A questão de trindade divina significa que o ser Deus seria um só mas constituído de três pessoas. O que é um ser? Começando pelo conceito de ente que vem a ser algo substancialmente constituído (isto exclui os eventos (fatos), os valores e demais abstrações, mas não os espíritos, por exemplo) que se possa identificar inequivocamente, mesmo considerando suas modificações pela evolução temporal (por exemplo, um guarda chuva que um dia trocou a capa, depois as varetas, depois a haste, depois o cabo, ao fim do processo não contém mais nada do original, mas é o mesmo guarda-chuva, por sua continuidade histórica, portando o mesmo ser, pois ser não é algo que “seja”, mas que “esteja sendo”, enquanto evolui). Um ente, contudo, pode ser apenas um conceito sem existência real no mundo, mas só nas mentes que o concebam. Um ser, contudo, é um ente que, de fato, exista. Um unicórnio é um ente inexistente, logo não é um ser. Existir é estar presente no mundo, no espaço e ao longo do tempo, isto é, ser real, constatável, identificável por suas manifestações perceptíveis. Isto não significa que tenha que ser algo concreto (material), ou natural. Um campo de força não é concreto, mas é natural. Um espírito não é nem concreto nem natural.
E uma pessoa, o que vém a ser? Pessoa é um ser dotado de personalidade, logo, para tal, de mente, dotada de inteligência, razão, sensibilidade, volição, presciência e consciência (e não apenas sensciência, reatividade e emoção). Não é necessariamente um ser vivo biológico. Se se produzir um robô, com mente, consciência e personalidade, ele será uma pessoa. Alguns animais superiores são pessoas, como chimpanzés, gorilas, orangotangos, bonobos, golfinhos, elefantes, e, possivelmente, papagaios e vários outros, talvez mesmo cachorros e gatos e demais canideos e felinos (ou até cavalos etc). A característica de ser “pessoa” é a de possuir os atributos que caracterizam uma personalidade individual, como temperamento, preferências, idiossincrasias, caráter e autoconsciência ( o “eu”).
Para justificar que Jesus fosse Deus, inventou-se a tese de que Deus, além de um ser criador e provedor do mundo (Mundo é o Universo natural acrescido de tudo o que existe sem ser natural, como as entidades sobrenaturais (espirituais), as abstrações, a sociedade, a cultura, a economia, a política, as religiões etc), teria a peculiaridade de possuir em sí três pessoas, conhecidas como “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo”. Cada uma delas possuiria sua própria personalidade. Isto pode acontecer em pessoas humanas que exibam um tipo de patologia mental de múltiplas personalidades. E elas poderiam, como têm inteligências, sensibilidades e vontades independentes, agir, cada uma a seu gosto e capricho. Enquanto o Pai se incumbiria de criar o Universo, o Filho (o verbo) é quem se comunicaria com os humanos e o Espírito Santo santo quem infundiria nas mentes a graça divina (graça é uma propriedade espiritual, concedida “gratuitamente” por Deus, capaz de municiar o homem das disposições para agir santamente).
O fulcro distintivo do cristianismo é o “Mistério da Redenção”, já que a “Criação” é comum a outras religiões. Isto significa que, ofendido pelo pecado original, Deus impediu o homem de viver eternamente no paraíso, em beatitude, condenando-o a morrer, trabalhar para viver, e parir com dor (no caso da mulher). Mas, após a morte, mesmo sendo justo e bom, a alma do homem não iria para o céu, apesar das imolações de cordeiros em súplica redimidora. Só o sacrifício de uma vítima perfeita satisfaria Deus e aplacaria sua ira. E como perfeito, só Deus mesmo, em sua misericórdia, Deus resolveu se sacrificar a si mesmo, em sua segunda pessoa, que se tornaria unida a um ser humano (com corpo e alma humanas) e seria imolado (Jesus), uma vez que Deus, em si mesmo, não morreria. Então Jesus expirou na cruz para nos salvar e depois ressuscitou e subiu aos céus corporeamente, com isto permitindo que as almas dos que morrem em estado de graça pudessem ir para o céu.
Mesmo considerando que Deus exista, as noções da Trindade e da Redenção encontram sérias dificuldades. Não é a toa que são chamadas de “Mistérios”. Realmente é um mistério considerar que Deus tenha tripla personalidade, mas, como a própria existência de Deus já é algo de difícil entendimento, isto não é o mais relevante. Mas a redenção é algo bem esquisito, especialmente porque a noção de Deus cristã envolve os atributos de amor, bondade e perdão. Onde estão estes atributos em Deus ao exigir o sacrifício de Jesus para perdoar a humanidade? Porque não perdoou simplesmente? Isto revela um sadismo da parte de Deus. Além de, é claro, tal redenção só ter sentido se a história de Adão e Eva for interpretada ao pé da letra, descartando o surgimento da espécie humana por evolução biológica, fato inconteste, revelado por evidências superabundantes. De modo que, a considerar que Deus exista, acolher também as noções de trindade e redenção já coloca a questão em um nível de implausibilidade elevadíssima.

