Sentido da Vida

by @ 1:03 on 26 setembro 2009. Filed under Pessoal, Religião

Mesmo que seja correta a idéia de que é preciso haver Deus para que o Universo e a vida tenham sentido, isto não garante que haja. Do mesmo modo eu gostaria que houvesse Deus, para que se fizesse justiça a uma pessoa má que tenha se dado bem na vida, cometendo atrocidades. Tal desejo não garante sua existência. No entanto, muita coisa mostra que é mais provável que Deus não exista (já falei sobre isto em postagens anteriores deste tópico). E, de fato, não há razão nem propósito para que exista tudo o que existe, inclusive o homem. Existe porque surgiu e poderia não ter surgido. De modo que a razão de ser de qualquer coisa é simplesmente existir e, se for vivo, viver. Seres conscientes como o homem sentem-se felizes e realizados quando encontram propósito para suas vidas. Cada caso é um caso. Os primitivos colocavam o sentido da vida apenas em garantir a sobrevivência e procriar. A civilização permitiu o ócio e com ele o surgimento da arte, da ciência, da filosofia, dos esportes, do lazer, da cultura. O homem, pois, começou a buscar outros significados para a vida e, dentre eles, a glória dos deuses que inventaram. Não só servir aos pressupostos desígnios do Deus judaico-cristão-muçulmano, mas de qualquer outro deles. No entanto tal significado, que aquiete a consciência, pode muito bem ser achado em realizações pessoais meritórias ao longo da vida. Bondade, solidariedade, generosidade, como todas as virtudes, são atitutes humanas que nada têm a ver com a existência de algum Deus (e sabemos que muitos conceitos de Deus não incluem o fato de serem bons. O próprio YHWH não é nada bondoso, mas cruel e vingativo – tanto que sacrificou seu próprio filho para satisfazer sua sádica necessidade de expiação). Não é preciso Deus para se achar um sentido para a vida. Eu, por exemplo, já fui católico fiel e piedoso, perseguia a santidade, ia à missa e comungava todo dia (no tempo em que era em latim), acompanhado no missal, rezava um rosário de joelhos todo dia e me aprofundava no estudo das escrituras e da doutrina.
Ao mesmo tempo me dedicava ao estudo de matemática, física, química, biologia, filosofia, geologia, astronomia, cosmologia, sociologia, história, música, literatura, artes plásticas, muito além do exigido na escola, pois sempre fui um “nerd”. Todos esses estudos e prolongadas e profundas reflexões me levaram, aos 19 anos, a concluir pela total improcedência da fé, qualquer que seja ela. Tornei-me, a princípio, agnóstico e, depois, ateu, da modalidade cética e não da dogmática. No entanto mantive meu alto padrão de exigência ética, concluindo que a busca da virtude e da verdade são metas elevadas a serem perseguidas por toda pessoa. E, principalmente, que nada têm a ver com religiosidade ou fé. No entanto a caridade permanece como uma virtude capital e o ensinamento de Jesus: “amai-vos uns aos outros” é a meta a ser seguida universalmente.
Nesse novo contexto vi que o objetivo da vida, para mim, especialmente na qualidade de professor (de física e matemática) é levar o esclarecimento e a atitude de livre-pensamento e ceticismo, no propósito de se encontrar a verdade, se as muletas da fé. E de passar à ação efetiva para erradicar o mal e fazer prevalecer o bem, sem esperança de recompensa alguma, nem de salvação eterna, mas pelo valor do bem em sí. A responsabilidade do ateu é maior ainda, pois ele sabe que não há outra vida para punir o mal e recompensar o bem. Isto tem que ser feito nesta vida, pela sociedade.
Assim considerada, a vida passa a possuir um valor inestimável, pois é única. É nessa perspectiva que vejo não haver necessidade de Deus nem vida eterna para dar significado à vida, que passa a residir nela mesma. Assim procedendo a mente se compraz e traz a satisfação de sentir que a vida de cada um faz diferença para a paz, harmonia e felicidade do mundo.
Santidade é um ideal de toda religião, não apenas a cristã. Ser santo é levar uma vida virtuosa e sem pecado. Isto pode e deve ser a meta de toda pessoa, tenha qualquer religião ou nenhuma. De fato, a história mostra que Jesus foi um santo, tanto quanto Buda, Sócrates, Francisco de Assis, Mahatma Ghandi, Zarthustra, Moisés, Chico Xavier e outros. Não conheço a vida dos grandes líderes protestantes a fundo para dizer se Lutero, Calvino e outros foram santos. Henrique VIII, certamente não foi. Mas, sem dúvida, há santos protestantes e evangélicos, bem como muçulmanos, budistas, hinduístas, espíritas, judeus, pagãos e… ateus. Sim, se entendermos por santo o virtuoso e por pecado um ato em desacordo com os princípios elevados da ética.

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