Argumento Cosmológico

by @ 23:51 on 2 fevereiro 2009. Filed under Ateísmo

O argumento Kalam, proposto por Avicena (Kalam é um tipo de seminário muçulmano), baseia-se na prova do motor primo de Aristóteles para a existência de Deus, acrescentando uma justificativa para a premissa de que a sequência de causas não pode ser infinita, pois isto levaria um tempo infinito e neste caso, desde o primeiro evento, não teria passado tempo suficiente para estarmos aqui e estamos. Por absurdo, não é possível que o tempo se extenda infinitamente para o passado, havendo assim um início. O erro está em supor um primeiro evento infinitamente afastado para o passado. Tempo infinito não é isto. É não haver primeiro evento nenhum. Então pode-se por o zero dos tempos em qualquer momento, por exemplo, agora.

Outra falha no argumento cosmológico da existência de Deus é de que tudo tem que ter uma causa. Não tem, mesmo para seres contingentes. Tomás de Aquino, no artigo 3º da questão 2 da 1ª parte da Summa Teologica (http://www.newadvent.org/summa/1002.htm) dá cinco provas da existência de Deus. A primeira (motor primo) e a segunda (causa primeira) usam o argumento Kalam e esta premissa, admitida como axioma, mas não é.
Mesmo que se considere a necessidade de uma causa primeira e um motor primo, não há evidência nenhuma de que tal coisa possa ser identificada com a entidade que se entende pelo conceito de Deus.
E, finalmente, resta a questão: qual então a causa de Deus? Se Deus pode ser uma excessão de não ter causa e ser eterno, porque não o próprio Universo?

A teoria aristotélico-tomista de ato e potência é a visão escolástica da metafísica, mas não significa que as coisas, de fato, sejam assim. Não é verdade que tudo que se transforme já seja aquilo que vá ser, em potência. Muitas coisas são formadas por agregados de outras que, isoladamente, não têm nada a ver com o que resultará de sua combinação. Dizer que um pedaço de mármore já seja uma escultura em potência é uma rematada bobagem.
Outra coisa: realmente não há garantia nenhuma que todo evento tenha que ter uma causa. Isto provém de um indução a partir da observação das ocorrências cotidianas. Mesmo que nunca se tenha observado um evento que não tenha causa, não se pode dizer que todo evento tenha causa. Mas, de fato, existem miríades de eventos que não têm causa, como o decaimento de um elétron excitado em um átomo ou o decamimento radioativo. O “Princípio da causalidade” é um mero preconceito.
Não existe ser algum que seja necessário. Tudo poderia não existir. Só existe por acaso. Esta contingência não implica que não possa surgir sem causa. Isto é uma afirmação gratuita.
Por outro lado, o que impede que o Universo tenha sempre existido? Não considero que assim o seja, mas não vejo nenhum impedimento. A conclusão se tirará da análise dos dados observados, que ainda não são suficientes para tirá-la.
O ser não pode provir do não ser, mas pode simplesmente surgir sem provir de coisa alguma. Porque não?
É claro que a inteligência pode provir da não inteligência. A inteligência é algo que emerge do sistema nervoso a partir de um certo grau de complexidade. Nada requer que seja projetada e construída por outra inteligência. De onde se tira esta afirmação?
É claro que a ordem pode vir do caos. Nem a 2ª lei da Termodinâmica proíbe, desde que uma redução localizada de entropia seja compensada pelo aumento em outros lugares.
O acaso é capaz de qualquer coisa sem restrição alguma. E a inteligência não é um atributo da matéria e sim de específicas estruturas e dinâmicas, que, em funcionamento, a provocam.

Porque conceder a Deus privilégios de ser eterno, incausado, ato puro, poder absoluto? Se não se tem sentido indagar da causa da existência de Deus, porque indagá-lo do Universo?
Porque só algo espiritual pode ser eterno?
E afinal, o que é algo espiritual?
Como pode um espírito interagir com entidades físicas (matéria, campo, radiação)?
Se um espírito não é físico, não tem tamanho, nem massa, nem energia, nem localização, pois não está no tempo e nem no espaço. Como algo físico pode ser influenciado por um espírito?
Como um espírito poderia ver, ouvir, e ter outras sensações se elas são transmitidas por meios físicos, como a luz, o som, as moléculas odoríferas etc? Se ele não tem sensores que interceptem esses veículos transmissores, como tem percepções?

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One Response to “Argumento Cosmológico”

  1. julio cesar disse:

    E o argumento foi nocauteado, gostaria de deixar aqui também meu ponto de vista.
    1- argumento cosmológico que para minha pessoa é um raciocínio circular,
    2- inserir Deus, como causa primeira , é brincar de imaginar..
    3- a física esta a um passo de refutar fora da retórica este argumento.
    Certa vez ouvi ” – Na falta de prova para a exstencia de Deus , cabe á retórica defende-la”.

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