Ciência e Cultura

by @ 0:42 on 3 janeiro 2010. Filed under Ciências, Cultura

Costuma-se entender por cultura (não na acepção antropológica) um cabedal de erudição linguística, literária, poética, histórica, filosófica, psicológica, sociológica, econômica, política, administrativa, empresarial, jurídica, religiosa, musical, teatral, cinematográfica, artística ou de outras áreas das ditas “humanidades”. A pessoa culta, ou “intelectual” é considerada ser alguém versado, fluente, articulado e capaz de bem argumentar sobre esses temas em qualquer discussão. Todavia não lhe é exigido e nem lhe é imputado como demérito, na qualidade de intelectual, não entender de ciências como matemática, estatística, física, química, cosmologia, astronomia, geologia, meteorologia, geografia, biologia, genética, evolução, medicina, neurociências, agronomia, zootecnia, mecânica, eletrônica, engenharias e tecnologias em geral.

Para mim esta é uma terrível inversão de valores, que leva a sociedade a ter uma visão incompleta e, até mesmo, distorcida, da realidade do mundo em que se encontra inserida. Pelo menos no nível do Ensino Médio, é preciso que advogados, negociantes e todos que lidam com as humanidades tenham sólidos conhecimentos de ciências exatas e biológicas, que médicos, dentistas e quem mexa com ciências biológicas o tenham em exatas e humanidades da mesma forma que engenheiros, físicos e técnicos da área de ciências exatas transitem facilmente nas humanas e biológica (repetindo, no nível do Ensino Médio, que é simplesmente o básico para todo mundo). Sem mencionar que a fluência retórica, dialética e textual precisa ser um domínio comum a todo cidadão.

Não sendo assim, como poderá alguém emitir uma opinião embasada sobre qualquer tema candente que envolva conhecimento fora de sua área específica? Como saber se o desvio do Rio São Francisco é bom ou mal? E o uso de células tronco embrionárias? E a responsabilidade humana pelo aquecimento global? Quem não entenda o básico desses assuntos ficará à mercê das opiniões de especialistas ou oportunistas, que defendem, muitas vezes eristicamente, sua posições numa babel desconcertante de possibilidades.

O fato de não ser da sua área não é desculpa para não entender análise sintática, logarítimos, progressões geométricas, termodinâmica, eletrônica, bioquímica, genética, oriente médio, “El niño”, mais valia, silogismo ou o que for. E quanto ao Inglês, não se pode admitir que alguém que possua nível superior, pelo menos, não seja capaz de ler sem problemas um texto em inglês, senão não vai conseguir fazer nenhuma busca relevante de conteúdo pela internet.

Para isto é que o ingresso nas Universidade pede uma exame geral do todos os conteúdos. Alíás, é o que bastaria, sendo inteiramente dispensável uma avaliação por área de estudo. O ingresso ao Nível Superior precisa apenas avaliar a saída do Nível Básico. Mas não pode se ater à exigência mínima de apenas 30%. Este mínimo teria que chegar, pelo menos, a 60%, sendo ideal uns 80% para capacitar alguém a fazer curso superior.

A Educação Básica, por sua vez, tanto no Nível Fundamental quanto no Médio, nas escolas públicas e privadas, precisa cumprir a sua parte e colocar na praça uma meninada com aproveitamento mínimo de 80% em todos os conteúdos, aferido de forma inteligente e honesta. Como fazer isto? Esquecendo o que cai nos vestibulares e praticando um processo de ensino-aprendizagem voltado para o que verdadeiramente seja necessário para a vida. Fazer o menino e a menina pegarem gosto pelo conhecimento de forma que eles queiram, de fato, aprender conteúdos e habilidades, para formar competências fortemente vinculadas às necessidades da vida, expurgando os conteúdos inúteis e fazendo da atividade discente uma coisa lúdica, excitante, tão prazerosa como um videogame ou tão gostosa quanto namorar.

Isto poderá ser conseguido quando a remuneração docente for, não apenas digna, mas ATRAENTE, de forma que as melhores cabeças PREFIRAM ser professores do que médicos, engenheiros ou advogados, porque GANHARÃO MAIS. Quanto? Pelo menos CINCO MIL REAIS para início de carreira, com dedicação exclusiva, chegando ao fim de carreira com uns VINTE MIL REAIS, na Educação Básica. E isto precisa começar já, neste ano de 2010, para que consigamos um progresso em TRINTA ANOS, quando todo o corpo docente hoje existente já estiver aposentado. De onde virá este dinheiro? De tudo o que não será usado para pagar suborno, propinas, superfaturamentos, desvios escusos e tudo quanto é tipo de condutas imorais. Como conseguir isto? Candidatando-se VOCÊ, a vereador e deputado e trabalhando sem esmorecer para a moralização da coisa pública, estando disposto a dar milhares de murros em ponta de faca, a sofrer perseguições e represálias e, quem sabe mesmo, ser assassinado por combater a corrupção.

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One Response to “Ciência e Cultura”

  1. Inês Sagula Fossa disse:

    Como sempre meu amigo, vc aborda assuntos pertinentes e importantes, além de apontar as causas propõe soluções. Numa linguagem direta e objetiva. Entretanto,quero solidarizar consigo, apresentando o movimento Transdisciplinar, que ocorre no mundo acadêmico, tendo a UNESCO como mola propulsora. Tentei colocar uns links para não ficar muito extenso o texto, mas não foi possível. Atualmente, quem está a frente no Brasil, é o Prof.Dr. Ubiratan D’Ambrosio, da UNICAMP-SP.
    Uma síntese do que é este movimento:
    Pensadores como Nicolescu, Delors, Morin e outros que acreditam na abordagem transdisciplinar para a educação do século XXI. Salienta-se a questão do trabalho de aulas-oficina em uma abordagem transdisciplinarvisando a uma aprendizagem significativa, dando enfoque a uma prática voltada para a formação do ser integral, em que o espaço pedagógico é considerado um lugar de troca de conhecimentos e respeito à individualidade e à compreensão humana.
    A idéia de globalização remete-nos à visão de que o conhecimento
    deve ser global. Isso nos impõe o desafio de rompermos com a nossa formação fragmentada e
    reconstruirmos as relações entre os diferentes saberes.
    Nossa educação tem-nos ensinado a desagregar e não a integrar os saberes. A fragmentação,
    em muitas situações, tem permeado as práticas pedagógicas escolares. As escolas organizam-se em disciplinas estanques entre si. Sabemos que isso ainda é conseqüência da educação tradicional, científica que contribuiu para destacar os objetos do meio em que estão inseridos, isolá-los e, ao estudálos, ignorar as relações existentes entre eles, a realidade e nós mesmos. E assim, a fragmentação é resultado da crença em um paradigma que propunha a separação para tornar possível o conhecimento.
    Isto não desvaloriza, que para efeito de pesquisa e estudo, utilize-se a metodologia científica, mas para educação como formação do indivíduo, não foi feito a religação dos saberes, como cita Morin.
    Transdisciplinaridade significa:
    É uma forma de ser, saber e abordar, atravessando as fronteiras epistemológicas de cada ciência, praticando o diálogo dos saberes sem perder de vista a diversidade e a preservação da vida no planeta,construindo um texto contextualizado e personalizado de leitura dos fenômenos.

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