Consciência quântica

by @ 17:02 on 27 junho 2010. Filed under Consciência

De fato, toda a Física é sempre quântica e relativística. O comportamento clássico é uma aproximação para grandes números quânticos. Isto é o “Princípio da Correspondência”, de Bohr. A interação da luz com a matéria, que se dá na retina, é essencialmente quântica, mesmo que a propagação da luz no cristalino e nos humores vítreo e aquoso possam ser descritas pela ótica clássica. Isto não significa que a consciência seja um fenômeno quântico. A consciência advém da complexidade da estrutura e da dinâmica do sistema nervoso, especialmente do cérebro, do sistema endócrino e suas interações como o organismo e o ambiente. Alguns consideram como um “epifenômeno”, isto é, algo que “emerge” do comportamento anatomo-fisiológico (e, pois, biológico) do organismo, mas que possua aspectos não redutíveis a esses níveis mais profundos da realidade. Considero que não seja este o caso. Se o reducionismo for encarado por um prisma não linear, isto é, não como a simples “soma” das contribuições das partes envolvidas, mas possuindo, também, fatores de ordem mais alta (potências positivas, negativas e fracionárias), bem como termos produto e retroalimentações, o que se pode ver é que toda emergência para um nível mais elevado de realidade se dá pela participação tão somente dos níveis mais profundos. Assim o psiquismo advém da biologia, esta da química e esta da física. Neste sentido, pode-se dizer que a consciência seja quântica, pois a física é sempre quântica. Mas no nível próprio dos processos mentais, eles não são quantizados. Isto significa que a consciência não é decorrente do caráter quântico, mas da complexidade. Alguns aspectos, contudo, advém do caráter quântico, como o lívre arbítrio, que decorre da incerteza quântica, senão seríamos zumbís, na concepção de Laplace de um determinismo inescapável.

A proposta de uma interpretação quântica da consciência é feita por cientistas do porte de Roger Penrose com sua “Orchestrated Objective Reduction”, baseada no teorema da incompletude de Gödel, e outros. Tal teoria não encontra embasamento em verificações fáticas, daí ser considerada, por muitos, uma impostura. Todavia esta pecha só pode ser dada após um estudo aprofundado da proposta, para verificar suas bases e sua argumentação. Algumas, mesmo equivocadas, não podem ser tidas como imposturas porque seus propositores estão convictos de sua veracidade e propõe argumentos plausíveis para sustentá-las, só que não o conseguem, face a contrafação das evidências. O uso da Física Quântica para respaldar proposições em outros campos tem sido comum, especialmente na área esotérica. Tal é o caso do Fritjof Capra, Deepak Chopra, Amit Goswami, Lynne McTaggart e Wolfgang Smith, estes, de fato, impostores, sem falar na Rhonda Byrne. Não considero que seja o caso de Roger Penrose, David Bohn, Eugene Wigner, Hugh Everett, David Deutsch e Lee Smolin. O problema é que muitos filósofos e psicólogos não entendem de Física Quântica, o que, para mim, é muito sério, pois filosofia não é uma ciência humana, mas sim uma metaciência. Um filósofo precisa conhecer Física e Biologia, e não superficialmente, senão não sabe o que diz. A propósito estou escrevendo um livro para lançar no segundo semestre intitulado “Física para Filósofos”. Outro senão é que o Ensino Médio, cujos conteúdos, em todas as áreas, devem ser do conhecimento de todo mundo que tenha nível superior, seja no que for, não aborda nada da Física a partir de 1900, que inclui a quântica e a relatividade. Este é um ponto por que venho me batendo há quase quarenta anos, em vão. Mas sou especialista em dar murro em ponta de faca.

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One Response to “Consciência quântica”

  1. Andréa Silva disse:

    Concordo com você sobre o fato do ensino da física quântica e relatividade sejam incluídas nos currículos. O materialismo vai acabar por falta de matéria!

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