Materialismo, espiritualismo e Física Quântica

by @ 20:39 on 23 maio 2010. Filed under Ateísmo, Filosofia, Física Quântica, Religião

Sempre que vejo relacionar física quântica com espiritualidade percebo estar frente a um completo desconhecimento dela. Mesmo físicos como Amit Goswami cometem o erro de supor que há alguma ligação entre essas coisas. Dizer que a consciência faz a escolha entre as possibilidades quânticas é a maior baboseira. Concordo que se deva propor um sistema político e econômico alternativo a esta barbaridade que existe, mas isto não tem nada a ver com física quântica, exceto se considerarmos que a sociedade é feita de seres humanos, que são biológicos, e a biologia se fundamenta na química que se fundamenta na física quântica. Mas isto é reducionismo e os espiritualistas são holistas. Tenho me batido incasavelmente em meu blog contra essa concepção equivocada. Não vou dispender meu tempo com a leitura do site mencionado, que visitei e pude passar os olhos por alto, porque sei que tais considerações não têm fundamento. A começar pelo espiritismo. Sugiro que você faça um estudo sério mesmo de física quântica, antes de justificar nela suas proposições. Não estou fazendo juízo do mérito delas, apenas da fundamentação.

Para começar, o termo “materialismo” é equivocado, devendo ser substituído por “fisicalismo”, já que a realidade natural não contém apenas matéria, mas também radiação, campos, espaço, tempo, sistemas, estruturas, interações, fenômenos, ocorrências, dinâmicas etc. Assim, fisicalismo é a concepção de que a realidade concreta (no sentido de não abstrata ou conceitual) é puramente natural, inexistindo qualquer tipo de entidades ou ocorrências de ordem espiritual ou sobrenatural (note que, se existirem, tais entidades e ocorrências não seriam abstrações). Tal fato não carece de demonstração, sendo considerado como a “hipótese nula”, já que a possível realidade sobrenatural não é evidente, como a natural. Então o ônus da prova recai sobre a comprovação de alguma realidade sobrenatural, ou por evidência direta ou por provas indiretas. Tais comprovações não existem, pelo que tenho conhecimento. Todas as alegações sobre a existência de alguma realidade sobrenatural são subjetivas. Por outro lado, a história da ciência fornece fortes indícios para rejeitar o sobrenatural (deuses, espíritos, almas, anjos, demônios, gênios etc), que foi invocado pela humanidade para explicar o então inexplicável, mas que, a cada dia, passa a ser explicado de forma puramente natural. Tal é o caso do pensamento, como comentarei em outra postagem. A petição inicial é pela apresentação de uma pesquisa publicada que demonstre a existência do materialismo. Isto não precisa ser demonstrado, pois o materialismo (ou melhor, fisicalismo) existe, uma vez que existem seguidores dele. Acho que o que o Cláudio queria seria uma pesquisa que prove que esta seja uma concepção verdadeira, isto é, que, de fato, não existe nenhuma realidade sobrenatural. Esta pesquisa não existe! Mas a falta de prova não invalida a proposta. Também não há prova de que o sobrenatural exista. A decisão se dá com base nos indícios mais plausíveis e eles são a favor do fisicalismo. Não se trata de uma crença, mas de uma constatação.

Espírito, conceitualmente, não é uma abstração, isto é, uma idéia que só tenha existência em mentes que a concebam e não objetivamente fora das mentes. Como é algo passível de existência no mundo, trata-se de um ente ou entidade, que possui uma essência, isto é, propriedades que o caracterizam como tal. Mas pode não existir de fato e, assim, não seria um ser, pois ser é o ente que existe, no meu entendimento ontológico. Se existe ou não é uma questão de verificação fatual, por meio de evidências diretas ou indiretas. Tenho para mim que não existem evidências de nenhum tipo que comprovem a existência de espíritos, de forma que considero que não existam. Nem deuses, nem almas, nem anjos, nem demônios, nem gênios… nada disso. A mente e a consciência, como entendo, são ocorrências que se dão pela complexidade da estrutura e da dinâmica de funcionamento dos organismos dos animais superiores, especialmente do sistema nervoso, mas que também pode se dar em artefatos suficientemente complexos para tal. Apenas ainda não existe competência tecnológica suficiente para produzí-la.

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