O sentido da vida

by @ 18:49 on 2 janeiro 2010. Filed under Filosofia, Religião

Esta questão envolve o entendimento dos conceitos de “sentido” e “vida”. Vamos entender que “sentido” significa, propósito, motivo, razão de ser e que vida é o fenômeno biológico pelo qual um sistema se auto-sustém e reproduz-se. Assim vida abrange desde vírus até humanos. Tal fenômeno não tem razão de ser alguma. Existe porque surgiu, por acaso, não tendo sido planejado. Todas as incontáveis variedades que se apresentam se formaram pelo processo evolutivo sendo o ser humano apenas uma, dentre elas, sem nada especial, exceto por ser a espécie de que somos parte. Como a vida está aí, o que se pode perceber é que todo seu funcionamento se dá para que ela seja mantida em cada indivíduo, até que ele possa propagá-la numa nova geração. Esses dois instintos primários resumem a essência da vida: viver e procriar. Todo o resto surgiu para possibilitar que tais coisas ocorram ou então tratam-se de meros acidentes inconsequentes. A inteligência e a consciência, compartilhada pelos humanos e, por enquanto, alguns poucos outros animais, também existem para propiciar a perpetuação. Esta é a mensagem principal do livro “O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins. Acontece que estas mesmas inteligência e consciência levam o homem (e outros tão inteligentes quanto ele que ainda surgirão) a refletir sobre a razão e o propósito de sua existência. Uma vez que não se encontra, por mais que se procure, motivação externa alguma para a vida, a mente pode sentir-se angustiada. Todavia, o núcleo de recompensa do cérebro pode ser apaziguado se cada um encontrar, particularmente, uma razão para sua própria vida. Tal razão, contudo, só será satisfatória se for de modo a não ferir outras causas de angústia existencial. Uma vida centrada na busca desenfreada de prazeres a qualquer custo, inclusive com prejuízo a outros seres, dificilmente apaziguará a consciência. Propósitos elevados e altruístas, por outro lado, são capazes de dar sentido a uma vida.

A consideração de que a vida tenha algum sentido extrínseco não consegue ser confirmada. As religiões colocam em propensas realidades extra-naturais o sentido da vida, pelo menos no caso da humana (as outras, muitas vezes, colocadas em função da humana). Assim, a maior glória de Deus, a cessação do ciclo de reencarnações, o gozo eternos de inefáveis prazeres paradisíacos, bem como a salvação da danação eterna com sofrimentos inenarráveis, são colocados como razões e propósitos para a vida, bem como para um tipo de comportamento que seja propício a que se alcance tais objetivos. Até o momento não há comprovação cabal alguma de que haja alguma continuidade da consciência após a cessação da vida biológica do organismo que a suporta. Portanto a denominada “vida eterna” é uma quimera. A morte biológica leva à cessação total de toda atividade mental, não restando coisa alguma, como a denominada “alma”, para receber prêmio ou castigo pela conduta durante a vida biológica. Assim, a questão da premiação do bem e da punição do mal é uma tarefa que a própria sociedade precisa se incumbir de fazer enquanto as pessoas ainda estão vivas. Note-se que estas considerações são independentes da consideração da existência ou não de Deus, bem como da origem natural ou criada da vida ou da vida humana. Resta, pois, atribuir o sentido da vida apenas à vida em si mesma. A vida existe porque, por acaso, surgiu e seu propósito é apenas viver. A consciência é que busca um sentido, mas o fato de buscar não é nenhuma garantia de que tenha. Eu, por exemplo, gostaria que houvesse um Deus para castigar com a danação eterna todos os malfeitores. Meu desejo, em absoluto, garante a existência de tal tipo de coisa. Então eu me proponho, como significado para minha vida, erradicar o mal e fazer prevalecer o bem por todos os meios ao meu alcance, jamais me omitindo, inclusive em promover o esclarecimento de todos sobre o equívoco das crenças infundadas, como as religiosas.

Claro que existe amor, existe o bem, a bondade, a justiça, como existe o mal, a maldade, a injustiça. Mas nada disso tem coisa alguma a ver com a existência de Deus. São qualidades das ações humanas quanto a seu efeito. O Universo não tem razão nem propósito nenhum, nem nós. Não há razão para que nada exista. Nós é que temos que achar um motivo para dar significado à nossa vida. Procure no meu site o que já disse sobre tudo isto (busque por palavra chave). Não é preciso Deus para dar significado à vida.

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3 Responses to “O sentido da vida”

  1. Inês Sagula Fossa disse:

    Meu caro amigo! Vamos fazer um paralelo com a cultura oriental. Há cinco mil anos os taoistas já diziam que o homem e o universo são uma só coisa e instantaneamente. De certo modo, eles pensaram primeiro sobre a não-separabilidade associada ao Vazio.
    O próprio universo, não passa da manifestção do Absoluto (Vazio). Para vc alcançar o Vazio, terá que fazer meditação, 2X por dia.
    Como eles dizem que tudo é vibração, criaram os mantras, para entrar em ‘harmonia’ com estas vibrações. Vc só alcança a Iluminação, ou estado de Buda, qdo se une ao “Vazio”.

    Para os orientais, o universo é o próprio Deus. O que lembra Libenitz, não?

    Este é um outro olhar, da Divindade. Eles acreditam que nós fazemos parte da Divindade, porque pertencemos ao universo.

    Achei interessante, podermos analizar, a nossa existência sob esta perspectiva!?

  2. Ernesto disse:

    Inês. O vazio a que se referem os orientais é o vazio mental e não o cósmico. É um estado de consciência em que o pensamento não se fixa em coisa alguma. Diz-se que é possível atingir-se tal estado pelas técnicas orientais de meditação, mas nunca experimentei e, se ou quando o fizer, como saberei que atingi tal estado? Quando estou inconsciente, no sono profundo, em um desmaio ou anestesiado, não sei que estou assim. Nunca sei quando começo a dormir nem quando meu sono acaba. Acho que os ensinamentos taoístas são equivocados em alguns aspectos. O Universo não é uma manifestação do vazio, pelo contrário, o Universo é a negação do vazio. O Universo é pleno de conteúdo. Não existe espaço vazio em nenhum lugar do Universo. Como este conteúdo é um único campo, aqui e ali quantizado em férmions e bósons, que formam a matéria e a radiação, sendo seus conglomerados subsistemas a que se pode aplicar a noção de seres, uma vez identificados seus limites, isto é, que porções pertencem ou não ao subsistema considerado. Mas não se pode esquecer que cada ser é permanentememte ligado ao resto do Universo. Mas não de um modo instantâneo. As perturbações se propagam ao longo do espaço e fazem com que cada alteração no estado de algum ser influencie o restante. Isto é a não separabilidade ou o holismo, como se diz. Mas isto só ocorre exatamente porque não há vazio. Quanto ao fato do Universo ser o próprio Deus, isto também não procede, pois para algo ser dito “Deus” há que possuir razão, sensibilidade, vontade e poder, ligado à realização daquilo que ele concebe e resolve fazer. Nada disso se dá no Universo. O Universo não pensa, não resolve, não planeja. Todo o seu poder é exercido de forma caótica, fortuita e ao acaso. É o acaso que faz com que tudo ocorra tal como se dá, sem razão e nem propósito. O Panteísmo é, pois, uma quimera. Nós humanos somos um certo tipo de subsistema do Universo com certas características, dentre elas a consciência (também partilhada por outros tipos de animais). Mas isto não nos torna parte da divindade. A noção de divindade, quer do ponto de vista panteísta, como deísta, pandeista, panenteista ou teista é uma noção de extrema dificuldade de aceitação como pertencente à realidade.
    Outro problema é o conceito de “Absoluto”. Do que se trata?
    Entendido como algo que não dependa de nada além de si mesmo para existir, sua realização só se daria no conceito de Deus ou do próprio Universo, se este for considerado incausado e incriado, concepção que abraço. Assim, não havendo Deus, como considero, o Universo é absoluto. É claro, então, que somos parte do absoluto. Mas, certamente, ele não é vazio nenhum.

  3. Inês Sagula Fossa disse:

    Talvez não tenha sido clara na minha exposição!Sempre pensei que só pudesse haver uma árvore do Conhecimento, qualquer que fosse sua complexidade aparente. O fato de todas as coisas existirem num real aberto é confortador para o espírito. Um real solúvel onde toda ‘medida’ se dissolve, assemelha-se mais a um pensamento do que à uma máquina, como tantos físicos e filósofos tão frequentemente disseram. Um real um tanto quanto irônico, que deixa o homem brincar entre seus espelhos. O homem capta seus reflexos, que interpreta sob a forma de conhecimentos, os quais lhe dão a ilusão de atravessar o espelho das aparências e que, no entanto, sempre lhe devolvem apenas seus próprios reflexos ou questões. Chega-se a pensar que nenhum pensamento conceitual e nenhum enfoque científico jamais nos permitirá atravessar o espelho e conhecer Alice no País das Maravilhas.Os ensinamentos das grandes sabedorias e das Tradições são essenciais para enriquecer e até mesmo iluminar o espírito científico. Raros são aqueles que, aceitam esta idéia. Atribui-se às Tradições, na melhor das hipóteses, um interesse literário ou poético. Apesar do grande número de obras que surgiram sobre esse assunto, tudo está para ser feito para mostrar, com um rigor igual ao do procedimento científico, que o pensamento Tradicional também é um conjunto de ciências e de disciplinas muitas vezes de inimaginável complexidade e que poucos ocidentais conhecem.De várias sabedorias extremamente diferentes em sua ciência do ser e do real, mesmo se fundamentalmente o pensamento tradicional é como uma multiplicidade de raios convergindo para o mesmo centro. Nele descobrimos a ciência da consciência e dos estados do ser, como no sufismo, uma ciência das energias do Vazio, no taoísmo, uma ciência do ‘terceiro incluído’, no Shivaísmo (pois Shíva é tudo e seu contrário). Os três níveis da realidade encontram-se nos Veda, a análise da causalidade dos atos e de sua ‘atualização’ ou de sua manifestação invisível, no budismo, o sentido alquímico da purificação está no xintoísmo, uma ciência da morte no Bardo Thõdol tibetano e, no cristianismo, se descobre nas Escrituras a alquimia de todas as ciências inscritas na visão da pura transcendência. Cada tradição é inesgotável em si mesma. Dizem que seriam necessárias mais mil vidas para esgotar a ciência dos números na Cabala. Esse tipo de observação era totalmente inaceitável para o pensamento científico clássico. Ele finalmente é possível porque a física quântica mostra que a própria ciência tem valor de símbolo. Basta uma frase para compreendê-lo. Para a questão: de onde vem o mundo cósmico? A resposta é: do vazio. A partícula aparece do vazio quântico (um vazio que não é o nada, mas uma globa-lidade de energias incomensuráveis). Para a pergunta: para onde vai o mundo cósmico? A resposta é: para o vazio. E o que diziam os taoístas há mais de 4000 anos? A criação é um traço entre dois vazios. Para eles o Vazio=Absoluto. Até o presente, insistiu-se na Ciência e conheceu-se muito pouco acerca da natureza das Tradições.
    O que é chamado de Tradições,são os fundamentos das culturas e das religiões, seja dos povos antigos, e que às vezes se mantiveram até os nossos dias, como o Induísmo e a Tradição extremo-oriental, seja daquelas cuja origem é histórica, como o Cristianismo e o Islamismo. Todas essas culturas se baseiam na consciência de que o cosmo deriva totalmente de um Princípio Supremo e que no cosmo se reflete a natureza desse Princípio. Essa reflexão, e muitas outras, manifesta-se nas leis que regem essas culturas; e o que restou disso, freqüentemente sob a forma de religião, às vezes encolheu, transformando-se em alguma coisa mais particular em relação à Tradição, que abrangia tudo que se podia conceber no mundo.
    Uma reabertura para a Tradição e as tradições representa um retorno a coisas que, para a natureza humana, são absolutamente fundamentais e que a época atual, dirigida princi-palmente para as aplicações, negligenciou tremendamente.
    Qdo se medita vc amplia seu estado de consciência, assim a não-separabilidade pode ter um sentido cosmológico, metafísico. O que é não-separado no universo, não é a consciência necessária, à autoconsistência do universo, o que tb poderíamos chamar de consciência cósmica? A consciência não viaja no espaço-tempo. É o ser. O centro está, como dizia Pascal, em todo lugar e instantaneamente presente. Por si só esse conceito é capaz de estabelecer a união entre a ciência e a visão das tradições. Nele encontramos a ideia da presença do infinito e sua consciência estão totalmente presentes, ou melhor, estão integrados num ‘ser’ cósmico. Esses conceitos são das grandes sabedorias de todos os tempos e não podemos negar que eles nos questionam.
    Realmente, meu amigo, o conhecimento é vasto em incertezas. Qdo retomo a metáfora dos pensadores do Mahayana a respeito da oposição entre o Nirvana(que é uma espécie de vazio absoluto e que ao mesmo tempo é o pleno) e o Samsara que é o mundo das aparências, das ilusões. Eles dizem: são duas polaridades do mesmo. Confesso que me inclino mais a comparar o(s) Universo(s), à ARTE a qual não se traduz só pela racionalidade.

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