Eventos sem causa

by @ 22:42 on 6 dezembro 2009. Filed under Cosmologia, Física, Metafísica

Eventos sem causa são possibilidades e, mais que isto, realidades. O princípio, segundo o qual todo evento seja efeito de uma causa, é uma indução, baseada na observação de fenômenos acessíveis à observação direta, isto é, na escala de tempos e dimensões compatíveis com os sentidos humanos. Como toda consequência induzida, ele não tem garantia de validade e nem de veritabilidade, como nos casos de dedução, em que, sendo as premissas verdadeiras e o raciocínio válido (não falacioso), a conclusão é verdadeira também. O que se pode dizer é que a ocorrência de muitos casos, em que eventos sejam efeitos, leva a induzir que assim o seja em todos os casos, sem contudo se poder garantir tal assertiva, que é derrubada com a constatação de uma simples exceção.
Para prosseguir, preciso dizer que “causa” é um evento determinante da ocorrência de outro, dito seu efeito, enquanto “condição” é um fato que possibilita, mas não determina a ocorrência de um evento. Uma relação causal se dá entre eventos (fenômenos, acontecimentos, ocorrências) e não entre seres (entidades realmente existentes e não apenas conceituais). Não se pode falar sobre a causa do Universo e sim sobre a causa do surgimento do Universo (evento que consiste na passagem de inexistência para a existência). Além disto é preciso distinguir os eventos elementares ou simplesmente “eventos”, que envolvem apenas entidades elementares (uma partícula, por exemplo) dos fenômenos ocorridos com sistemas complexos, constituídos de inúmeras partículas reais, quer da matéria (férmnions), da radiação (bósons) ou de partículas virtuais (campos).
Dentre os eventos elementares e mesmo os que envolvem sistemas de poucas partículas, como átomos, vários ocorrerem de modo fortuito, isto é, incausado. Dentre eles destacam-se o decaimento radioativo e a emissão de fótons por átomos ou moléculas excitados. A excitação não é causa e sim condição para o decaimento. Nada há que determine o decaimento. Cada átomo decai após um tempo aleatório, sem que nada determine que o faça, da mesma forma que a radioatividade. A única informação que se tem é sobre o tempo médio de decaimento ou o tempo para que metade de uma amostra grande tenha decaído, a meia vida (mas uma é função da outra, de modo que se trata da mesma informação).
Alguém pode dizer que há uma causa, só que não se conhece. Pode até ser, mas não necessariamente. Como não se identifica causa alguma e nada há que exija que se tenha uma causa, é perfeitamente razoável considerar que não haja causa.
No caso de fenômenos ocorridos com sistemas de muitas partículas, o grande número leva a probabilidades bem direcionadas a certas possibidades, configurando um aspecto causal e determinístico que não existe nos eventos elementares de modo geral. Mesmo neste caso, contudo, há a ocorrência de comportamentos caóticos, de modo que o determinismo e a causalidade não são a regra da natureza.
Sobre o surgimento do Universo, a passagem da inexistência para a existência não requer causa alguma, nem conteúdo algum do qual tudo o que existe tenha que ser proveniente. Exigir tais coisas é um preconceito não justificado. Isto não significa “provir do nada”, pois nada não é algo do qual outra coisa pode provir. Nada é a ausência total de tudo, não só de conteúdo mas de espaço vazio, de tempo e de leis naturais. O que significa é não ser proveniente de coisa nenhuma. Antes do conteúdo do Universo ter surgido (campo, matéria, radiação, espaço, tempo, interações e leis que descrevem o comportamento disso tudo e de seus atributos, como, extensão, localização, duração, movimento, energia, intensidade das interações, spin, carga elétrica, massa e muitos outros, expressos pelas grandezas mensuráveis que aparecem nas leis) não havia leis naturais a serem obedecidas (aliás não havia nem “antes”, pois não havia tempo), de modo que o surgimento de qualquer coisa não desobedeceu lei alguma. Mesmo que houvesse tais leis de conservação, possivelmente o conteúdo total de carga, massa-energia, momento angular e outras grandezas que se conservam, no Universo atual, seja nulo, exatamente como se não houvesse nada.

Qualquer sistema ligado pela interação coulombiana (eletrostática), quando quanticamente excitado, ao decair emite fótons. Os fótons são criados pela variação do campo elétrico devido ao decaimento, que gera um campo magnético também variável e esses campos se autopropelem no espaço, constituindo-se nos fótons, cuja energia vale a variação de energia dos estados inicial e final do decaimento. O sistema pode ser excitado novamente por qualquer suprimento de energia e decair de novo, quantas vezes isto ocorrer, sem limites, sendo criados fótons em quantidade ilimitada. Esta é uma propriedade dos bósons. Da mesma forma que são criados, ao serem absorvidos por algum sistema, também ligado por interação coulombiana, transferem a ele sua energia e deixam de existir. As partículas fermiônicas constituintes do sistema (prótons, nêutrons e elétrons), não são eliminadas, continuando a existir indefinidamente.
Isto é o que acontece em um filamento de lâmpada quando aceso. A energia é fornecida pela corrente elétrica, que excita os átomos que, aos decairem, emitem a luz.
Também o Sol, em suas reações nucleares, emite fótons de raios gama no núcleo solar, que, ao atravessarem a corpo solar, são absorvidos e re-emitidos, promovendo o aquecimento da massa solar até chegar à superfície (isto leva uns 100 mil anos), de onde ganham o espaço já distribuidos por um espectro que inclui desde ondas de rádio até raios gama, passando pela luz visível. Todavia o número de bárions (prótons e nêutrons) e leptons (elétrons) não varia. Além disso, as reações nucleares geram neutrinos e antineutrinos, que atravessam incólumes a massa solar e ganham o espaço, atravessando a Terra quase sem serem absorvidos.

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4 Responses to “Eventos sem causa”

  1. Mario Silveira disse:

    Caro Ernesto,

    Faz anos que medito sobre a questão da causalidade!

    Nesse sentido, penso, principalmente na fixação juvenil – ou infantil mesmo?! – de Einstein no que chamamos de estrita causalidade. Einstein insiste que “God cannot act in the middle of the cosmos”.

    Mas se supusermos que o universo em que habitamos emerge de uma flutuação do estado fundamental, o qual Michio Kaku chama de Nirvana Cósmico, então temos aí um evento sem causa, ou pelo menos, uma ação, que chamo de divina por não ter um termo melhor, não estritamente causal, pela impossibilidade de sua determinação.

    Einstein erra e é obrigado a dizer “Amém”, diante de todos os anjos do céu, para cada emergente universo!

    Também, é por essa estrita razão, que considero Einstein o último cientista clássico!

    Como Deus não existe, definitivamente “Deus É”, resolvi esse problema para o escopo de eventos internos ao nosso universo, repondendo à pergunta: How does God exist within the cosmos I exist?

    Assim criei, por considerar estritamente necessário, e, de acordo com a resposta encontrada, uma entidade psico-fisico-matemática a qual chamei de “Quantum Existencial”.

    Spinoza já havia se dobrado diante dessa questão em sua obra inquietante “A Ética”, chegando à seguinte equivalência:

    “The reason why it [God or Nature] exists is the same why it acts”. “A Ética, Capítulo IV)

    I replaced [God or Nature] by [Existential Quantum]:

    “The reason why it [Existential Quantum] exists is the same why acts”.

    I verified, then, that this is a Strong Equivalence Principle, being closer to the Omega where the arrows of explanation point to than Einstein’s Equivalence Principle are!

    It is a principle that embraces thoroughly life phenomena. Darwin’s natural selection is most synthetically embedded there, isn’t it?

    I have appended to the Existential Quantum two other strong principles which I would like to state in another opportunity if that can please you.

    Sorry the language mixing!

    Obrigado pelo seu artigo sobre esse assunto tão excitante!

    Tchau,

    Mário

  2. Mario Silveira disse:

    É muito interessante que uma relação causal é definida para eventos e não para seres. Gostei disso!

  3. Mario Silveira disse:

    Lembrar essa Santa Trindade: férmions; bósons; campos!

    partículas reais:
    1.matéria – férmions;
    2.radiação – bósons;

    partículas virtuais:
    3. campos.

  4. Jairo Alves disse:

    Caro Ernesto,

    Pesquise “A Teoria do Big Brain” no Google Livros (www.books.google.com), para conhecer uma visão de sistematização da natureza. O desenvolvimento deste trabalho levou quase 34 anos e se baseia na minha experiência na área de sistemas de computação e telecomunicações. Caso tenhas interesse de lê-lo inteiramente, comunique-se pelo email acima, que lhe enviarei a senha para a leitura via Scrid.

    Cordialmente

    Jairo Alves

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