Misticismo quântico

by @ 22:24 on 15 fevereiro 2009. Filed under Esoterismo

O comportamento quântico exibe a dualidade onda-partícula apenas porque se quer modelá-lo em termos clássicos. O que, de fato, existe é uma coisa só: Um campo (eletromagnético ou leptônico, no caso de fótons ou elétrons) cuja dinâmica é matematicamente descrita por uma equação tipo ondulatória (de Maxwell ou Schrödinger) que, ao interagir, só o faz por meio de pacotes completos de seus atributos (energia, spin, momentum, carga etc). Nas formulações de Heisenberg e Dirac, essas entidades são descritas por “vetores de estado”, que se modificam ao interagir. As ocorrências que provocam tais alterações são descritas pelos operadores, que, para computação numérica de resultados, são representados por matrizes. Tal aparato matemático revela-se extremamente eficaz na predição de resultados realmente observados e é a base teórica do projeto de inúmeros dispositivos que, hoje em dia, tornaram-se lugar comum, como aparelhos celulares, raios laser etc. Daí a tendência positivista de muitos cientistas.
No entanto, filosoficamente falando, ainda não está firmemente estabelecida a natureza profunda da realidade física, donde as várias “interpretações” da Mecânica Quântica, que disputam a primazia de serem detentoras da verdade. O fato de ainda não haver alguma resposta não é desdouro algum. Outras ciências, como Economia, Sociologia e Psicologia, por exemplo, são muito mais aquinhoadas de “escolas de pensamento”, que apresentam propostas de explicação extremamente díspares e, ainda por cima, incapazes de fornecer uma previsão confiável da evolução de seus objetos de estudo.
Para elas, no entanto, não se aventam explicações “místicas” (exceto, talvez, para a Psicologia). Sua inexatidao se deve à complexidade de seus fenômenos em comparação com o conhecimento dos mecanismos de evolução das situações que ocorrem (o que também se dá com a Meteorologia). É consenso, porém, que, conhecidos todos os fatores e toda a dinâmica existente, tais ciências poderiam ser capazes de fornecer resultados corretos, seja qual for a escola.
Não me consta que exista alguma situação em que a gravidade não funcione e, certamente, um elétron colapsando não emite som, pois som é um fenômeno macroscópico, resultante do comportamente estatistico médio de coletividades extremamente numerosas de partículas (como também cor e temperatura). Além disso, a noção de “colapso da função de onda” não se sustenta em um modelo global em que observador e observado são subsistemas do sistema total que é o Universo. A afirmativa do Denis de que o Universo é incontrolável e imprevisível vém ao encontro de minha concepção de que não há projeto inteligente algum para ele. O fio da navalha dos valores das constantes físicas e cosmológicas que conduzem à possibilidade de nossa existência não precisa ser derivado de nenhuma “Princípio Antrópico”, podendo ser admitido como casual, mas que, de outra forma, não levaria tudo a ser como é. É o mesmo caso do ganhador da loteria que, antes do sorteio, tem a mesma probalidade de todos os outros de ganhar, mas, depois dele, tem 100%. Os valores dos parâmetros físicos não foram planejados para que existíssemos, mas existimos porque eles são como são, do mesmo modo que um sorteio de loteria não foi planejado para certa pessoa ganhar, mas ela ganhou porque deu o número que ela comprou. Se não fossem como são, simplesmente não existiríamos.
Isto é uma crença? Sim, é claro, mas uma crença bem plausível, face os indícios que se apresentam. Além da Bíblia judaico-cristã (Gênesis – 1400 AC), outras escrituras sagradas, como os Vedas (1500 AC), coletam tradições orais mais antigas, ainda pré-históricas, de mitos de criação que em diferentes versões, explicitam as crenças primodiais que o homo-sapiens, por sua inteligência e imaginação, aventou para o entendimento do mundo e de si mesmo nele. Sua credibilidade não tem fundamento algum exceto o de serem muito antigas, mas isto não garante veracidade a elas. O misticismo não se apoia em evidências e comprovações reprodutíveis e verificáveis por observadores imparciais.
É claro que a crença em Deus não se vincula à filiação a nenhuma religião, mas a maioria das pessoas se identifica a uma delas, em razão do costume social em que se inserem. As crenças religiosas resistem esse tempo todo, primeiro porque este não é um tempo tão grande (3500 anos), segundo porque a disseminação de conhecimentos científicos ainda é muito precária, sendo, inclusive, objeto de restrição por algumas comunidades religiosas. O fato de vários cientistas de renome crerem em Deus não garante a veracidade de sua crença, assim como o de outros tantos, de igual renome, não o fazerem, não garante que estejam corretos. Vários religiosos não entendem de ciência, como vários cientistas não entendem de religião. Isto é uma lástima. Para começar, todo cientista e todo religioso tem que, primeiramente, ser um filósofo. E, então, ver a sua ciência e a sua religião por um prisma filosófico, isto é, questionador. Além de, é claro, respeitar posições divergentes. Mas o proselitismo ateísta é tão lícito quanto o religioso, que sempre foi feito com refinadas técnicas de merchandising e, muitas vezes, ao fio da espada, nas diversas “jihads”. Se se aceitam “Paradas Gays” e várias outras manifestações de minorias, por que não dos ateístas? E o que dizer da insistência de missionários evangélicos de muitas confissões que visitam as casas tentando impingir sua cosmovisão. Nesse sentido, os ateístas são mais respeitadores da liberdade de consciência. Só que procuram mostrar o equívoco de se crer em Deus, de modo argumentativo. O fato da ciência não conseguir explicar tudo não significa que uma explicação natural não exista para tudo e que se deva assumir as explicações espiritualistas. Como também não garante que elas não sejam espiritualistas. Mas o ateu cético, como eu, julga baixíssima esta probabilidade.

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