Argumentos contra o Craig

by @ 16:41 on 27 março 2010. Filed under Ateísmo, Religião

A descrença atéia em entidades e eventos sobrenaturais se dá não apenas por não haver provas nem evidências a favor (o que são coisas distintas), mas porque não há indícios plausíveis que favoreçam a crença neles. A Ciência e a Filosofia também admitem crenças sem provas, quando os indícios de sua plausibilidade são muito fortes. Além disto, tais crenças são sempre provisórias e abandonadas quando evidências, provas ou outras proposições mais plausíveis as venham substituir. A fé, em sua estrutura interna, não se submete ao crivo da dúvida e não admite ser trocada por outras crenças. Vejamos os casos:

1) Verdades lógicas e matemáticas são provadas pela lógica e pela matemática e aceitas pela ciência, já que a mátemática e a lógica são válidas. Não é preciso que delas se tenham provas científicas, ou seja, empíricas. Por outro lado, o raciocínio lógico-matemático se fundamenta, em última instância, em axiomas e postulados não provados, mas admitidos como verdadeiros por possibiltarem a construção de uma teoria completa coerente. Uma teoria matemática não pode provar-se por sí mesma. Contudo, a lógica e a matemática que têm utilidade na descrição do comportamento da natureza, são aquelas cujas proposições se adequam ao modo como a natureza se comporta. Caso contrário, mesmo que válidas e consistentes, são inúteis.

2) Crenças metafísicas, como a da existência de outras mentes, do mundo exterior e do passado, são admitidas sem provas por sua extrema plausibilidade, o que não é o caso da existência de deuses e espíritos.

3) As prescrições morais podem ser objeto de verificação sim, no sentido de aferir se atendem aos princípios éticos. Estes, contudo, são como postulados matemáticos, aceitos por se adequarem ao modo de ser e de sentir do ser humano quanto às noções de bem e mal, certo e errado. É razoável considerar que ações que dão prejuízo ou causem sofrimento ao outro ou à coletividade, mesmo que beneficiem o autor, sejam eticamente condenáveis.

4) É possível se proceder, e isto foi e é feito, a um estudo científico da noção de belo para o ser humano, tanto é que programas de computador desenham faces, por exemplo, atendendo aos critérios de simetria, suavidade e harmonia detectados como indicadores de beleza.

5) É claro que a validação da ciência tem que ser extra-científica. Para isto existe a Filosofia, que é uma disciplina humana completamente independente de religiões ou crenças no sobrenatural.

É preciso enteder que o critério científico não é o unico a ser aplicado para validar a veracidade de qualquer assertiva. A Filosofia e, mesmo, o saber vulgar são preciosos indicadores para escolhas entre proposições alternativas sobre o que for, no sentido de considerar qual a verdadeira, a mais útil ou mais correta.

O que um ateu afirma é que os critérios de conformação à vontade divina, extraídos de escrituras sagradas ou de tradições religiosas, carecem de validade. Quando seu resultado coincide com o de outros critérios válidos, não é pelo caráter religioso que ele é aceito, como o são muitos preceitos morais defendidos pelas religiões. Eles existem haja ou não fé e religião.

Os estritamente religiosos, como a salvação pela fé ou pelas boas obras, são completamente desprovidos de fundamentação e plausibilidade.

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7 Responses to “Argumentos contra o Craig”

  1. Carlos H. disse:

    Prezado Ernesto,

    Meus cumprimentos. Textos bem estruturados, sagazes e cuidadosos como este só são possíveis tendo como fonte alguém que realmente domina o assunto.

    O texto deixa claro que a velha acusação dos religiosos que levam à última instância o fato de que “a ciência também é fruto da crença” não passa de uma falácia com base em mero jogo de palavras.

    Abraços.

    Carlos H.

  2. Inês Sagula Fossa disse:

    Meu amigo, realmente seu raciocínio é perfeito. Mas sabemos, que nós e nossa ciência e tudo o mais é limitado como é limitado os nossos sentidos e os instrumentos que criamos para ampliá-los.
    Àas vezes fico pensando, como agora ao ler o que você escreveu. E se, o que vemos, sentimos e aferimos, através de nossa mente e instrumentos, for um caso particular do Cosmo? Eu sei que está fugindo da sua proposição inicial. Mas é que minha mente é inquieta, e dá uma viajadas.
    Nossa mente tem a tendência de ir do caos para a ordem, da assimetria para a simetria esta é nossa natureza. Tanto que o Belo, é o simétrico, a ordem, o retângulo áureo grego. Como Matte Blanco diz, quando cérebro não distingue a diferença do assimétrico e o simétrico, é o que chamamos de loucura.
    A loucura a qual Erasmo de Roterdam dedicou uma obra é tão absurda, ou é uma outra face da realidade?
    A própria Física nos coloca em cheque! Como seria o Universo sem a nossa intervenção. Sem o observador?

  3. Ernesto disse:

    Pois é, Inês, somos limitados mesmo. A loucura e a irracionalidade podem ser uma bênção. Os “insights” com que o inconsciente nos brinda, na verdade, são os verdadeiros responsáveis pela solução da maior parte dos problemas científicos. António Damásio em seu “Erro de Descartes”, mostrou como não há razão sem emoção e intuição. Dan Ariely em “Previsivelmente Irracional” e Leonard Mlodinow, em “O Andar do Bêbado” mostram como a irracionalidade e o acaso respondem pela maior parte de nossas decisões. Mesmo assim, dentre as várias respostas apresentadas para as questões primordiais sobre a origem do Universo e da vida, sobre a razão de ser de tudo, sobre o propósito de tudo e sobre como tudo é conduzido, as mítico-religiosas apresentam uma fragilidade muito maior do que as científicas, até sob um prisma intuitivo, para uma pessoa bem informada cientificamente. Daí minha afirmação, sem desdouro para nenhum crente, que a fé religiosa, mesmo não sendo, como não é, prova de falta de inteligência, é reflexo da ignorância científica que assola até as mentes mais privilegiadas de pessoas que possuem uma formação exclusivamente humanista, sem falar nas pessoas de baixa erudição. Não que isto seja um defeito e nem desmereça o valor que se mede pelo caráter, honradez, decência e bondade. Mas é um fato que precisa ser corrido pelo fomento da cultura científica e do espírito livre-pensador. Quem assim é agraciado, em geral, verá como muito mais intuitiva, para não dizer lógica, a opção ateísta, ou, pelo menos, agnóstica.

  4. raph disse:

    “A fé, em sua estrutura interna, não se submete ao crivo da dúvida e não admite ser trocada por outras crenças.”

    Existe uma outra espécie de fé, a fé raciocinada ou racional, que não despreza a razão e muito menos a dúvida. Claro que etimologias podem sempre ser debatidas e compreendo que muitos céticos tenham horror em ler as palavras “fé” e “razão” lado a lado, mas fato é que há muitos religiosos moderados que certamente não desprezam o ceticismo. Porisso digo que minha religião é meu pensamento. Se é que a salvação chegará um dia para mim, não será pela graça divina nem pela aceitação de algum Senhor, mas pela minha própria busca por conhecimento e sabedoria, por mecanismos e sentidos nesse Cosmos infinito.

    Parabéns pelo blog!

    Abs
    raph

  5. jonas disse:

    Olá!
    “são como postulados matemáticos,aceitos por se adequarem ao modo de ser e de sentir do ser humano,quanto as noções de bem o mal,certo e errado.”

    O bem e o mal sózinhos não são suficientes para o certo e o errado,”bem” e “mal” não criam obrigações e proíbições.

    “é razoável considerar que ações que dão prejuízo…”
    Se a moralidade é apenas um construto humano,uma convenção,uma evolução biológica que foi sedimentada pelo adaptativo social,porque nós deveríamos agir moralmente,quando interesses próprios são ameaçados de não concretização,para benefício de outrem???Será que somos responsáveis pelas nossas decisões???Qual a importãncia em um universo formado “por sorte” ao acaso,sem propósito, que após a morte do ser humano ele volte ao nada (poeira das estrelas),assumir a postura de um Stalin ou Hitler,ou ser um médico que entrega sua vida a ajudar criaturas em acampamentos de refugiados????Estou sendo extremista em meus exemplos,mas é por aí mesmo.O que me moverá em relação a dar a minha vida ao outro em detrimento da minha??Isto o adaptativo social não fará nunca.Sómente Valores morais objetivos me conduzirão a está ação,que está muito além do egocentrismo que permeia e brota do coração humano.Se DEUS existe,então a objetividade de Valores e Obrigações e Responsabilidades Morais são asseguradas,mas se ELE não existir a moralidade é totalmente subjetiva,relativa e não obrigatória.É por isso que o ateìsmo é uma retórica vazia e sem sentido,um nonsense de argumentação lógica,e procura amalgamar mentes com o “canto da sereia” que o “fomento da cultura científica e o espírito de livre-pensador” nos levará ao entendimento da vida,quando esta está ao escrutínio do mais “ignorante e de baixa erudição”.O sábio Salomão já disse:vaidade de vaidades!é tudo vaidade.Que vantagem tem o homem de todo seu trabalho,que ele faz debaixo do sol?(Eclesiastes 1 v 2e3)Eu apliquei o meu coração a esquadrinhar,e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu,esta enfadonha ocupação DEUS deu aos homens para nelas exercitar,atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol,e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito,apliquei meu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras,e vim a saber que também isso era aflição de espírito,porque na muita sabedoria há enfado,e o que aumenta em ciência,aumenta em trabalho.(Ecles.cap 1 v 13 e 14 17 e 18).Abraços

  6. Inês Sagula Fossa disse:

    Ao ler o que vcs escreveram, Raph e Jonas. Tb fiquei refletindo sobre. A possibilidade de existir uma Mente Universal, é viável. O que não é aceitável, é este Deus que nos é imposto como imagem e semelhança nossa. Que na realidade, foi uma concepção disvirtuada do D’US hebraico, que acabou tendo um rival, que veio da religião Babilonica, que tinham dois deuses que se contrapunham como o bem Osmud e Ariman o mal.
    Assim, como o Ernesto, colocou tão bem.É mais plausível a opção ateísta ou agnóstica. Particularmente, ópto pela segunda.
    Mas, por experiência, no convívio com pessoas da periferia. Este Deus, não pode ser extinto, por medo da furia divina muitos não se tornam, o próprio demônio. Vejo, assim. Nós vimos que tudo que nos acontecia de bom, tinha que ter uma causa, demos o nome de Deus e tudo que nos acontecia de ruim demos o nome de Demônio ou Diabo. Nós somos o joguete entre Deus e o Diabo. Será????????? Esta é a visão da maioria.
    O que o Ernesto coloca, sobre moral, é muito sério, se não a tivermos somos piores que os próprios animais os quais nós consideramos como irracionais.

  7. jonas disse:

    Cara Inês!
    Quanto a possibilidade de existir uma “Mente Universal” é mais plausível dizer haver uma Inteligência ou Sabedoria Intrínseca(Real:referente a sem entender a sua estimação,fruto de nossas limitações)que determinou e determina os movimentos incognicíveis do Universo..Esta ” Sabedoria e Inteligência intrinseca”(onde a matemática é o resultado do poder criativo)assume uma forma “pessoal” e não universal,pois nem sempre as partes formam o todo.A “imagem e semelhança” é quanto ao Espírito,pois somos frutos do “Ruah Ha-Kodesh”Ruah=vento,respiração e Ha-Kodesh=de DEUS.ELE(DEUS)soprou nas narinas do primeiro ser vivente este Ruah,e por isso a matéria inorgânica(formou do pó da terra) ficou preenchida com a “vida” fruto do sopro do Criador.Quanto a expressão “pessoal” é dessa maneira que interpreto,pois todos os homens partilham do sopro original,e portanto há uma identificação(imagem e semelhança).
    Quanto a “Osmud e Arimã”,desde o princípio Adão,depois Sete seu filho começou a “invocar o nome do SENHOR”Gênesis cap 4:26.”Noé andava com DEUS”Gênesis 6:9.Com isto percebo que desde os primórdios o homem era monoteísta, mas quando se desviou dos princípios de seu Criador,começou criar deuses para si.Concluindo,a verdadeira FÈ era nos seus primórdios há um só Criador,o restante é desvio.Já comentei com o Ernesto sobre o Bem e o Mal em alguns post,mas na essência o homem colherá das “sementes” que lançar ao solo de sua vida e dos outros.A vida e a morte estão sob o comando de nossas palavras e ações,cabe a nós com sabedoria e discernimento,estes provientes da comunhão com DEUS,fazermos as escolhas.Abraços

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