Energia e psiquismo

by @ 23:20 on 14 setembro 2009. Filed under Consciência

Há grandes equívocos no entendimento do conceito de energia, especialmente em temas ligados ao esoterismo. Energia é um atributo físico de sistemas (subconjuntos do Universo) que lhes confere a capacidade de agir, provocando alteração em seu próprio estado ou no de outros sistemas, com os quais interaja. O conceito é, muitas vezes, confundido com o de “disposição” ou “ânimo”, que são estados mentais, certamente relacionados com a disponibilidade orgânica de energia, mas coisas distintas. O que confere energia ao organismo é apenas “alimento”, nada mais. Ânimo pode ser conferido por uma conversa, uma visão, uma lembrança etc.
Além disto, energia é, às vezes, considerada uma entidade e não o é. Energia é uma propriedade de entidades, expressa, inclusive, por uma grandeza mensurável, mas não existe, substancialmente falando. Nada “é” energia, mas pode (ou não) “possuir” energia. Além do mais, a energia é uma grandeza relativística de calibre, isto é, seu valor depende do referencial em relação ao qual é medida e da escolha arbitrária de seu nível zero. Ou seja, pode ser negativa.
Certamente que os fenômenos psíquicos, originários que são do funcionamento neuronal e do meio circundante, envolvem consumo de energia (Apesar de representar apenas 2% da massa corporal, o cérebro consome 15% do sangue, 20% do oxigênio e 25% da glicose). No entanto não vejo que haja diferença no tipo de energia consumida para cada função psíquica (percepção, memória, emoção, raciocínio, controle motor, linguagem etc), seja de modo consciente ou inconsciente. É sempre energia química, proveniente dos alimentos.
Como já mencionei na postagem sobre fisicalismo, a explicação para a mente está no fato de ser uma “ocorrência” advinda da composição, estrutura e dinâmica do cérebro, cerebelo, bulbo, medula, nervos, glândulas endócrinas e todo o organismo.
A mente é uma ocorrência bio-eletro-química.
De um modo geral o que se pode depreender é que os fatos da vida psíquica são decorrentes do funcionamento do organismo (especialmente o cerebro, mas não só) e se dão com o consumo de energia. Mas as peculiaridades de cada tipo de ocorrência não advém da modalidade de energia, mas da estrutura e dinâmica do processamento que se dá. E a complexidade é imensa. O cérebro funciona com processamento paralelo colossal, imensamente maior do que a mais vasta rede neural de computadores já montada. E o número de conexões entre os neurônios é da ordem de centenas de trilhões, mil vezes maior que o número de estrelas em uma galáxia ou de que o número de galáxias do Universo. De modo que o número de combinações possíveis de se montar uma estrutura de sinapses que signifique um dado pensamento é estupidamente maior (isto é, o somatório das possíveis combinações de todas essas conexões, desde apenas uma até todas elas – isto é maior que a fortuna do Tio Patinhas). Tal coisa é capaz de armazenar a memória de tudo o que se percebeu na vida, bem como elaborar todos os raciocínios, todos os sentimentos, todas as emoções, todos os desejos, todas as decisões, enfim, tudo o que puder ocorrer em uma mente ao longo da vida. Certamente que muito do que é formado é destruído, mas muito ainda permanece. Isto é o psiquismo!
Certamente que o psiquismo requer suprimento de energia, mas não apenas. Ele também responde a estímulos externos advindos do relacionamento da pessoa com o mundo, tanto natural, quanto social. Todos esses estímulos são mediados pelos órgãos sensoriais, único canal de contato do “eu” com o mundo (mas note-se que os sentidos não são apenas os cinco tradicionais, mas cerca de vinte). Não há nada de transmissão de pensamento ou coisa que o valha. E a recíproca, isto é, a estimulação de outros pela pessoa, se dá por seus orgãos da fala, sua musculatura esquelética, ou até pela exudação de odores. Todas essas trocas de mensagens intersubjetivas se fazem com o aporte de energia, mas não é a modalidade (sonora, térmica, mecânica (tátil), luminosa ou química), ou quantidade de energia que conterá a informação transmitida a ser assimilada pela mente de forma a produzir respostas imediatas ou mediatas em termos de conformação da personalidade e do carater, formação de lembranças, aquisição de habilidades etc.
O conteúdo da mensagem interpessoal ou transmitida pela coletividade ou o mundo natural está no seu “formato”, que, considerando linguagem de um ponto de vista bem amplo, envolve denotação e conotação. Não apenas o significado estrito dos significantes trocados, mas também os aspectos afetivos envolvidos (novamente entendido de um modo amplo) formarão o conteúdo da mensagem absorvida. O que se transmite não está na “energia”, mas no “aspecto” em que a mensagem, certamente portando energia, senão não passa, apresenta à mente. Em alguns casos é possível que a maior parte da mensagem esteja na energia, como ao se bronzear ao Sol, ou ao se levar um murro, mas são casos bem particulares.
Instintos, emoções, sentimentos, criatividade artística, volições e outros fatos da vida psíquica, do mesmo modo que memorização e lembrança, pensamento, raciocínio, inteligência, consciência, auto-consciência e também, fala, locomoção, digestão, respiração, circulação sanguínea, funcionamento endócrino, enfim, todas as ocorrência do organismo (dentre elas as mentais) se dão em decorrência do funcionamento do sistema nervoso controlador. Por mais sutil que possa parecer um sentimento de ternura que leve às lágrimas, ele é decorrente da físico-química do cérebro. Quanta complexidade é preciso considerar para que uma explicação possa ser dada de forma estritamente reducionista é muito mais do que qualquer rede neural hoje passível de concepção seja capaz de fazer. Imensamente maior. Mas não infinita e nem impossível de ser produzida artificialmente. Acontece que a humanidade é extremamente jovem neste planeta (menos de um milhão de anos) e a ciência existe apenas a um átimo no tempo geológico (o que não dizer do cosmológico). Pensemos no que poderá ter desenvolvido dentro de apenas algumas dezenas de milhares de anos, quanto mais quando a humanidade já tiver alguns milhões de anos. Tudo o que de mais avançado a ciência já produziu é uma infantilidade perante o que ainda virá. Não condenemos a ciência por ainda não ter explicações para a maior parte de tudo, porque ela está sempre a buscar, sem nunca supor que já encontrou. É assim mesmo e não esperemos demais em nossa curtíssima vida. Mas isto não justifica considerar que o reducionismo está equivocado, desde que visto da forma não linear que já mencionei. Assim ele abranje o holismo, que, na verdade, como é normalmente colocado, é uma capitulação perante a barreira de complexidade exigida para as explicações reducionistas. Mas eu confio que a “ciência dura” logrará escalar esta íngreme montanha, que é desbravar o conhecimento de modo estritamente científico. Inclusive, para mim, a própria Filosofia acabará por tornar-se científica.
Pode parecer que o monismo fisicalista seja uma mera hipótese no mesmo pé de possibilidades que o dualismo cartesiano, por exemplo. No entanto é fácil ver que o dualismo é uma opinião ou crença, sem fundamento em comprovações e evidências, não contendo sequer alguma plausibilidade ou indícios de veracidade. Por outro lado, o monismo fisicalista é embasado em grandíssimo número de estudos de casos clínicos neurológicos, em que a relação entre a fisiologia do sistema nervoso é seguramente associada a inúmeros fatos da vida psíquica. É certo que ainda não se conseguiu extrair o conteúdo de um pensamento, de um sentimento ou uma emoção a partir dos métodos de escaneamento cerebral. Isto significa que a tecnologia ainda é incipiente, mas o fato básico de que todo o psiquismo advém do funcionamento orgânico é inconteste. Pesquisas neurológicas sobre a consciência estão em curso e muito se tem progredido. O antigamente denominado “materialismo”, sem dúvida, fornece o sustentáculo para a ocorrência da mente e o desenrolar da história da ciência, neste aspecto, mostra que terá sucesso em prover todas as explicações ainda inexistentes.
Sugiro uma consulta à obra do casal Churchland, do António Damásio, de Steven Pinker e outros cientistas divulgadores. Recomendo também “Neurociências Cognitivas”, de Nicole Fiori e “A Mente Desconhecida”, de John Horgan, este jornalista, que discute o estado atual do conhecimento sobre a mente.
Gostaria que me apresentassem os casos neurológicos que contradizem o monismo fisicalista, mostrando em quê.
A favor desta concepção estão as ocorrências de patologias da mente advindas de lesões cerebrais, bem como a ação positiva de drogas psicotrópicas sobre o comportamento mental, não só as alucinógenas, como os medicamentos antidepressivos e outros, que mostram que ocorrências mentais se dão em função da ação de substâncias químicas e assim por diante.
O que me parece é que a resistência em aceitar a inexistência da alma e que o organismo assuma toda a responsabilidade pela ocorrência da mente está mais ligada a uma fé religiosa do que a evidências fatuais.

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