Existência do mundo independentemente de observadores

by @ 23:20 on 17 agosto 2009. Filed under Cosmologia, Metafísica

Que Amit Goswami seja um grandissíssimo charlatão eu já sabia desde o filme “Quem somos nós”. Não que ele não tenha competência como físico, mas que ele coloca seus conhecimentos a serviço de suas crenças hinduístas, como Tomás de Aquino o fazia com sua filosofia a serviço do Catolicismo. E Aquino foi uma inteligência elevadíssima, como é o caso do Wheeler (mas não do Goswami). Já estudei muitos artigos do Wheeler no meu mestrado em Cosmologia e minha bíblia era o livro “Gravitation” do Misner, Thorne, Wheeler. Mas grandes luminares da Física, como o Wheeler, Penrose, Bohm e outros, parece que se tornaram esquizofrênicos, como o Nash e estão tendo visões teóricas de possibilidades fantasmágóricas. É o caso dos Universos Paralelos, da Consciência Cósmica, e outras disparidades que tais. Essas interpretações alternativas da Mecânica Quântica (variáveis ocultas etc) sempre têm algum ponto em que o proponente diz: “isto só pode ser explicado se admitirmos que….” Isto é uma grande balela. O fato simples é só este: ainda não se tem explicação nenhuma para uma série de fenômenos quânticos. Isto não significa que elas não existam nem que se precise apelar para explicações sobrenaturais ou mirabolantes. Vamos esperar que elas apareçam dentro do contexto fisicalista reducionista, que é o único que tem sido capaz de dar conta de explicar tudo o que já se tem explicação. Inventar Deus ou seus equivalentes modernos é voltar às explicações mitológicas. É só a Ciência e a Razão mesmo que serão capazer de explicar o mundo. O resto é conversa fiada.
Quanto à existência do Universo, é claro que ele existe, independentemente de mentes observadoras. Se não existíssemos, a única diferença é que não saberíamos disso. Mas o Universo não dá bola nenhuma para a existencia da vida e da consciência em alguns de seus subsistemas. Sua existência ou não, não faz diferença nenhuma para as forças titânicas que o movem sem razão e nem propósito e que o levarão à sua evolução em decorrência de ocorrências fortuitas que se influenciam intercruzadamente, de modo que sua história futura seja impossível de prever. Daí professias serem uma impossibilidade total. Nostradamus e outros que tais foram meros palpiteiros inteligentes que, de modo completamente vago e impreciso, disseram que fotos completamente plausíveis iriam ocorrem não se sabe onde, quando e com quem de modo preciso. Aí, quando ocorre algum que se encaixa naquela previsão vaga, dizem que ele previu com segurança. Grande piada. De uma vez por todas, minha gente: não existem fenômenos paranormais, mediunidade, espíritos, alma imortal, deuses, anjos, demônios, sobrenatural, transmissão de pensamento, poder da oração, milagres e nada disso. Só a natureza e os fenômenos naturais (e os que dele decorrem, como os psíquicos, sociais, econômicos e culturais). Mas TUDO é capaz de ser convenientemente reduzido a fenômenos físicos.
Se a existência do Universo dependesse da existência de algum observador teríamos uma inconsistência intransponível. Ora, como o Universo é o conjunto de “TUDO” então o observador é um subconjunto do Universo. Se o Universo depender de sua existência então ele depende de si mesmo. Isto é, ele só poderia existir se existisse. Porque assim haveria algum observador que o fizesse existir. Isto é completamente ilógico. Mas, como o Universo não é lógico (Lógica é um construto da mente humana), não é porisso que não é possível. Não é possível porque é fenomenológicamente impossível. É como se você tivesse que ser o pai do seu pai para poder existir. Isto também é o motivo pelo qual não se pode viajar ao passado, mas apenas ao futuro, sem retorno. Mesmo nas curvas tipo tempo fechada, a pessoa poderia chegar ao seu passado, indo sempre para o futuro. Mas a partir daquele momento, o futuro que se delinearia não seria o mesmo que ocorreu desde que a pessoa iniciou a viagem.
Primeiramente é preciso saber que o conteúdo substancial do Universo é só 4% composto de matéria. O restante é radiação e campos das mais variadas formas. A consciência é o produto da evolução de conglomerados de matéria e campos que são os seres vivos, dos quais, por acaso, alguns adquiriram consciência, que é resultante da complexidade de sua composição, estrutura e dinâmica. Aquele conteúdo é que deu azo ao surgimento da consciência, que, absolutamente, não o precede. A existência do Universo, com seu conteúdo substâncial (campo, matéria e radiação), formal (espaço, tempo, estruturas e dinâmicas) e circunstancial (fenômenos e ocorrências, como a mente), não requer a existência prévia de nenhuma consciência para gerá-lo e nem poderia ser assim, de modo algum. A inexistência de tal tipo de coisa (o Deus dos teístas, por exemplo) é totalmente contraditória, pois se o Universo é o conjunto de TUDO, então Deus faz parte dele, não existindo antes que ele surgisse e não podendo, portanto, criá-lo. Alternativamente o Universo (com Deus dentro dele) poderia ter sempre existido. De qualquer modo não teria sido criado por Deus. Deus é um conceito inteiramente dispensável em qualquer cogitação. Absolutamente o Universo não deixa de existir se não for percebido.
A consciência psíquica não depende da linguagem e a precede bastante no tempo tanto na evolução da espécie humana, quanto no crescimento do bebê e, mesmo, na evolução das espécies como um todo. Outras espécies também possuem consciência, além da humana. Humanos desprovidos de linguagem formal (surdo-mudos de nascença, criados sem terem sido alfabetizados de nenhuma forma) possuem consciência e inteligência tão normais como os outros. Certamente que a linguagem propicia uma ferramenta poderosíssima de raciocínio, mas não imprescindível. Sem linguagem é possível fazer escolhas e tomar-se decisões pensando-se apenas por meio de imagens sensoriais visuais, olfativas, táteis, motoras etc. As próprias imagens retidas na memória funcionam como os símbolos linguísticos representativos do que eles significam e é possível, inclusive, construir raciocínios condicionais, isto é, pensar hipoteticamente e planejar ações futuras. Isto é, raciocínio proativo e não apenas reativo. Isto ocorre também com alguns animais.
A questão da consciência ética, com relação ao respeito ao semelhante e ao meio-ambiente, aparentemente está além do âmbito da biologia. Mesmo assim, é possível que a seleção natural, que, na espécie humana passa a incluir a seleção social, cultural e, mesmo, artificial, seja capaz de favorecer a disseminação dos pessoas do bem em detrimento das do mal e isto, inclusive, pode ser em razão de uma ação positiva das pessoas do bem. Não estou falando de um projeto eugênico de esterilização das pessoas do mal, porque não é comprovado que esta característica seja geneticamente transferida, mas um processo educativo agressivo de conscientização para uma opção pelo bem, como se pode fazer para a erradicação do tabagismo, por exemplo.
Já disse muitas vezes, em outras oportunidades, que uma probabilidade baixíssima não significa impossibilidade, de modo que é possível que um macaco, teclando ao léo, produza toda a obra de Shakespeare, mesmo com uma ínfima probabilidade. A existência de toda a complexidade da vida, extremamente improvável de ter ocorrido de modo fortuito, não é impossível que assim o tenha sido. A probabilidade do vencedor ganhar na loteria, antes do resultado, é a mesma de todos os perdedores, e ele ganhou. Além do mais, a probabilidade da formação de uma estrutura complexa, como um animal pluricelular, não se calcula tomando como unidades átomos ou moléculas, mas sim, por degraus, átomos formando moléculas, estas outras mais complexas e assim por diante, a cada passo o resultado do anterior sendo o elemento básico para o seguinte. Isto aumenta tremendamente a probabilidade. A interveniência de uma entidade extrínseca ao Universo é muito (quase infinitamente) mais complicada e inaceitável que o acaso.
Não acho necessária a admissão de Universos Paralelos para dar conta do sucesso do acaso.
O nível atual de entropia do Universo certamente é muito mais baixo do que o valor máximo capaz de ser atingido, o que, se, de fato, a expansão prevalecer indefinidamente, sem inflexão, possivelmente será assintoticamente atingido em cerca de 100 bilhões de anos. O mais interessante, contudo, é que o Universo tem a propriedade de promover reduções localizadas de entropia, às custas de um aumento maior nas vizinhanças. Estas reduções possibilitam a formação de galáxias, estrelas, planetas e vida. Isto é uma propriedade das interações puramente atrativas e cumulativas, como é a gravidade e as forças de Van der Walls e pontes de hidrogênio. A primeira possibilita a formação de estruturas astronômicas e as últimas de estruturas moleculares biológicas. Tudo isto depende do ajuste fino das constantes físicas que possibilitou que a interação elétrica fosse cancelada pelas repulsões e atrações, em um raio de alcance pouco maior que as dimensões atômicas, fazendo o fluxo eletromagnético total do Universo ser nulo. Não fora isto a eletricidade, que é extemamente mais intensa que as interações mencionadas, não possibilitaria a formação nem de moléculas nem de astros. Neste caso o Universo, se tivesse surgido assim, seria algo inteiramente diferente. O acaso possibilitou o ajuste que permitiu a ele ser como é, incluindo nisto a nossa existência.

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