Indeterminismo e incausalidade

by @ 1:12 on 16 outubro 2009. Filed under Consciência, Física Quântica, Psicologia

Um aspecto fundamental que a Física Quântica intruduziu na epistemologia e na lógica foi a derrubada do determinismo e da causalidade. Isto é, dadas as mesmas condições e circunstâncias, um evento pode acarretar variáveis consequências, das quais só se conhece a probabilidade de ocorrência, mas nada determina, em cada caso, o que se dará e que é perfeitamente possível que um evento não seja efeito de causa nenhuma, isto é, que ocorra de modo fortuito e incausado. Isto é o comportamento da natureza em seu nível mais profundo, o das partículas subatômicas, da radiação e dos campos (é preciso entender que a realidade física é substancialmente composta de três tipos de coisa: campo, matéria e radiação, sendo as últimas quantizações da primeira – energia, diferentemente do que se pensa, não é um componente substancial do Universo, mas sim um “atributo” de seus componentes, como também carga, spin etc). O “Princípio da Incerteza” é um corolário desses comportamentos, que diz que duas grandezas canônicamente conjugadas (cujo produto tem a dimensão de uma “ação”) não podem ser simultâneamente medidas com precisão ilimitada, sendo o produto de suas incertezas pelo menos igual a h/4*pi, onde h = constante de Planck = 6.626068 × 10-34 m2 kg / s.
A ausência desses pressupostos na dinâmica da natureza derruba o famoso dito de Laplace:
“Une intelligence qui à un moment donné connaissait toutes les forces qui animent la nature et toutes les positions de tous les éléments dont la nature est composée, si cette intelligence ont également été assez vaste pour l’analyser, de comprendre en une formule unique les mouvements plus grands de les corps de l’univers et le plus petit atome, d’une telle intelligence rien ne serait incertain et l’avenir et le passé serait présent sous ses yeux.”

A valer o determinismo e a causalidade, seriamos todos zumbis e jamais poderiamos fazer qualquer escolha, caindo, desde já, por terra, o alegado “livre arbítrio”. Se é possível a uma ocorrência complexa como a mente humana (não só humana) executar ações decorrentes de decisões tomadas por escolhas (pelas consequências ou não) em função dos dados perceptivos, disponibilizados por seu aparato sensorial, bem como pelas evocações da memória, é porque, no íntimo dos átomos, não existe o determinismo, o que é um comportamento físico só revelado pela teoria quântica (mas que sempre foi o comportamento da natureza, que não dá a mínima importância ao que pensam os cientistas, filósofos e psicólogos).
O aparente comportamento deterministico e causal exibido pelos fenômenos da escala de percepções acessíveis ao ser humano deve-se à “lei dos grandes números”, da teoria das probabilidades, que faz com que um evento composto de um grande número de eventos aleatórios passe a ter uma probabilidade centrada em um valor bem definido, o que se pode chamar de determinismo. No entanto, dependendo da faixa de valores das variáveis aleatórias e do desenho do evento composto, é possível se encontrar um comportamento caótico, em que o resultado final seja extremamente sensível a pequenas variações dos valores de entrada, causando desvios consideráveis. O estudo da “Teoria do Caos” é extremamente útil para quem trabalhe com a dinâmica da mente, principalmente no estudo de casos de desvios comportamentais da pretensa normalidade, como a esquizofrenia.

Estou inteiramente em desacordo de que seja a consciência que determine a escolha quântica quando o estado de um sistema ainda inobservado colapsa para um dos autovalores do atributo que se está verificando. Nada há na Mecânica Quântica que leve a esta conclusão. Isto é uma interpretação metacientífica abraçada por um grupo de físicos, especialmente pelo Amit Goswami, o Fritjof Capra e outros, que considero inteiramente improcedente e resultante de suas convicções íntimas, certamente movidas pela necessidade gerada pelas imagens arquetípicas. Isto é, parece que sentimos necessidade de dar uma explicação para o desnorteante comportamento probabilístico da Física Quântica (que, afinal de contas, é, simplesmente, a Física). No entanto este colapso advém da interação do sistema com o agente observador, que não precisa ser consciente. Pode ser um aparato que o fenômeno do colapso ocorrerá. Além do que, se se entender que qualquer sistema é apenas uma porção do sistema global, que é todo o Universo, este colapso não é propriamente um colapso, mas um rearranjo da distribuição das densidades de probabilidade entre o sistema e a vizinhança que com ele interagiu ao fazer a observação, tenha consciência ou não.
E a consciência não é nada mais do que uma propriedade da mente, que é uma ocorrência advinda do funcionamento do organismo que a suporta, especialmente do cérebro (mas não apenas). A consciência, pois, também é decorrente e não precedente à composição, estrutura e dinâmica do organismo.

Realmente a Física Quântica não dá suporte algum às propaladas interpretações esotéricas do Amit Goswami, do Fritjof Capra e outros que tais. Esse negócio de consciência preceder a matéria é inteiramente inverossímil. Pelo contrário, a consciência é um produto da extrema complexidade da estrutura material do cérebro. E não existe consciência fora de seu substrato biológico, muito menos alguma “Consciência Cósmica”. Todas as interpretações alternativas da Mecânica Quântica são infundadas. Certamente existem problemas com a própria interpretação padrão (a de Copenhagen). Mas as outras não os resolvem. Isto é: ainda não se tem uma interpretação correta que correlacione a realidade da natureza com o modelo que dela faz a Mecânica Quântica, por mais sucesso operacional que este modelo tenha. Mas isto apenas significa que muito ainda tem que ser estudado e pesquisado e não que se deva logo apelar para explicações transcedentais. Isto é uma grande imprudência, que só se explica pelo fato de seu propositores já terem, “a priori” a cosmovisão de que o Universo seja permeado por alguma realidade transnatural. A não ser que isto seja cabalmente demonstrado por evidências, a hipoótese nula é a de que tudo seja apenas natural, pois isto é o que temos dos dados fatuais observados. Deuses e espíritos não podem ser admitidos apriorísticamente, mas sua ausência sim, pois que não há evidências de sua existência e, de modo algum, isto decorre da Física Quântica.

Existem níveis de probabilidade da realidade. O mais fundamental é o nível quântico, que se expressa pela probabilidade de ocorrência do estado de uma partícula, que sempre se encontra em uma estado “misturado”, mesmo quando sofra interação com outras partículas ou campos. Para um sistema de partículas, quanto maior e mais intrincadamente estruturado, mais essa probabilidade se concentra em torno de certos valores das variáveis descritivas desse estado, o que parece configurar uma situação determinística. É o que estuda a “Física Estatística”, que correlaciona as variáveis macroscópicas de estado com as correspondentes microscópicas. No entanto, a complexidade pode levar ao dito “comportamento caótico”, em que, na vizinhança de certos valores especiais das variáveis, o sistema não tende a retomar o equilíbrio, quando dele minimamente afastado, podendo ser levado a estados completamente díspares por pequenas perturbações. É o que acontece na dinâmica da atmosfera, por exemplo. Fatos psíquicos, sociais, econômicos e políticos, por exemplo, são mais complexos ainda que a dinâmica da atmosfera. O que não significa que não sejam, fundamentalmente, fenômenos físicos. Sim!!! Tudo é físico!!! Um movimento social, por exemplo, só existe porque elétrons orbitam os núcleos dos neurônios dos cérebros das pessoas. Não há outra alternativa. Jamais eu disse que o todo seja a “SOMA” das partes, mas sim que é o resultado (não da soma) da contribuição das partes de que é feito e do que fica de fora também. Mas não há nada que não se reduza às componentes. Isto é o reducionismo não linear, que abrange o denominado “holismo”, e a concepção dialétíca, desde que extendida para uma “polialética” de gradações contínuas (e não dicotômica), além de multidimensional. Assim é a natureza e a mente, a sociedade e a cultura são produtos da natureza.

Um sistema físico (tudo é um sistema físico) é quanticamente descrito por seu “estado”, que é como ele se encontra, não apenas em termos de sua composição e estrutura, mas também de como está funcionando e como tende a evoluir num dado momento. Isto é, o estado de um sistema é a sua configuração e a sua dinâmica. Para interagir com outro sistema (um observador, por exemplo) é preciso que haja alteração em seu estado, que provoque alteração no estado do outro sistema (considerando que qualquer sistema é um subconjunto do Universo, podemos entender uma interação como um rearranjo das características locais de porções do Universo). A questão fundamental da Física Quântica é que não se pode saber antecipadamente em que estado um sistema esteja a não ser que se interaja com ele. Dizemos, então, que ele está em um estado “misturado” das várias possibilidade, cada uma com uma certa probabilidade de ser revelada. É que, ao ser revelado um atributo do sistema (localização, velocidade, energia, momento angular, carga elétrica ou o que seja, por exemplo, num sistema complexo como uma pessoa, seu estado de humor), ele só é capaz de apresentar um dos possíveis autovalores do atributo em questão (por isto se chama isto de “Física Quântica”, pois “quantum” é um valor específico de um conjunto de possibilidades que não se distribui continuamente por todos os valores matematicamente admissíveis, mas apenas por uma certa coleção de possibilidades).

O fato da Física Quântica ter derrubado as noções de determinismo e causalidade, isto é pacífico.
Tais noções foram construídas por um raciocínio indutivo a partir da constatação de fatos observados no domínio de acesso da percepção humana, sem instrumentos sofisticados que permitam examinar o mundo submicroscópico, em que as concepções quânticas prevalecem. Toda conclusão por indução, contudo, não é garantida, e um único contra-exemplo a derruba. A todo momento estão ocorrendo fenômenos incausados e não determinados, como a emissão de fótons por átomos excitados em toda fonte de luz e o decaimento radioativo de núcleos excitados (a excitação é condição e não causa). Tentativas de preservação da causalidade foram feitas em propostas alternativas de interpretação da Mecânica Quântica, mas um exame apurado delas mostra que não lograram sucesso. A interpretação que prevalece é a de que, realmente, a realidade não é causal e nem determinista.

The URI to TrackBack this entry is: http://www.ruckert.pro.br/blog/wp-trackback.php?p=3405

Leave a Reply

Please note: Comment moderation is currently enabled so there will be a delay between when you post your comment and when it shows up. Patience is a virtue; there is no need to re-submit your comment.

[Ernesto von Rückert is proudly powered by WordPress.]