Refutação do Argumento Cosmológico

by @ 1:36 on 29 maio 2010. Filed under Cosmologia, Filosofia, Metafísica, Religião

Há um argumento para a existência de Deus, denominado ARGUMENTO COSMOLÓGICO. O teólogo protestante William Lane Craig apresentou este argumento como segue:

1. Tudo que começa a existir tem uma causa para sua existência.
2. O universo começou a existir.
3. Um infinito real não pode existir.
4. Um regresso temporal infinito de eventos é um infinito real.
5. Portanto, um regresso temporal infinito de eventos não pode existir.
6. Uma coleção formada por sucessivas adições não pode ser realmente infinita.
7. A série temporal de eventos passados é uma coleção formada por sucessivas adições.
8. Portanto, uma série temporal de eventos passados não pode ser realmente infinita.
9. Portanto, o universo tem uma causa para a sua existência.

Mostrarei a falsidade deste argumento, como expresso acima:

1. FALSO – Não é verdade que tudo o que começe a existir tenha uma causa para sua existência. Causa é uma propriedade de eventos e não de seres. O que pode ter causa é o evento da passagem da inexistência para a existência de um ser e não o próprio ser. Mesmo isto não precisa ter causa. A concepção de que todos os eventos sejam efeitos de causas se origina da observação diuturna dos eventos que ocorrem dentro da escala de tempos e dimensões acessíveis à percepção humana. Tal conclusão é um raciocínio indutivo, isto é, que obtém uma assertiva geral com base na confirmação de muitas assertivas particulares do mesmo tipo. Todo raciocínio indutivo pode ser derrubado por um único contra exemplo. A possibilidade de observação de eventos em nível atômico e subatômico da matéria mostrou que existem muitos que são fortuítos, isto é, que ocorrem sem que nada os desencadeie. Certamente que sua ocorrência depende do preenchimento de condições que os possibilitem. Mas condição não é causa, pois causa é o que determina. Nesta categoria estão o decaimento radioativo de núcleos e a emissão de radiação por átomos e moléculas exitados. A excitação é condição e não causa da emissão. Esta se dá fortuitamente, sem nada que a desencadeie. A única informação que se tem é da probabilidade de decaimento para um nível mais baixo de energia ao fim de um certo tempo. O mesmo se dá com a radioatividade. Logo, a condição necessária para a conclusão por indução não prevalece e, portanto, não é verdade que todo evento seja um efeito, isto é, que possua causa. Argumenta-se que a causa seria oculta. Pode ser que se venha a descobrir alguma, mas o importante é que não há necessidade lógica nenhuma de que seja preciso haver uma causa. Que fique bem claro que a existência de causa é um conclusão “a posteriori”, não sendo obrigatória. Há que se investigar cada caso.

2. CORRETO – O fato de que o Universo tenha começado a existir é fenomenológico, isto é, pode ser que sim ou que não, a resposta dependendo de uma averiguação factual. Não há razão lógica nem ontológica para que seja preciso que tenha havido um começo. Os indícios observacionais cosmológicos apontam no sentido de que, de fato, tenha havido um momento inicial para o Universo. Como o Universo é o conjuto de tudo, dos seres e dos eventos e, inclusive, do espaço e do tempo, em seu começo também se deu o começo do tempo. Antes não havia decurso de tempo e, a rigor, nem houve nenhum “antes”.

3. FALSO – Um infinito real, isto é, existente no mundo exterior às mentes, pode existir sim. Infinito é um conceito que se reporta a algo que possua uma grandeza maior do que qualquer valor que se possa conceber. Não se trata de um valor numérico a ser atribuído a algum atributo de um sistema, como sua extensão, seu volume, sua massa, sua energia ou sua duração temporal, mas a afirmação de que nenhum valor numérico seja capaz de representar a grandeza desse atributo. Assim, infinito é um conceito quantitativo e não qualitativo. Existem infinitos de ordens diferentes, como o infinito enumerável dos números naturais, que representam grandezas quantificadas de forma quantizada ou o infinito contínuo dos números reais, que representam grandezas quantificada de forma contínua e não quantizada (não confundir o conceito de “número real” com o conceito de “realidade” – um número real é uma abstração, isto é, ele não tem realidade fora das mentes, mas uma grandeza que ele represente sim). Carga e energia são quantizadas, enquanto tempo e espaço parecem que não, mas há propostas sobre a existência de quanta de tempo e de espaço. Quem num caso quer no outro, nada há que obste a possibilidade de que espaço e tempo sejam infinitos, isto é, que se extendam indefinidamente, de modo que nenhum valor inteiro ou real (na acepção matemática e não ontológica) seja capaz de representar a amplitude de sua extensão.

4. CORRETO – Seja o tempo contínuo ou discreto (quantizado), sua extensão infinita, quer nos dois sentidos ou em um apenas, isto é, tenha ele tido um começo, mas não venha a ter um fim, tenha um fim mas não tenha tido começo ou nem tenha tido começo nem venha a ter fim, significa um intervalo aberto de extensão infinita e isto é real (ontologicamente falando, isto é, existente fora das mentes). Isto significa que, de fato, no mundo exterior às mentes e não apenas como uma idéia, não haveria número nenhum, nem inteiro nem real, por maior que fosse, capaz de quantificar a extensão da duração total do tempo.

5. FALSO – É claro que pode existir uma regressão temporal infinita, tanto para o passado quanto para o futuro, pois o tempo é uma entidade quantificável, seja quantizável ou não. Isto significa que se pode associar ao tempo, de forma biunívoca , um intervalo de números reais ou inteiros (no caso de ser quantizado), com origem (zero) arbitrariamente posicionada. Como foi dito no item 3, nada obsta a existência de grandezas infinitas no mundo real, sejam inteiras ou contínuas.

6. FALSO – É perfeitamente possível existir, isto é, ser real ontologicamente falando, conjuntos de infinitos elementos. O Universo pode ser infinito, se bem que as observações cosmológicas mostrem que parece que não é. Se assim o fosse, tanto a extensão quanto a totalidade de seu conteúdo, em termos de quantidade de partículas fermiônicas e bosônicas (matéria e radiação) e de campos não quantizados, seria infinita, e isto seria algo real, cujo valor poderia ser construído por adições sucessivas, por exemplo, pelo acúmulo em cascas esféricas concêntricas a partir do centro da Terra, adicionando-se os conteúdos de cada uma. Como o Universo se extenderia indefinidamente, não haveria nenhum número, por maior que fosse, que expressaria o total desse conteúdo. Mas isto pode ser perfeitamente admissível como existente, e pode ser que seja assim mesmo.

7. DEPENDE – Se se considerar que estas adições sejam feitas a partir de um momento inicial infinitamente deslocado para o passado isto é FALSO, pois dizer que o tempo se extende infinitamente para o passado não é dizer que houve um momento inicial infinitamente afastado e sim que não houve momento inicial nenhum. Se tivesse havido um momento inicial infinitamente afastado, o presente não poderia existir, pois nunca se teria um decurso de tempo suficiente para se chegar a ele, desde esse início, isto é, o presente estaria infinitamente distante do início e ainda não teria chegado. Como o presente existe, tal início infinitamente distante não pode existir. Este é o chamado “argumento Kalam” das escolas teológicas muçulmanas, usado por Tomás de Aquino para provar a existência de Deus. Todavia, considerar o tempo infinito significa considerar que não houve momento inicial nenhum. O tempo sempre teria existido. Qualquer momento que se conceba teria um anterior. Então, o presente pode ser a origem desta sequência, cujos momentos passados são adicionados no sentido negativo, sem limite, extendendo-se ao infinito para trás, do mesmo modo que se pode conceber tranquilamente que o tempo possa extender-se ao infinito para frente, no futuro. Neste caso é CORRETO dizer que a série dos tempo possa ser construída por adições sucessivas.

8. FALSO – Uma série temporal de eventos para o passado pode ser infinita sim, como foi mostrado no quesito 7, desde que entendida como construída de frente para trás, a partir de hoje.

9. FALSO – Como o quesito 8 é falso, pelo argumento apresentado, segue que o 9 também o seja. Entretanto, mesmo que o 8 fosse verdadeiro, daí não seguiria o 9, pois o impedimento de que o tempo sempre tenha existido apenas implica em que tenha havido um momento inicial, antes do qual não havia tempo e nem nada. Mas, como mostrado na refutação do quesito 1, não é preciso causa para que algo passe de inexistência para a existência. Além disso, mesmo que o Universo tenha começado e que este começo tenha tido uma causa, nada há que garanta que tal causa seja a interveniência de uma entidade com as características que lhe identifiquem com o conceito que se tem do que seja um Deus.

Em resumo, a dita “prova cosmológica” da existência de Deus não prova absolutamente nada sobre ela.

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