Fisicalidade do psiquismo

by @ 1:17 on 16 outubro 2009. Filed under Consciência, Psicologia

Elétrons orbitam o núcleo de seus átomos, que constituem as moléculas das proteínas e outras substâncias que formam as células. Todas as ocorrências que se dão no organismo, inclusive as transmissões de sinais neurais nos axônios, nos dendritos e nas sinapses se dão devido a forças elétricas dos elétrons das camadas de valência que respondem pelas reações químicas, pelo transporte de neurotransmissores e sua formação no meio glial, pela condução da corrente nervosa por inversão de polaridade na parede celular, devido às bombas de sódio, potássio e cálcio. A questão é, o que dá a partida nesse processo? (ou: o que provoca o pensamento?). São os estímulos sensoriais provindos dos inúmeros órgãos de sentidos, inclusive da percepção interna do cérebro sobre seus próprios registros, evocados, muitas vezes, de forma fortuita (o indeterminismo e a incausalidade). O sistema neural é uma complexíssima rede de processamento paralelo que não obedece a lógica dicotômica dos processadores eletrônicos. É justamente essa extrema complexidade que responde por todo o psiquismo. Mas isto ainda não está completamente esclarecido e ainda serão necessários décadas ou séculos de pesquisa para deslindar todo o processo. Todavia os indícios no sentido de uma explicação inteiramente fisiológica da mente são extremamente fortes, prescindindo do apelo a qualquer entidade de ordem anatural, como algum tipo de espírito ou mesmo de algo emergente mas não redutível ao comportamento bio-químico-físico, como um “epifenômeno” do cérebro.

É claro que a presença de radicais livres no citoplasma dos neurônios e, mesmo, no meio glial, como também de vários tipos de enzimas e proteínas, interfere no comportamento do organismo como um todo, senão não se teriam efeitos de drogas alucinógenas, psicotrópicos ou mesmo simples analgésicos, como os barbitúricos (mas não a aspirina, que aje no sistema vascular craniano) ou ainda os ansiolíticos e anti-depressivos. A ação química de drogas, como o lítio, no controle de patologias psíquicas é uma comprovação de que o psiquismo é de origem fisiológica.

É preciso entender que físico não é apenas material, mas tudo o que seja natural. Além da matéria temos os campos e a radiação, como entidades substanciais da natureza. Além disto temos o próprio espaço e o tempo, que são entidades físicas, os eventos, as interações, as ocorrências. Mas o que quero dizer é que existem estruturas físicas não localizadas e não substanciais (filosoficamente falando), como as informações holográficas para a reconstituição de uma imagem ou a evocação de uma memória, da qual participam registros disseminados por diferentes localizações do cérebro, que são reunidas na evocação, como os sons, imagens, odores, palavras, movimentos, emoções etc. E mesmo cada um desses registros pode estar em mais de um lugar do cérebro. Isto é, o fato de não haver localização para a mente, nem para a consciência, nem para o “eu”, não lhes tira a condição de serem ocorrências naturais, e, portanto, físicas. Por exemplo, quando se ouve uma música com fones de ouvido, não se consegue localizar a origem do som, que parece surgir dentro da própria cabeça. Isto porque não é acionado o mecanismo do lobo temporal que manda mensagem ao cortex frontal sobre diminutos atrasos na chegada das ondas sonoras aos dois ouvidos. Isto não significa que o som não seja físico. O pensamento, por exemplo, parece ser uma “fala” e uma “audição”, bem como “visão” e todos os demais sentidos e movimentos sendo percebidos internamente sem estarem acionados realmente. De fato o pensamento é isto, uma conversa interna. Para bebês que ainda não aprenderam a falar ou surdo-mudos de nascença, o pensamento se dá com a associação de imagens visuais, táteis, cinestésicas, emocionais e outras, diretamente, sem associação a signos linguísticos (a própria memória das imagens funciona como signos). Isto não é localizado, mas é físico, em sua origem.

Os elétrons não orbitam em torno do núcleo dos neurônios e sim em torno dos núcleos dos átomos dos neurônios, como, em geral, de todos os átomos. O que eu disse é que todo o psiquismo advém de reações químicas e de impulsos elétricos no Sistema Nervoso. O comportamento, pois, como é um processo que centra-se no sistema nervoso, envolvendo glândulas encócrinas e todo o organismo, é decorrente das interações eletrônicas entre átomos e moléculas. Isto é, tem uma origem bio-eletro-química. Não é fácil, contudo, identificar que particulares eventos, em que locais, determinam tal ou qual comportamento. O fato de drogas químicas modificarem o comportamento mostra esta sua origem. Os processos de escaneamento da atividade cerebral ainda não são suficientemente sutis para identificarem o conteúdo das ocorrências que registram, mas apenas o tipo. Tudo indica que o futuro reservará progressos nesse sentido. Minha concepção fundamental é a de que todo o psiquismo é decorrente de processos neurológicos. Isto pode ser confirmado não somente pela ação de agentes químicos, mas pelos registros tomográficos e, principalmente, pela observação de comportamentos modificados por lesões cerebrais. Em animais, estímulos elétricos diretos em neurônios acarretam ações comportamentais bem definidas. Tudo isto é corrente em pesquisas neurológicas atuais. Isto é bom para a psicologia, que deixará de possuir “escolas” que defendem interpretações discordantes e, como a Física, a Química, a Biologia, a Geologia, passará a adotar o “corte epistemológico”, segundo o qual novos paradigmas substituem os anteriores que passam a ter valor só histórico, ficando toda a comunidade aderida a um mesmo modelo padrão, até que venha a ser derrubado por novas evidências. Não é o que ocorre ainda com a psicologia, em que grupos distintos defendem paralelamente diferentes concepções.

Parece que deixei claro que não considero que a mente, a consciência e o “eu” sejam “entidades”. Minha concepção é de que sejam “ocorrências” e, neste sentido, são voláteis, isto é, só permanecem enquanto o cérebro continuar a funcionar (mesmo na inconsciência – mas não na morte – existe uma consciência em potencial, como um aparelho em “stand-bye”). Certamente que só existem se houver um substrato orgânico que as suporte (ou algum tipo ainda não desenvolvido de substrato eletrônico). Assim, não se caracteriza um dualismo de substância, nem tampouco um dualismo de propriedades, pois não há propriedades emergentes que façam da mente um “epifenômeno”. É simplesmente um “fenômeno” cerebral. O dualismo de substância encontra sérias dificuldades no entendimento da “conexão” entre a mente substancial etérea e o organismo biológico (essa história da glândula pineal não é coisa séria). Sendo, pois, algo que decorre da fisiologia, esta se reduz à química, que se reduz à física e a física é sempre a física quântica, mesmo quando a física não quântica dá conta das explicações, nos domínios em que o faz.

Mesmo dizendo que o psiquismo tem uma base física, não estou dizendo que a origem das ações que compõem o comportamento seja exclusivamente interna. Aliás, na maioria das vezes, ela se dá em resposta a estímulos externos, canalizados ao sistema nervoso pelos órgãos dos sentidos. Mas também pode surgir internamente. O repertório básico de comportamentos de origem genética são os instintos, que, num ser complexo como o humano, mesmo tendo uma força muito grande, representam uma fração pequena em comparação como o que é adquirido pela interação com o ambiente natural e social.
O que pretendi dizer sobre como as drogas modificam o comportamento é que não há razão para supor a existência de nenhuma entidade substancial adicional para explicar os fatos da vida mental. Uma observação é que tudo o que é biológico é químico, que é físico, de modo que todas as interações do organismo com o ambiente, natural ou social, se processa por meio de mensageiros físicos (som, luz, pressão, temperatura etc). Transmissão de pensamento não existe.
Acho que a Psicanálise, exatamente por não ser científica, em que pese o fato de Freud ter provocado uma saudável revolução em muitos paradigmas da psicologia, não é um conhecimento de confiança para ser incluído em um modelamento explicativo da realidade da vida psíquica. Mas também não acho que o Behaviorismo estrito (conhecimento em terceira pessoa) precise ser adotado. Uma sintese dialética pode ser obtida entre os experimentos controlados e os métodos de reflexão introspectiva, sempre com as maiores cautelas e com o uso permanente de um saudável ceticismo.

No meu entendimento, “físico” é tudo que seja natural, estudado ou não pela física. Físico são, pois, os sistemas compostos dos conteúdos substanciais e extensivos da natureza, que são campo, matéria e radiação (energia não é conteúdo, é atributo), o espaço, o tempo, as interações naturais, os eventos naturais que se dão com os sistemas, os fenômenos naturais e as ocorrências naturais: movimento, som, luz, calor etc. Por natural eu concebo tudo aquilo que não requeira interveniência de agente inteligente (humano ou não).
Por outro lado, para mim, concreto é algo que tem extensão espacial, sendo composto por algum conteúdo substancial, como campo, matéria e radiação.
Então algo pode ser físico e não ser concreto, como as interações e os eventos. Certamente a Física estuda tudo isto, mas a Química e a Biologia também. Todo fenômeno biológico ou químico é físico, mas nem todo fenômeno físico é químico ou biológico.
Então o que não é físico?
As entidades abstratas, os espíritos, se existirem, as ocorrências puramente mentais, sociais, culturais, econômicas, políticas e, se existirem, sobrenaturais. Os valores, as normas. Por exemplo: um pensamento, um raciocínio, um número, um sentimento, um preço, um mandato eleitoral, uma lei, uma poesia, uma música, a bondade, a beleza, a justiça, a honestidade, as figuras geométricas, uma sociedade anônima, uma empresa, uma religião, uma crença, uma idéia, um conceito, um signo, uma comunicação. O que caracteriza isso tudo é que sua existência depende da existência de mentes inteligentes, conscientes, sensientes, volitivas. Sem tais mentes, nada disso pode existir.
O importante, porém, é que tais entidades e ocorrências, a partir da própria mente, só têm existência, se houver substrato físico que as suporte. Daí minha concepção fisicalista do mundo. Espíritos e idéias não existem por si mesmos.

Não considero que a mente, a consciência e o “eu” sejam “entidades”. Minha concepção é de que sejam “ocorrências” e, neste sentido, são voláteis, isto é, só permanecem enquanto o cérebro continuar a funcionar (mesmo na inconsciência – mas não na morte – existe uma consciência em potencial, como um aparelho em “stand-bye”). Certamente que só existem se houver um substrato orgânico que as suporte (ou algum tipo ainda não desenvolvido de substrato eletrônico). Assim, não se caracteriza um dualismo de substância, nem tampouco um dualismo de propriedades, pois não há propriedades emergentes que façam da mente um “epifenômeno”. É simplesmente um “fenômeno” cerebral. O dualismo de substância encontra sérias dificuldades no entendimento da “conexão” entre a mente substancial etérea e o organismo biológico (essa história da glândula pineal não é coisa séria). Sendo, pois, algo que decorre da fisiologia, esta se reduz à química, que se reduz à física e a física é sempre a física quântica, mesmo quando a física não quântica dá conta das explicações, nos domínios em que o faz.

Não considero correto que qualquer proposição sobre o que for seja validada pela autoridade de quem a proferiu, mas sim pelo seu valor veritativo intrínseco, confrontada que seja com os mais duros questionamentos, dos quais logre sair vencedora. Assim não é importante saber o que Skinner ou quem quer que seja disse a respeito de algo, mas sim o que está sendo dito.

A questão é saber se o comportamento quântico da realidade física, em seu nível microscópico, afeta ou não o comportamento psíquico de seres possuidores de mente, em especial, de consciência, como o homem (mas não apenas). Certamente que sim e passo a argumentar (não sei se meus argumentos já foram ou não expressos por algum autor e nem me preocupo com isto. Mas eles são meus, com base em tudo o que estudei e refleti sobre o tema até hoje. Mudarei meu modo de pensar, logo que cabalmente convencido de meu erro).

No meu entendimento o caráter dito “holísitco” das ocorrências psíquicas (como das sociológicas e econômicas, por exemplo), entendido por possuir características que não podem ser reduzidas aos comportamentos biológicos, estes aos químicos e estes aos físicos, não prevalece. Isto é, todo comportamento de qualquer sistema, seja em que nível se analise é, em última analise, redutível a fenômenos físicos. Sim, até o amor, a arte, a política e a religião. Mas é preciso descartar o reducionismo linear ingênuo, que interpreta o todo como a “soma” das partes. Não! O todo é sempre proveniente da contribuição das partes, não só das que constituem o sistema em tela, mas também do restante do Universo. Isto fica claro ao se considerar que o todo não existe sem que existam suas partes e nem o resto do universo, do qual é um corte (subconjunto). Outra coisa que é preciso entender é que qualquer coisa não é feita apenas de sua substância (conteúdo), mas também de sua estrutura e de sua dinâmica, isto é, o modo como “funciona” e evolve no tempo. Um ser não é aquilo que ele “é”, mas o que “está sendo”.

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