Arte, inutilidade, beleza, ciência e filosofia

by @ 9:36 on 20 novembro 2009. Filed under Ciências, Estética, Filosofia

Na acepção mais básica possível, arte é o fazer e seu produto, englobando aí o artesanato, a engenharia, a indústria e as belas-artes. Em oposição, ciência é o conhecer, o saber, também englobando aí, nesta acepção básica, saberes empíricos e mitológicos. Numa acepção mais restrita, a arte (neste caso, as belas-artes) é um fazer enquanto comprometido com levar à fruição de um prazer sensorial e intelectual, advindo de alguma qualidade do produto, denominada estética, que leve a isto, não importando outras qualidades que possa ter, de caráter utilitário ou outros. Assim, a arte é inútil.
Acho que a arte, como criação, é um construto intelectual do homem em que ele usa sua sensibilidade, inteligência, vontade, habilidades, técnica adquirida e talento nato para fazer uma representação do mundo real ou imaginário, almejando levar ao apreciador uma sensação de prazer no ato de percebê-la, consistente em uma emoção advinda da interpretação feita pela inteligência do que a sensibilidade comunica.
Esse caráter estético pode ser considerado do ponto de vista do autor ou do apreciador. Um quadro pintado por um macaco pode não ser arte na intenção do autor, mas pode o ser na apreensão do apreciador. Do ponto de vista do autor a arte tem a intenção de provocar tal prazer. Notem-se três coisas: A arte não tem compromisso com mensagem alguma, exceto a estética. O prazer estético não tem nada a ver com beleza, o conceito de belo é outro. O feio pode ser arte. Finalmente, como qualquer ação humana, a arte não pode se furtar a ter um valor ético, que pode deliberadamente ser descartado, mas não deixa de estar presente.
Minha opinião é de que a arte não tem utilidade. Não é este o seu propósito. Mas justamente para as inutilidades, o supérfluo, é que faz sentido se lutar pela vida. O necessário à sobrevivência é mínimo. O que distingue o homem é almejar o inútil e se comprazer nisto. Trabalha-se para, afinal, se conseguir ser feliz e se é feliz quando se desfruta da vida com prazer. A arte dá esse prazer. A arte não precisa levar mensagem alguma para ser arte. Basta, do ponto de vista do apreciador, dar prazer em ser contemplada. Do ponto de vista do criador, certamente, a arte não é mero externar de sen-timentos e emoções. É, principalmente, um produto da inteligência, do trabalho, da vontade. O quadro feito pelo macaco não é uma obra de arte porque não foi produzido intencionalmente para tal. Mas pode ser apreciado como tal, se levar a quem o vê uma sensação de prazer estético. É claro que eu estou descartando a atitude imbecil de fingir que gosta ou entende de arte para dar a impressão de ser intelectual.
Dizer que a arte é inútil envolve uma ambiguidade proposital. A questão é o conceito de “útil”. No sentido pragmático, do que é necessário para a sobrevivência, a arte não tem utilidade. Mas ela se presta a promover o bem estar e a elevar o nível de felicidade. Quanto ao caráter formativo, no sentido de passar uma mensagem transestética, de valor ético ou ideológico, a arte se presta muito bem para tal, mas este não é o seu compromisso. Uma obra de arte conserva o seu valor estético mesmo que seja comprometida com nada ou que o seja com valores equivocados. Mas, é claro, a ética perpassa todo o fazer humano e, logo, não há como escapar. Mas a arte não precisa ter um compromisso, digamos, pedagógico.
Esta questão das inutilidades, da arte e de muita coisa nas ciências, na verdade é a mola mestra do progresso, não só técnico e material, mas, princi-palmente, cultural. Vejam minha especialidade em física: Cosmologia. Serve para quê? Para o mesmo que servem a poesia, a música, as belas artes: para elevar a mente, expressar o sentimento de deslumbramento frente ao Universo e, principalmente, em relação ao prodígio que somos nós mesmos. Não tem nenhum valor prático e nem precisa ter. É para o inútil que a humanidade aplica tanto esforço em produzir além do necessário para a mera sobrevivência. É nas inutilidades que se compraz o homem e alcança a felicidade de gozar um prazer inteiramente descompromissado.
Quanto à questão do belo e da relação entre o belo e a arte é preciso, antes de tudo, ver que são conceitos disjuntos. A noção de beleza tem a ver com a percepção do mundo por um ser sensiente e consciente. A arte tem a ver com certa produção de um ser inteligente. Um ninho de passarinho não é uma obra de arte. Assim alguma coisa é bela se provoca no observador sentimentos prazerosos ao percebê-la. Pode ser algo inteiramente natural ou um produto intencionalmente feito para provocar este tipo de emoção, dita estética. Assim concebida, a beleza de uma obra de arte não é necessariamente superior à beleza da natureza. Mas também não é necessariamente inferior. Depende de que obra de arte se está apreciando.
Uma característica importante da arte é que o artista tem que ser livre. A arte por encomenda só tem valor quando quem a encomenda deixa o artista livre. Mozart e Haydn compunham sob encomenda, mas Mozart, especialmente, fazia o que queria. Isto porque Mozart era um gênio e Haydn um grandioso talento. Já Beethoven rebelou-se completamente das encomendas. É claro que, mesmo sendo livre, a arte pode não ser boa, mas se não for livre é certo que não será boa. Note que disse boa, e não bela. O belo, na arte, não é necessariamente belo, na acepção corriqueira da palavra. A beleza da arte não é a beleza do que ela retrata. O artista pode passar ao apreciador algo feio como recurso de comunicação do que pretende externar com sua arte. Mas, fazendo-o com valor artístico, esse feio é belo.
Artista é isso: quem é capaz de expressar o sentimento em algo palpável, que outrem possa contemplar e captar. Mas arte não é só emoção e sentimento: é reflexão sobre como colocar o que se pretende, é inteligência, é trabalho, é vontade. São as idas e vindas, as decisões e indecisões. É o cansaço em cima da obra, até que se chegue ao que se concebeu. E, finalmente, o júbilo do parto, a contemplação da própria criação, aquela satisfação interna de ser um criador e não apenas uma criatura. Dá vontade de reter tudo consigo. Mas não se pode esquecer-se de ganhar a vida… E vender também é uma arte. A arte só vale se for para o outro, para o povo, para disseminar a beleza e, principalmente revelar uma postura de quem acredita na vida e nos valores maiores da humanidade. Assim sendo, rejubile-se o artista, pois é colega de Deus (supondo que exista).
Iniciei-me como cientista, mas desde cedo percebi que não se pode fazer ciência sem filosofar. E filosofar é debruçar-se, principalmente, mas não só, sobre a vida. A vida, contudo, só tem sentido se viver for a eterna busca de um significado que leve à felicidade de se estar vivo. Tal significado é dado principalmente pela arte. A arte, como expressão livre do espírito criativo do homem é sua maior realização, pois que não está comprometida com nenhuma utilidade, sendo, portanto, aquilo que o homem faz por puro deleite, mesmo que possa usufruir retorno por ela. Mas quem faz arte só pelo retorno financeiro não está fazendo arte. Assim comecei com o desenho e a pintura, depois a música, inclusive o canto, o ensaio, a crônica e, por fim a poesia. Meu ciclo se fechou e eu concebo todas as artes num único arcabouço, em que os diferentes sentidos se expressam por variados meios. Sempre há música e poesia na pintura, como há imagens na música, música na poesia e assim por diante. Chico Buarque compunha a letra e a música num único ato criativo. Esta é a minha concepção que, inclusive, vai mais longe. Vejo uma imensidão de música, poesia e beleza plástica na construção da ciência, especialmente na que me dedico, a Cosmologia, na qual me debruço sobre a origem, estrutura e evolução do Universo. E a Filosofia, então, nem se fala. Da mesma maneira, eu faço arte filosofando e coloco nela toda a ciência de que sou senhor. Assim é a série de “paisagens cósmicas” que estou pintando ou os poemas que escrevi e podem ser lidos no blog do meu site (procurar pela categoria “poesia”): www.ruckert.pro.br/blog.

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