Ateus e crentes

by @ 19:33 on 5 abril 2009. Filed under Ateísmo, Religião

Considero que os ateus têm o mesmo direito que os missionários de qualquer crença de fazer seu proselitismo. Há pregadores evangélicos e islâmicos muito mais incisivos que o Vides em condenar (algo que o Vides não faz) qualquer pensamento discordante do seu, inclusive em rádios e televisões, ininterruptamente transmitindo suas mensagens a todo mundo, sem que sejam por isto incomodados. Como eu, que já fui católico sincero e fiel, ele e muitos outros ateus assim se tornaram justamente por estudarem a fundo as bases de suas próprias crenças. Poucos crentes mantêm-se sinceros em sua crença após tal tipo de reflexão. Alguns, especialmente os que levam vantagem com a crença, como padres, bispos, pastores, gurus, médiuns, aiatolás etc, continuam a externar sua crença e até elaboram argumentos em sua defesa, para não perderem adeptos. Claro que há os que permanecem convictos sinceramente naquilo em que crêem. Estes eu respeito, mas não os primeiros. Todavia estou inteiramente convencido de que incorrem em um grande engano, assim como todos que possuem fé em alguma realidade supranatural, de modo que considero como a missão da minha vida levar a esses a luz da razão e do conhecimento, bem como o valor do ceticismo, juntamente com a disposição para dedicar a vida ao prevalecimento do bem e à erradicação do mal.
O grupo da Gnose de Princeton e a New Age, bem como Amit Goswami, Fritjof Capra, David Bohm, Eugene Wigner, Deepak Chopra, Carl Jung, Rhonda Byrne, Elaine Pagels e mesmo Einstein, Penrose, Schopenhauer e Spinoza, em suas considerações panteístas sobre a existência de uma consciência cósmica, que se manifestaria diretamente a cada mente por gnose, que promoveria uma coordenação inteligente da evolução tanto cósmica quanto biológica e que possibilitaria o entendimento das perplexidades interpretativas da Mecânica Quântica, na verdade fazem uma proposta gratuita, com base em convicções pessoais não verificadas e nem verificáveis, mais ou menos como a cosmovisão espírita de Allan Kardec. Modernas pesquisas neurológicas indicam que o cérebro possui uma propensão para a crença, como artifício capaz de propiciar uma vantagem seletiva ao longo da evolução. Isto não significa, em absoluto, que o objeto das crenças seja realidade. O atual estágio cultural da humanidade não mais requer tal comportamento para a garantia da sobrevivência. É certo que crentes estatisticamente são mais felizes e longevos. Isto pode ser atribuído à sua maior integração na comunidade, em contraste com a rejeição que se tem aos céticos, ateus, homossexuais e minorias em geral. Todavia, mesmo esta vantagem não justifica viver iludido. É preciso que a sociedade encare essas minorias como pessoas de bem, pois, inclusive, a proporção de malfeitores entre eles é menor do que na média da população.
O fato de não se ter, por enquanto, uma explicação evolutiva cabal e pormenorizada para as complexidades biológicas que você citou, e mesmo para outras ocorrências nem tão complexas, não significa, absolutamente, que esta explicação seja dada pela interveniência de uma inteligência supranatural planejadora e executora da evolução. A aceitação do acaso para dar conta de tais fatos não precisa ser comprovada, pois é a hipótese nula, isto é, a que se considera como verdadeira, a não ser que se prove que não seja, mostrando-se outra que o seja. É preciso entender que o acaso é capaz de qualquer coisa. Outro aspecto que tem que ser entendido em probabilidade é que, se um evento tiver uma probabilidade tal que se possa dizer que apenas após um certo número de ocorrências ele se dará, isto não significa que, ao fim dessas ocorrências ele de fato se dará, nem que não se dará antes que elas sejam atingidas. Isto é a essência dos eventos aleatórios, de que cuida a teoria das probabilidades. Se você jogar na Mega-Sena, terá uma probabilidade baixíssima de ganhar, mas poderá ganhar, e há quem ganhe, senão ninguém jogava. Da mesma forma, o fato do Universo ter atingido a forma como se apresenta por acaso, dentre as imensas possibilidades de sua evolução (muitíssimo maiores do que a de acertar na Mega-Sena), não significa que seja impossível que tenha ocorrido, por acaso. Como poderia não ter ocorrido, ou mesmo nem ter surgido Universo algum. Se surgiu e se é como é, é porque esta foi a sequência de coincidências que se deu, e não outra. Do mesmo modo que quem ganhou na Mega-Sena não o fez porque o sorteio foi planejado para que ele ganhasse, mas calhou de ser ele, e não outro. Acho isto tão claro, que não entendo porque muita gente, ao contemplar tudo como é, conclui que teria sido necessário um plano e um executor para que ocorresse. Por que? Inclusive, se assim o fora, tal projetista seria bem incompetente, pois o Universo é lotado de defeitos e horrores.
Não nego que as religiões trouxeram contribuições positivas para a humanidade em vários aspectos, como no espírito de solidariedade (bom-samaritanismo), não só cristão mas muçulmano, budista, hinduísta, judaico, espírita, xintoísta etc. Outra coisa é o estabelecimento de um padrão de ética (os dez mandamentos). No entanto, tudo de bom que se pode imputar às religiões, não depende de suas doutrinas éticas, metafísicas e cosmológicas e poderia igualmente ser feito sem que elas existissem. O que não se pode fazer sem elas (ou, pelo menos, sem suas crenças) é colocar na mente a esperança na existência de uma vida eterna, na qual o prêmio ou o castigo pela conduta seria concedido e nem a esperança no socorro mágico de uma entidade onipotente, para a solução das vicissitudes que a vida apresenta.
É preciso que se entenda, contudo, que a esperança, assim como a fé, não são virtudes, como a caridade. Pelo contrário, são vícios. Ter fé é crer que certas proposições sejam verdadeiras sem nada que suporte tal crença, sequer indícios altamente plausíveis. Nada poderia ser mais desproposital. Crença é algo que se pode ter e, até, não há como se evitar de ter. Mas que se creia em algo que apresente, mesmo sem garantia, fortes indícios de veracidade. Tal é o caso da crença na realidade objetiva do mundo, independente de uma mente perceptiva.
E esperança é a convicção de que, de alguma forma, por um passe de mágica, sem que se tome a iniciativa de envidar esforços para tal, os problemas serão solucionados. Tão incoerente quanto a fé. Confiar, sem garantia, de que esforços envidados sejam capazes de solucionar problemas é até uma atitude salutar, no sentido de levantar os ânimos para redobrar os esforços. Mas esperança é outra coisa. É uma atitude passiva de uma pessoa pusilânime. Não tenho fé e nem esperança em coisa alguma. Mas creio e confio em que, por iniciativa de cada um e da sociedade em conjunto, seja possível transformar este mundo em um lugar aprazível, justo, pacífico, harmônico e feliz.

The URI to TrackBack this entry is: http://www.ruckert.pro.br/blog/wp-trackback.php?p=3042

Leave a Reply

Please note: Comment moderation is currently enabled so there will be a delay between when you post your comment and when it shows up. Patience is a virtue; there is no need to re-submit your comment.

[Ernesto von Rückert is proudly powered by WordPress.]