Reducionismo não linear

by @ 22:28 on 22 novembro 2009. Filed under Epistemologia

Esta característica do todo não se reduzir à “soma” das partes invalida o reducionismo em sua concepção linear, mas não invalida o fato de que o todo só existe porque existem suas partes. De modo que as propriedades do todo, de alguma forma, derivam das propriedades das partes, inclusive se se levar em conta as influências do resto do Universo em suas características, pois isto é o complemento da união das partes. De uma forma mais ampla, o reducionismo pode abarcar o holismo desde que se renuncie a sua concepção linear e se admita termos de ordem superior e termos cruzados. Com esta concepção não se faz necessário apelar para nenhuma entidade “emergente”, do conjunto das partes, mas delas completamente disjunta, como é o caso do modelo da mente como “epifenômeno” do cérebro (não estou nem considerando o modelo dualista de uma entidade substancial incorpórea, que seria a “alma”). Tal visão do mundo, que eu denomino “fisicalista” comporta a existência de uma categoria de realidades que são as “ocorrências”, dentre as quais eu situo a mente, que não é material nem espiritual, mas decorre da substância (conteúdo físico, isto é: constituintes materiais e seus campos associados), estrutura e dinâmica (não só o funcionamento, mas o modo de funcionamento e a projeção temporal de funcionamento). Tudo concebido de uma forma em que a união disso tudo não seja dada por um simples “diagrama de Venn”, mas de uma forma a considerar retroalimentações, reforçamentos, influxos da vizinhança e tudo o mais.

Em termos matemáticos, se uma variável Z, função representativa de uma propriedade do todo, depender das variáveis X e Y (propriedades das partes), em um domínio fechado pela abrangência das partes constituintes, a linearidade significa:
Z = AX + BY, onde A e B não são funções de X e Y, mas representam a forma com que o todo é constituído das partes.
A não linearidade significa:
Z = A(X,Y)X + A’(X’,Y’) + B(X,Y)Y + B’(X’.Y’)Y+ C(X,Y)X^2 + C’(X’,Y’)X^2 + D(X,Y)Y^2 + D’(X’,Y’)Y^2 + E(X,Y)X*Y + E’(X’,Y’)X*Y + O(3), onde A, B, C, D, E são funções de X e Y, A’, B’, C’, D’, E’ são funções de X’ e Y’ (valores das variáveis X e Y no complemento de seu domínio em relação ao Universo) e O(3) são os termos de terceira ordem e superiores (que geralmente são cada vez menores).
Os termos de potência 2 e superiores representam os reforços, os termos produto são as influências recíprocas e os termos com coeficientes que são funções de valores fora do domínio, são as retroalimentações.

Outra coisa importantíssima são os níveis de explicação. Mesmo dentro de cada ciência, um fato da realidade pode ser explicado em termos de diferentes níveis, e, à medida que se aprofunda o nível, há um momento em que se passa para a seara de outra ciência, mais profunda, isto é, mais próxima do comportamento das entidades elementares da natureza (nível mais baixo, das entidades subatômicas). Os níveis mais elevados são os de maior complexidade, como, por exemplo, o arcabouço jurídico da sociedade organizada. Tal sistema só existe porque existe uma sociedade de pessoas pensantes e elas são pensantes porque possuem um sistema nervoso biológico, que funciona porque há reações químicas dentro das células, que se dão pela interação coulombiana de seus elétrons de valência. Mas não é nada adequado pretender explicar a lógica ou a validade ética de um sistema jurídico em termos da atração elétrica entre átomos no cérebro. Isto funciona mais ou menos como o que eu estou fazendo agora no computador. Cada tecla que eu pressiono faz aparecer uma letra na tela. Para isto acontecer há vários níveis de programas superpostos, desde o mais elevado (o navegador da internet), até o mais profundo (as portas do processador, que manda picos de voltagem para o controlador do canhão de elétrons do tubo CRT ou da placa do monitor LCD, de modo a que os pixels que formam a letra não emitam luz (para ficar preto)). Intermediariamente isto passa pelo kernel do sistema operacional, e uma série de programas, como o interpretador do código binário das letras (unicode, ansi, ou ascii). Mas um programador de alto nível não precisa saber em que perninha do processador ele tem que mandar que voltagem a que momento para formar cada ponto de cada letra.

Isto significa que o comportamento de qualquer sistema (físico, químico, biológico, mental, social etc), no fundo, se dá porque existem interações entre quarks, leptons, glúons, fótons e os bósons intermediários da interação fraca (que, por sua vez, poder ser modos de vibração de superfícies tipo tipo pneus de bicicleta, como o que a teoria das p-branas). No entanto, pretender construir uma ciência como a sociologia ou a psicologia em termos de equações que regem essas interações é um disparate. Contudo, certas características do comportamento, como a possibilidade da mente fazer escolhas, quase certamente é devida ao indeterminismo intrínseco nas interações fundamentais, que a Física Quântica mostrou que existe. Por outro lado, o fato das escolhas quânticas ser devido à interveniência da consciência psíquica, como o querem certos “físicos” esotéricos, não tem a menor chance de ser verdade.

O mundo não é constituído de seres, mas de seres e dos fatos que se dão com eles (pode-se dizer que um ser não é algo que “é”, mas que “está sendo”). Isto é, o Universo não é uma coisa feita de seu conteúdo, de certa forma estruturado, mas um organismo em funcionamento. Nada existe se não estiver evolvendo, isto é, mudando o seu estado (estado é a configuração e a dinâmica de um sistema), pois o tempo é uma decorrência das variações do estado do Universo, não havendo passagem de tempo se o estado ficar estacionário. Como a existência é uma permanência no mundo ao longo do tempo, sem que haja tempo não há existência. Donde nada existe se tudo for estático (por isto é que o Universo surgiu quando começou a expandir). Ora, comportamento é justamente o modo como alguma coisa acontece com os sistemas existentes no Universo (seus subconjuntos). Daí podemos dizer que ter conhecimento sobre o mundo é saber como ele é constituído e como se comporta. É isto o que busca toda ciência, cada uma no extrato da realidade em que foca sua atenção. Então o reducionismo é, de fato, uma redução de comportamentos de sistemas mais complexos ao comportamento de sistemas mais simples, entendendo sempre que esta redução não é linear, como já disse. Assim, o comportamento psíquico é uma função do comportamento físico, não só do organismo que suporta aquela mente, mas de tudo com o que ele interage. Todavia não se tem (por enquanto e, me parece, por um bom tempo), uma compreensão de como se dá essa ligação. O que está se conseguindo obter, a muito custo, é a ligação psíquico-neurológica, que é a ponte fundamental desse tipo de ocorrência. Mas esta também ainda não está suficientemente bem estabelecida. Acredito, contudo, que é só uma questão de tempo, mas pouco tempo, talvez só um punhado de décadas, no máximo poucos séculos.

Muito do que se discute em ciência e filosofia é apenas discussão semântica. Talvez por isto Deleuze disse que “filosofar é construir conceitos”. Certamente ele não tem razão, pois, mais do que isto, filosofar é descobrir as relações que os conceitos guardam entre sí. Se entendermos “emergência” como decorrência, isto é, o comportamento de um sistema mais complexo decorrer do comportamento de suas partes (não necessariamente de uma forma linear), isto, é claro, é o que sempre ocorre. Todavia, em muitas interpretações, a palavra “emergência” pretende significar que, no sistema mais complexo, surgem ocorrências que não podem ser creditadas ao funcionamento de suas partes, que têm uma existência própria por si mesmas. É o que se dá com a concepção de mente fornecida pelo “dualismo de propriedades”, em que, sem considerar a existência de uma entidade substancial distinta (a “alma”), no entanto concebe a mente como um fenômeno não redutível (mesmo não linearmente) ao funcionamento neurológico do organismo, o que é chamado de “epifenômeno”. Não vejo nenhuma evidência ou prova que suporte esta concepção.

A atração magnética não é matéria nem energia. É uma interação mediada por um campo eletromagnético. Certamente que, quando sob esta interação, os corpos envolvidos se moverem, haverá transferência de energia da forma potencial armazenada no campo para a forma cinética, do movimento dos corpos, ou mesmo térmica, se houver dissipação por atrito no movimento. Já o perfume é realmente devido à matéria, uma vez que são as moléculas aromáticas que sensibilizam as células olfativas da cavidade nasal. Mas o pensamento não é matéria. Se o fosse seria possível extraí-lo em uma seringa de um cérebro e colocá-lo em outro, que passaria a pensar a mesma coisa. O pensamento é uma “ocorrência”, um acontecimento que se dá na estrutura neurológica do cérebro, decorrente de impulsos de inversão de polaridade na membrana celular dos dendritos e axônios (por efeito de bombeamento de sódio, potássio e cálcio), bem como pelo salto sináptico, conduzido pelos neurotransmissores.
Quando digo que a mente não é um epifenômeno, quero dizer que não é algo emergente do funcionamento encefálico, neural, endócrino e do organismo como um todo, com características próprias que não sejam oriundas do funcionamento desse substrato orgânico, mas que, de fato, somente se deve ao funcionamento desse substrato, sem outra natureza que não física, mas não apenas material, como precisa ficar muito bem entendido. Isto é, dizer que algo é “físico”, não é dizer que seja material, mas sim “natural”, isto é, devido à composição substancial (matéria, campo e radiação), à estrutura e a seu funcionamento. Portanto físico são não apenas os corpos, mas os eventos por eles experimentados. Um fenômeno é uma certa categoria de eventos e uma “ocorrência” é um conjunto de eventos elementares correlacionados, envolvendo vários fenômenos. Um “comportamento” é um modo de se dar uma ocorrência. Assim a mente e todos os fenômenos psíquicos, como pensamento, percepção, memória, emoção, volição e outros são ocorrências, que podem ser consideradas de origem física.

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