácil.
Não é logico que o tempo tenha que preceder o conteúdo do Universo. Primeiro porque a natureza não tem compromisso nenhum com a lógica, que é um construto humano para disciplinar o pensamento. A natureza absolutamente não é lógica. Mas, mesmo dentro da lógica, nada há que indique alguma precedência para o tempo. Uma análise lógica, pelo contrário, mostra que o tempo é uma ocorrência advinda das mudanças de estado do Universo. O conceito newtoniano de tempo e espaço absolutos e apriorísticos não tem guarida no atual estágio de conhecimento científico.
Não há dúvida de que somos nós, humanos, os observadores da realidade e, para complicar, somos também parte dela. Mas, como na Teoria da Relatividade – que busca justamente achar o que não seja relativo – o que importa é compreender a realidade de forma independente do observador, humano ou não. Para isto, é claro, tem-se que entender os mecanismos humanos de percepção da realidade para, justamente, abstrair-se deles.

Não é verdade que a entropia sempre cresça em um sistema isolado e sim que ela não diminua. Nos processos reversíveis ela permanece constante. O Universo poderia ter passado por um estágio, anterior ao big bang (se ele já existisse antes) em que toda mudança de estado fosse reversível.
Como eu descrevi em tópico anterior, não há impedimento do tempo ser eterno para o passado e, mesmo assim, estarmos no presente. Não é preciso haver uma contagem desde um instante inicial. Este pode nunca ter existido. Mas, mesmo que o tempo seja infinito, isto não esgota a ocorrência de todos os eventos possíveis, pois o infinito do tempo é o do contínuo (alef 1), enquanto o dos possíveis eventos é o dos subconjuntos contínuos, que é alef 2 (o conjunto de todas as possíveis funções) que é um infinito de ordem superior ao contínuo.

É certo que a natureza não é lógica e que o critério de verdade é a evidência e não a lógica. À medida, contudo, que o comportamento da natureza for sendo desvendado, mister se faz adaptar a lógica para que dê conta dos fatos. Assim surgiram as lógicas policotômicas e difusa, por exemplo. Outra coisa é que a lógica não garante a veracidade de coisa alguma, mas apenas a validade do raciocínio. Se ele for aplicado a premissas falsas, as conclusões, apesar de válidas, serão falsas. Todavia muito do que se diz ser lógico, absolutamente não o é, independente de ser verdadeiro ou falso. Tal é o caso, por exemplo, do princípio da causalidade, que poderia até ser verdadeiro (mas não o é), mas, absolutamente, não é lógico.

Quanto à questão da causa e do começo, vamos analisá-la. Uma vez que causa não é uma necessidade, então o Universo não precisa ter causa (mesmo que tenha) seja ele eterno ou não, para o passado. Considerando que tenha tido uma causa, no entanto, mister se faz que tenha tido um começo, pois, se não o teve, e os eventos se sucederam uns causando os outros, nenhum deles foi causa de todos, pois sempre houve um que lhe tenha antecedido e o causado. Então o Universo, que é o conjunto de tudo, incluindo os eventos, não teve causa, caso tenha sido eterno para o passado. Por outro lado, se ele teve um começo, poderia ter tido uma causa, mas, como antes do começo ele não existia, esta causa lhe seria extrínseca. Mas, como o Universo é o conjunto de tudo, nada lhe é extrínseco, logo teve que começar sem causa. Então, seja ele eterno ou finito, não pode ter tido causa. Se é eterno ou finito, para o passado, é questão de investigação observacional.

Na verdade a expansão do Universo se deu a partir de uma condição de densidade muito grande mas não infinita, isto é, não houve singularidade nenhuma. Pode ser que esta condição já existisse sem que passasse tempo, uma vez que era todo o Universo e não estaria sofrendo alteração de estado. Admitindo a descrição aleatória como válida, pode-se considerar que, sem razão alguma, ocorreu uma alteração no estado, caracterizada pela subita expansão. Nisto deu-se o surgimento do tempo e, daí, vem toda a história do big bang. É perfeitamente admissível uma explicação sem porquê, pelo menos este inicial. O objetivo maior da ciência é explicar “como” tudo ocorre, podendo também achar porque, caso haja. Mas não precisa haver.

Realmente o tempo só se move para o futuro (os modelos que consideram a possibilidade de volta ao passado, como o do Novello, assim o fazem indo para o futuro em uma curva tipo tempo fechada, mais ou menos como o toro do Caio). Mas isto não significa que ele tenha que ter tido um começo (não estou dizendo que não tenha tido, mas sim que poderia não ter tido sem inconsistência nenhuma, isto é, o argumento Kalam é falso). Repito: uma eternidade para o passado não significa um começo infinitamente distante, mas sim a ausência de um começo. Isto não inviabiliza a existência do presente.
Quanto às teorias de Everett, Bohm, Multiversos etc., tratam-se de conjecturas, elas sim, infalseáveis e meramente especulativas. Para todos os efeitos, o Universo é único. Quanto à incausabilidade e o indeterminismo, eles são perfeitamente falseáveis e os experimentos os confirmam.

Certamente nada pode estar localizado no infinito, seja ele temporal ou espacial, porque o infinito não é um ponto de coordenadas específicas. Infinito é apenas um símbolo que diz que aquela grandeza é maior do que qualquer valor que se possa imaginar. Dizer que o Universo seja eterno para o passado não é dizer que o momento de sua criação se localiza em menos infinito e sim que não houve criação nenhuma, isto é, que ele sempre existiu. Se houve uma criação, então sim, ela tem que se situar a um tempo finito no passado. Mas é possível que não tenha havido criação e nem surgimento incriado. Se isto parece ininteligível não o é mais do que supor a existência de um Deus eterno e incriado. Pode? Se pode para Deus, porque não para o Universo? Note-se que absolutamente não estou dizendo que o Universo seja eterno para o passado e sim que poderia ser, sem problema de ordem física e nem metafísica. Se é ou não é questão de investigar com base em dados observacionais. Por tudo que tenho conhecimento, não é, ou seja, houve um começo, no qual o tempo iniciou e quando surgiu o espaço e seu conteúdo. Note: ter surgido também não significa ter sido criado por algo extra-universal. Nada impede que tenha surgido do nada. Exatamente isto!

Algo que não tem causa não tem porquê. Não há explicação para uma ocorrência incausada. Ela acontece de modo fortuíto, ao acaso, sem motivo, sem razão. O preconceito está em supor que seja preciso se ter um motivo para cada evento. Há os que os têm e os que não os têm. Isto é normal na natureza, especialmente nos eventos elementares, isto é, experimentados pelos constituintes básicos do Universo, no nível mais profundo de redução. À medida que se eleva o nível de complexidade da ocorrência, então vão surgindo interações entre os eventos elementares que fazem com que possa se considerar relações de causa e efeito. No nível básico, tudo é aleatório. O acaso pode tudo e não tem explicação.

Como se pode ter certeza disto? Simplesmente não se tem. Aliás, certeza é algo impossivel de se ter, a respeito de qualquer coisa. A ciência não trabalha com certezas, mas com fortes indícios. Assim é muito mais plausível admitir-se a incausalidade do que a existência de causas ocultas. Mas nada do que a ciência propõe é garantido. É assim mesmo. Tudo é provisório e é preciso acostumar-se com esta postura. A ciência busca a verdade, isto é, descrições que tenham aderência ao comportamento da realidade, mas nunca sabe se a possui, apenas que dela se aproxima.
Não posso ter certeza de que não existem universos paralelos e nem de que existem. Então suponho que não existem, pois só tenho acesso a este. A existência deles, em sua própria concepção, é inverificável. É mais ou menos como o caso de Deus. Não posso garantir que exista ou não exista, mas não tenho comprovações de que exista. Então suponho que não exista. Esta é a hipótese nula, válida até que seja derrubada. Não se precisa provar que Deus não existe, mas sim que existe, pois não é evidente que exista. Tal é o estágio dos universos paralelos.
Só uma observação: se algo é um efeito, então tem causa, por definição. O que ocorre são eventos que não são efeitos. É possível que alguns eventos dos quais não se identifica a causa a possuam e isto venha a ser identificado no futuro. O que não se pode é considerar que a existência de causa seja uma necessidade. Não é! Não há argumento nenhum que exija causa para um evento. Isto é puro preconceito, advindo do senso comum. E como é uma conclusão obtida por raciocínio indutivo, não é logicamente necessária. É como as leis físicas, que valem enquanto não se descobre um fato que as contrarie. Então têm que ser corrigidas.

Produção de par de partícula e anti-partícula não é surgimento do nada, pois o vácuo não é vazio. Ele contém campos que possuem energia e outros atributos. Certamente tudo o que existe no Universo surgiu de partículas e anti-partículas que foram produzidas por flutuações do campo primordial, que era o único constituinte dos instantes iniciais da expansão. Mas não era nada e nem vazio. A questão ainda não explicada é a do surgimento desse campo ultra-concentrado, do qual tudo veio. Ou ele já existia antes que o tempo começasse a passar (o que se deu com o início da expansão) ou ele surgiu nesse momento. Neste caso a condição anterior era de inexistência de qualquer coisa: espaço, tempo, radiação, campos, matéria, com todos os seus atributos, como energia, carga elétrica, spin etc., inclusive as leis físicas. Isto é que se dá o nome de nada. Nada não é algo que exista. É só uma palavra para indicar a inexistência total. Até de Deus, que, aliás, continua não existindo.

Pois bem, o surgimento de tudo, sem que houvesse algo que lhe precedesse, é o que se chama surgir do nada, sem razão e nem propósito. Isto é perfeitamente admissível e é uma explicação muito mais plausível do que a suposição da interveniência de um agente extra-natural. A alternativa é de que tudo sempre existiu, mesmo que de outra forma. Se surgir do nada é difícil de se admitir, eternidade passada também o é.
Os números naturais, pares, ímpares, inteiros e racionais têm cardinalidade alef 0. Os reais e suas ênuplas, como os complexos e os quaternions, bem como seus abertos, além das matrizes, tensores e formas diferenciais numéricas, têm cardinalidade alef 1. O espaço das funções e dos funcionais, das matrizes, tensores e formas funcionais, tem cardinalidade alef 2. O conjunto potência do conjuto das funções (o conjunto de seus subconjuntos) tem cardinalidade alef 3, e assim por diante. O conjunto das possíveis ocorrências, como é o conjunto dos subconjuntos de ênuplas de números reais, tem cardinalidade alef 2, e portanto não pode haver uma função bijetora de domínio real que o tenha como contradomínio. Assim nem num tempo infinito em um espaço infinito (tetradas de números reais) seria possível que se dessem todas as ocorrências passiveis de se ter com os sub-sistemas do Universo.
consideração de que o presente atual ainda não existia em momentos passados que temos na memória, podemos inferir que haverão momentos futuros. Então, de nossa percepção e do cotejo das percepções de outros sujeitos, pode-se ver que existe algo objetivamente fora de mim, que é a sucessão de eventos a que chamamos tempo, e que ela prosseguirá além do presente momento. De fato, toda percepção que tenho da ocorrência de eventos fora de minha mente é a de eventos que já ocorreram, pois a informação sobre eles chega a mim com uma velocidade finita (no máximo a da luz). Na verdade a coordenatização do tempo pode ser feita em uma semi-reta apontada para o passado, cuja origem sempre está colocada no momento presente e que, continuamente, é acrescida dos momentos imediatamente transferidos para o passado. Pode ser que ela se extenda indefinidamente ou que seja um segmento com um ponto terminal no instante em que o tempo passou a existir. O que precisa ficar claro, contudo, é que essa sucessão existe independente de observadores que a contemplem. Isto é, mesmo que não hajam consciências para perceber o tempo, seu fluxo se dá do mesmo modo. Outra coisa é que não há meios de se definir, para todos os referenciais, uma única superfície (de Cauchy, se pensarmos em condições de contorno para equações diferenciais) global que seja o lugar geométrico de todos os eventos (pontos do espaço-tempo) situados no mesmo instante, por exemplo, o presente. Isto é, o que é presente para mim pode estar no futuro ou no passado de outro observador que se mova em relação a mim.

O conteúdo substancial básico do Universo é simplesmente um vasto campo, que preenche todo o vácuo (não existe vazio no Universo). Este campo, primordialmente indiferenciado, fez surgir, em suas flutuações, pares de partículas e anti-partículas, que são suas quantizações. Ao se aniquilarem elas produziam fótons (que são suas próprias anti-partículas), que consistem na radiação de fundo, até hoje observada. Como a densidade de energia do campo era grande, híperons se formaram. Como há uma assimetria na meia-vida da matéria e da antimatéria, pelo decaimento, alguma matéria não foi aniquilada e constitui tudo o que sobrou. Assim, tanto a matéria (férmions, isto é, quarks e leptons) como a radiação são provenientes desse campo do vácuo, que ainda existe mas já não é indiferenciado, estando principalmente na forma de fótons virtuais (campo elétrico) e os outros campos. O gravitacional, contudo, resiste às tentativas de unificação (a não ser que a teoria M seja comprovada, ou a teoria dos laços quânticos), e me parece que ele seja realmente dado pela geometria do espaço-tempo, não se constituindo em uma interação mediada por campo.

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12 Responses to “Tempo infinito para o passado”

  1. Euclides disse:

    Olá Ernesto
    Estive procurando por esse assunto pois estava pesquisando sobre a incoerencia do argumento de kalam e encontrei seu blog. Li, mas não consegui entender justamente o seu primeiro paragrafo, na parte central do argumento.

    Não entendi o trecho que vc fala que o argumento considera que teria havido um tempo zero, infinitamente afastado para o passado. Sinto realmente uma falha no argumento da qual não consigo descrever, mas não consegui visualizar esta falha específica que vc colocou, pois para mim soa incoerente falar em “ponto zero no infinito”. Não faz sentido. Não consigo interpretar que o argumento de kalam consideraria isso.

    Poderia me exclarecer exatamente este trecho?
    Fico no aguardo
    Um abraço

  2. Ernesto disse:

    Euclides,
    Exatamente a falta de sentido em se conceber um instante zero infinitamente distante no passado é que faz o argumento Kalam não ter sentido, pois ele considera que o Universo não poderia ser eterno pois não haveria tempo suficiente para se chegar ao presente a partir de um início infinitamente distante. Se fosse assim o argumento estaria correto, mas dizer que o Universo é eterno para o passado não é dizer que ele iniciou a um tempo infinito para trás e sim dizer que ele não iniciou, o que é completamente diferente e pode ser admitido como uma possibilidade real compatível com a existência do presente.

  3. Ernesto disse:

    Deste modo, invalidando-se o argumento Kalam, fica em aberto a alternativa à necessidade do “motor primo”, pela derrubada da premissa menor de seu raciocínio que é que a sucessão de causas e efeitos não poderia se extender indefinidamente. Assim não fica provado que Deus existe como a “causa primeira”, que é algo que não precisa existir. Certamente o argumento do “motor primo” tem outras inconsistências, a começar pela inveracidade da premissa maior, que é dizer que todo evento seja efeito de uma causa.

  4. Euclides disse:

    Obrigado pela resposta Ernesto. Mas me parece que dizer que o universo iniciou-se em um ponto infinito no passado, seria apenas uma forma didática de ajudar a visualizar a eternidade para se chegar ao presente, o que na verdade estaria-se dizendo exatamente que “começar” em um ponto infinito no passado seria equivalemnte justamente a não ter começado, pela definição de infinito. Não??

  5. Ernesto disse:

    Há, conceitualmente, uma grande diferença em não ter começo e ter um começo infinitamente no passado. A noção de começo, para o Universo, envolve, inclusive, o começo da contagem dos tempos. Então, não é possível ter havido um começo infinitamente afastado para o passado, pois aí, não haveria tempo decorrido para se chegar até hoje e hoje nunca poderia ser alcançado, validando o argumento Kalam. Isto é, ou o tempo é infinito para o passado, sem começo, ou o começo se deu há um tempo finito. Em ambos os casos pode haver “hoje”. No segundo é trivial e no primeiro, sendo o tempo infinito para o passado, o momento presente é apenas uma escolha arbitrária da origem da coordenada tempo como sendo agora. O infinito para o futuro ou a existência de um momento de cessação do fluxo do tempo é admissível em ambos os casos. Isto é, o eixo dos tempos pode ser uma reta, um segmento ou uma semi-reta com a origem no fim ou no início dos tempos. Mas a origem da semi-reta, como é um ponto definido, não pode estar infinitamente distante, isto é, infinito não é uma terminação nem um começo de nenhum intervalo, tanto física quanto matematicamente.

  6. Euclides disse:

    Eu acho difícil ver a diferença. Mas coloco de outra forma então: Se o tempo não pode ter surgido do nada, sem um motivo (que ja nos da uma noção de tempo, mesmo antes do tempo) então como seria resolver a questão se o universo o tempo é infinito, ou seja, não teve começo? Em outras palavras, se ha um tempo infinito no passado, o tempo presente nunca poderia ter ocorrido, pois a uma infinidade de tempos passados antes do nosso tempo presente ocorrer. Como resolver isso sem ter que assumir que o tempo derrepente, começou do nada a rodar?
    Abraço

  7. Ernesto disse:

    Vamos considerar as seguintes hipóteses sobre a origem do tempo cosmológico que atualmente desenrola (podem ter havido outros tempos que já se acabaram, como seria o caso no Universo cíclico, ou tempos que se desenrolam paralela e independentemente, como seria o caso se existissem múltiplos Universos – para mim nenhum dessas possibilidades ocorre). Note-se que só pode haver tempo se houver conteúdo, espaço e movimento no Universo, isto é, se o Universo existir e não for inteiramente estático.
    1) O tempo começou em um momento afastado de um valor finito de tempo do presente (é o caso que considero que ocorreu). Não há nenhum instante anterior a esse momento, como de resto, coisa alguma: matéria, radiação, campos, movimento e nem espaço vazio. O presente é facilmente intelegivel e, para o futuro, o tempo pode prosseguir indefinidamente ou cessar, assintoticamente ou não.
    2) O tempo sempre decorreu, sem ter tido um início. Então o Universo, com todo o seu conteúdo, o espaço e o movimento também sempre existiram. Isto é possível, contrariando o argumento Kalam, mas improvável, pelos dados observacionais. Se assim o for, é possível entender o presente, como um ponto (evento) qualquer, no espaço-tempo, em que se dá o agora. Não é preciso esperar um tempo infinito desde o início, pois não houve início. Neste caso, para o futuro, também se pode ter o prosseguimento indefinido do tempo ou sua cessação. Isto depende dos valores da densidade do conteúdo do Universo em suas três modalidades: matéria, campos e radiação ordinários, matéria escura e a dita “energia escura” (que não é energia, mas alguma modalidade de campo que “possui” energia, mas não “é” energia)
    3) O tempo passou a existir em um dado momento, mas este momento estaria infinitamente afastado para o passado. Isto é impossível que tenha ocorrido, pois, aí sim, não teria havido tempo para se chegar do início até hoje. O argumento Kalam diz que, como isto é impossível, então o tempo teria que ter tido um começo a um tempo finito, o que não é verdade, pois poderia não ter tido começo algum.

    Nada impede que o tempo tenha surgido, junto com o espaço e o conteúdo substancial do Universo (campo, matéria e radiação com seus atributos – energia, carga, spin etc) sem que tenha sido proveniente de coisa alguma anterior, pois nada havendo, também não há leis que sejam observadas, como a conservação da energia, do momento linear, do momento angular, do número bariônico, do número leptônico etc. Tais leis se referem a valores de grandezas de um sistema (O Universo) em momentos diferentes, e, portanto, só se aplicam enquanto houver momentos, isto é, tempo. No surgimento do Universo elas não se aplicam, pois não existe um “antes” para ser comparado com o “depois”.

  8. Anderson Luiz disse:

    Olá Ernesto
    Gostei do seu post.

    Gostaria de levantar uma questão. Se o universo surgiu “do nada”, como você mesmo diz haver essa possibilidade, ele não é eterno para o passado, então me supõe que não seja eterno para o futuro também, afinal, se surgir do nada contraria as leis da física, a hipótese de toda matéria do universo desaparecer em um passe de mágica é plausível, sendo assim, não se contaria mais o tempo.
    O problema é que como o Universo é infinito sua matéria também pode ser infinita…

  9. Ernesto disse:

    Antes é preciso distinguir “surgir do nada” de surgir sem ser proveniente de nada. Parece jogo de palavras, mas não é, porque “nada” não é uma entidade existente, logo não se pode surgir “do nada”, como sendo aquilo de que o conteúdo do Universo proveio. Mas ele pode ter surgido sem que fosse proveniente de coisa alguma. Se se entende que é isto que está se querendo dizer quando se diz “surgir do nada”, tudo bem, é possível. Mas a primeira acepção não é possível.
    Não ser eterno para o passado não implica, absolutamente que não possa ser eterno para o futuro. Claro que pode! Isto é, surgiu e nunca vai terminar. Como pode terminar e, a partir de algum momento não mais existir, nem o tempo, sendo este o último dos momentos. Como pode continuar a existir em espaço e conteúdo sem que o tempo continue a decorrer, o que aconteceria se ele atingisse uma situação de entropia máxima e nível de energia mínimo, o que impossibilitaria qualquer mudança global no estado do Universo, que é o que faz passar o tempo.
    A decisão a respeito do que possa ocorrer depende da obtenção de parâmetros mais confiáveis para a densidade média de massa-energia e da aceleração da expansão, inclusive de outras derivadas superiores (velocidade e aceleração da aceleração). Os valores atualmente disponíveis parecem indicar que o Universo expandir-se-á indefinidamente para o futuro, podendo, dentro de certo tempo, atingir um valor assintótico, que significa, na prática, seu último estado, inviabilisando a passagem do tempo, nessa “Morte Térmica”.
    Certamente que, sendo infinito, seu conteúdo também é infinito. Isto não é problema nenhum. É preciso entender que, se é infinito, sempre foi, desde o big bang. Naquele momento a densidade era quase infinita, mas como o conteúdo também era infinito, ocupara um volume infinito. Então começou a expandir. Infinito não segue as regras comuns. Um aumento do infinito continua simplesmente infinito. A separação entre os pontos aumentava e o Universo inchava, sem que nada saísse do lugar, continuando infinito e diminuindo a temperatura, que é a densidade de energia cinética.

  10. Anderson Luiz disse:

    Eu só não consigo entender uma coisa. A Teoria do Big Bang fala numa explosão que deu origem ao universo.
    Vou destacar o que você citou:
    “Naquele momento a densidade era quase infinita, mas como o conteúdo também era infinito, ocupara um volume infinito. Então começou a expandir.”

    Começou a expandir quando explodiu né? E é aí que começa a teoria do Big Bang certo?
    Mas porque essa “massa” de densidade quase infinita não é considerada Universo?
    Você citou no seu texto um campo ultra-concentrado porque ele não pode ser considerado Universo?

    Só consigo imaginar duas hipóteses, ou o Universo nasceu do nada (nada mesmo, esse que você diz ser impossível) ou sempre tenha existido, pelo menos esse campo ultra-concentrado.
    Eu sei que estou errado. Gostaria que me esclarecesse isso se posssível.

  11. Ernesto disse:

    Anderson.
    O Big Bang não foi uma explosão, pois explosão é o lançamento de um conteúdo para um espaço circundandente pré-existente. O Big Bang foi o início célere de uma expansão do próprio espaço, isto é da separação entre as coisas, não sendo elas lançadas para um vazio nenhum, mas continuando no mesmo lugar, só que os lugares se afastam. O espaço que se expande, o conteúdo que vai junto (campos, matéria e radiação) e o tempo que se passa enquanto isto, são o próprio Universo, que é, justamente, o conjunto dos eventos e do conteúdo que deles participa. Assim, ao iniciar a expansão, já há Universo. Ele é que se expande. O Big Bang não é o início do Universo e sim de sua expansão. Mas, quando e de onde surgiu seu conteúdo? Há duas hipóteses: ou já existia ou surgiu no momento em que começou a expandir. Se já existia, pode ser que tenha sido o resultado de uma contração de um estágio anterior de Universo que, ao atingir uma densidade máxima, em uma espécie de ricochete, começou a se expandir. Este Universo anterior, pode ter sido algo inteiramente diferente do atual, inclusive com outras leis físicas e com outro tipo de conteúdo. Um “outro Universo”, então. Nosso tempo começou na expansão. Antes dela poderia haver outro tipó de tempo e outro tipo de espaço, como acontece dentro do buraco negro. Nosse tempo atual começou a contar com o início da expansão. A outra possibilidade é a de que o conteúdo tenha surgido no momento da expansão. É a que considero plausível, já que não se tem informação nenhuma anterior ao início da expansão. Quando digo que não surgiu “do” nada não estou dizendo que não surgiu “de” nada. Há uma diferença essencial. Surgir do nada significa que havia algo, “o nada” do qual tudo surgiu. Surgir “de nada” significa que não havia coisa alguma, nem conteúdo, nem espaço nem tempo. O surgimento se deu sem que houvesse algo do que provir. Aliás, é o que considera a concepção criacionista, pois Deus não teria “criado” o conteúdo do Universo a partir de algum conteúdo pré-existente. A diferença é sé que “criar” significa surgir por obra de um autor, enquanto apenas “surgir” não implica em autor nenhum. A teoria do Big Bang não faz consideração nenhuma a respeito do surgimento do espaço e do conteúdo que começaram a expandir. Não há teoria a respeito disto ainda. É possível que o espaço e o conteúdo já existissem sem que o tempo se passasse, pois estavam estáticos. Não há tempo sem mudança. Se o Universo parar de se expandir e tudo atingir o nível mínimo de energia e máximo de entropia, o tempo parará de passar. O problema da finitude ou infinitude do Universo não altera essas considerações. A diferença é que um Universo finito tem curvatura positiva e um Universo infinito tem curvatura nula ou negativa. Nenhum dos dois tem borda. Se for finito, no início da expansão, seu volume seria quase nulo. Se for infinito, sempre foi e sempre será infinito. Ao que parece, é infinito.

  12. Anderson Luiz disse:

    Ok, me deu uma iluminada nessa questão.
    Muito Obrigado professor.

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