Contestações do Argumento Cosmológico

by @ 17:25 on 27 junho 2010. Filed under Ateísmo, Metafísica, Religião

Passo a postar minha participação em um debate no Orkut sobre o “Argumento Cosmológico” para a existência de Deus, travado com o estudioso teológico criacionista protestante Vinícius Pinheiro, de Volta Redonda. O texto em itálico é do Vinícius. O debate pode ser visto na página:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=102514309&tid=5477802754424329834&na=1&nst=1

Colocação do Argumento:


1) O Princípio da Causalidade:

Tudo que tem princípio de existência tem uma causa além de si desde que o nada não existe e portanto não pode causar, além de ser impossível existir antes de si mesmo para causar a sua própria existência.

Em resumo, vir à existência implica em vir de uma causa em vez de puramente nada. O que gera alguma coisa é necessariamente uma causa dotada da propriedade ontológica de causar. Portanto, é totalmente diferente do nada absoluto. Além disso, vir de uma causa implica em vir de outro ser além de si mesmo desde que é impossível existir antes de seu próprio princípio para se causar.

2) Contra a eternidade da criação:

Em primeiro lugar, quanto maior for a escala maior é o grau de aproximação do todo, de modo que apenas a escala cronológica máxima equivale à totalidade do tempo. Se unicamente a escala cronológica máxima é igual à totalidade do tempo, conclui-se que é igual à duração de tempo limitada pelo presente, de maneira que a escala máxima de tempo e o tempo em si são igualmente finitos.

Em segundo lugar, se as partes espaço-temporais do universo fossem eternas o presente estaria eternamente longe de ocorrer pois uma quantidade infinita de eventos teria de antecedê-lo. Na verdade, qualquer evento específico estaria infinitamente longe de acontecer desde que haveria sempre uma quantidade infinita de eventos anteriores para percorrer.

Logo as partes espaço-temporais do universo tiveram princípio.

3) A Causa Primeira é ilimitada e transcendente:

Logo as partes espaço-temporais do universo tiveram uma causa. Desde que elas são finitas, mutáveis e temporais, conclui-se que a Causa Primeira transcende estas partes sendo infinita, imutável e atemporal. Desde que a Causa está além da criação, logo está além de suas limitações.

Em segundo lugar, uma outra Causa espaço-temporal também teria tido princípio de existência, e assim por diante em regressão infinita, a menos que se admita uma Causa Primeira que estabeleça a existência da criação. Sem um ser auto-existente a realidade espaço-temporal nunca viria à existir.

Conclui-se que a Causa Primeira é transcendente e ilimitada.

4) A Causa Primeira é única:

A Causa Primeira é ilimitada ,e portanto única, pois duas ou mais causas se limitariam mutuamente. A existência de muitas causas implica que elas se limitariam reciprocamente no tempo e no espaço.

Em resumo, a Causa transcende este universo de espaço-tempo, unificando as unidades finitas e consecutivas em uma só unidade infinita e atemporal. Ou seja, segundo a perspectiva imanente e fragmentária da criação há muitas unidades de espaço e tempo. Por outro lado, segundo a perspectiva transcendente e absoluta da Causa há apenas uma unidade imutável e atemporal.

Logo há uma só Causa Primeira.

5) A Causa Primeira é pessoal:

A Causa Primeira é pessoal. Se ela fosse impessoal teria então de co-existir eternamente com seu efeito, pois dada a existência da Causa Primeira a existência do efeito viria de forma automática.

Em resumo, uma Causa impessoal e eterna não teria o poder de escolha para mudar seu rumo de ação, de maneira que ela teria produzido algum efeito desde sempre. Uma Causa impessoal e eterna teria gerado o seu efeito de forma automática durante o curso de sua existência, de modo que a criação nunca teria tido um princípio.

Conclui-se que a Causa do princípio da criação tem de ser pessoal.

Contestações ao argumento cosmológico
Tudo que tem princípio de existência tem uma causa além de si desde que o nada não existe e portanto não pode causar, além de ser impossível existir antes de si mesmo para causar a sua própria existência.

Possuir causa é propriedade de eventos e não de seres. Eventos são ocorrências, acontecimentos que se dão com os seres. Entende-se por causa a ação que determina a ocorrência do evento e por condição a situação que a possibilita. A passagem de um ser da inexistência para a existência é um evento que pode ou não ter causa. O princípio da causalidade afirma que todo evento possua uma causa, isto é, seja um efeito. Isto se concluiu a partir da observação de eventos, dentro das escalas de espaço e tempo acessíveis à percepção humana. Trata-se, pois, de um raciocínio indutivo. Toda conclusão obtida por indução não é garantida, sendo derrubada por um único contraexemplo.
O advento da Física Quântica e de meios de observação de eventos atômicos e nucleares revelou a existência de miríades de eventos fortuitos, isto é, incausados. Dentre eles, dois se destacam: a emissão de radiação por sistemas excitados, como a luz por um átomo, e o decaimento radioativo de um núcleo. A excitação, isto é, estar-se em um nível de energia superior ao fundamental, é uma condição e não causa da emissão de fótons. Um sistema excitado pode assim permanecer indefinidamente ou decair para um nível mais baixo de energia, com a emissão do fóton, a qualquer momento, sem nada que lhe determine tal ocorrência. O que se sabe é apenas sua probabilidade. O mesmo se dá com o decaimento radioativo.
Portanto, não é verdade que todo evento seja um efeito, podendo ser fortuíto. Assim, o surgimento do Universo não obrigatoriamente tem que possuir uma causa, podendo ter sido também incausado. Mas pode ter tido, mesmo sem que seja preciso. Resta investigar se teve.
Certamente que “nada” não é algo que exista, mas tão somente a palavra que indica a inexistência do que quer que seja, incluindo matéria, radiação, campo, espaço (mesmo vazio), tempo, regras, espíritos, deuses e tudo o mais. Sendo o Universo o conjunto de tudo o que existe, antes que ele existisse, nada havia, nem “antes”. Pode ser, contudo, que o Universo sempre tenha existido. As observações cosmológicas parecem indicar que não é este o caso, tendo o Universo tido um começo, no qual o tempo também se iniciou. Mas isto não significa que um Universo eterno para o passado seja vedado, como argumetarei mais tarde. É claro, pois, que a causa da existência do Universo não pode ter sido uma ação feita por “nada”. Mas isto não significa que o surgimento do Universo não possa ter se dado sem causa nenhuma e sem que seu conteúdo fosse proveniente de algo antecedente. Aliás, a consideração de que o Universo tenha sido “criado” por alguma entidade extrínseca a ele, também considera que seu conteúdo não tenha sido proveniente de coisa alguma previamente existente.
A argumentação de que isto fere as leis de conservação não procede, pois estas não existiam antes do surgimento do Universo. Elas se aplicam apenas a algo que exista. Outrossim, a criação divina do Universo também as viola.
Em suma, não há nenhuma razão, nem ontológica nem fenomenológica, que impeça o Universo de ter surgido sem causa alguma e sem que fosse proveniente de algo previamente existente.

Em resumo, vir à existência implica em vir de uma causa em vez de puramente nada. O que gera alguma coisa é necessariamente uma causa dotada da propriedade ontológica de causar. Portanto, é totalmente diferente do nada absoluto. Além disso, vir de uma causa implica em vir de outro ser além de si mesmo desde que é impossível existir antes de seu próprio princípio para se causar.

Vir à existência absolutamente não implica em necessariamente vir de uma causa nem em ser gerado por um ser capaz de provocar o evento de surgir. Tal evento pode perfeitamente se dar de forma fortuita. Não há razão nenhuma que diga que todo evento tenha causa, por mais eventos que sejam efeitos existam. Tal obrigatoriedade não é lógica, nem ontológica, nem fenomenológica. Trata-se de um preconceito. Pode ser até que o surgimento do Universo tenha tido uma causa, mas não que obrigatoriamente tenha que ter tido. Isto precisa ficar bem claro. A existência de uma causa é uma questão de investigação. Logo, surgir sem causa não significa “surgir do nada”, isto é, ser proveniente do nada. Nada não um ser, nem um ente (ser é o ente que existe, ente é algo que possa existir fora das mentes que o concebam).
É claro que todo evento que seja efeito de uma causa tem que possuir algum ser que desencadeie esta causa. Se o surgimento do Universo tiver tido uma causa (se é que ele tenha surgido e não sempre existido), então haveria algum ser que provocara seu surgimento. Todavia o surgimento do Universo não precisa ter tido causa.

Finitude do tempo

Em primeiro lugar, quanto maior for a escala maior é o grau de aproximação do todo, de modo que apenas a escala cronológica máxima equivale à totalidade do tempo. Se unicamente a escala cronológica máxima é igual à totalidade do tempo, conclui-se que é igual à duração de tempo limitada pelo presente, de maneira que a escala máxima de tempo e o tempo em si são igualmente finitos.

A conclusão não segue das premissas desta argumentação. Primeiro porque não existe totalidade do tempo como algo apriorístico. Só pode haver uma totalidade do tempo, desde o seu início até o presente, se tiver havido um início (o que considero que seja verdade). Mas isto não é uma necessidade ontológica. É perfeitamente aceitável que o tempo não tenha tido um início. Se teve ou não, isto é objeto de uma verificação fática, isto é, trata-se de uma assertiva de cunho fenomenológico e não lógico nem ontológico. A duração do tempo pode perfeitamente ser infinita, tanto para o passado quanto para o futuro, da mesma forma que pode ser finita em ambos os sentidos, isto é, o tempo pode ter tido um início e pode ter um fim, além do qual não mais passará. O tempo não é uma entidade absoluta e isolada, mas sim advinda das variações no estado global do Universo. Se o Universo se tornar inteiramente estático, o que pode vir a acontecer quando atingir sua máxima entropia e seu mínimo nível de energia, não mais haverá decurso de tempo. Da mesma forma que não existe espaço vazio. Todo espaço (que é a capacidade de caber algo) só existe se preenchido por algum conteúdo, mesmo que seja o vácuo, que não é vazio, pois possui campos e pode estar preenchido por radiação. O vácuo só não tem matéria. A conclusão de que o tempo seja finito não vém de nenhum argumento filosófico, mas sim da análise dos dados observacionais sobre o Universo, especialmente da constatação de sua expansão.

Argumento Kalan

Em segundo lugar, se as partes espaço-temporais do universo fossem eternas o presente estaria eternamente longe de ocorrer pois uma quantidade infinita de eventos teria de antecedê-lo. Na verdade, qualquer evento específico estaria infinitamente longe de acontecer desde que haveria sempre uma quantidade infinita de eventos anteriores para percorrer.

sto é o que se chama de “argumento Kalan” (Kalan são escolas teológicas muçulmanas). Tal argumento não procede. Ele seria válido se um tempo infinito significasse que o tempo teria tido um início infinitamente deslocado para o passado. Então é certo que o presente não existiria, pois nunca se decorreria tempo suficiente para se chegar desde esta origem até hoje. Mas, dizer que o tempo seria infinito para o passado não é isto. É dizer que o tempo nunca teve início, sempre passou. Então não há uma origem dos tempos no passado. A origem pode ser colocada em qualquer instante, por exemplo, agora. Momentos anteriores são negativos e posteriores positivos. A série de momentos negativos se estenderia infinitamente para o passado e a de positivos também poderia se estender infinitamente para o futuro (ou não). Isto não impede a existência do presente.
No entanto, apesar de não haver necessidade lógica, ontológica nem fenomenológica de que o tempo tenha que ter tido um início, as evidências observacionais mostram que, de fato, ele o teve.

Falta de causa

Logo as partes espaço-temporais do universo tiveram uma causa. Desde que elas são finitas, mutáveis e temporais, conclui-se que a Causa Primeira transcende estas partes sendo infinita, imutável e atemporal. Desde que a Causa está além da criação, logo está além de suas limitações.

De jeito nenhum! O fato de ter havido uma origem dos tempos em que houve o surgimento do Universo não implica que tenha que ter tido uma causa, pelo que já argumentei antes e voltarei a considerar na tréplica. A alternativa não é “ou teve causa ou sempre existiu”, da qual se concluiria que, como não existiu desde sempre, então teve causa. O surgimento não precisa ter causa.

Por outro lado, mesmo tendo tido um início, o Universo pode ser espacialmente infinito, já tendo surgido assim. Alíás, esta é a possibilidade mais plausível, face os dados observacionais disponíveis. Que o Universo seja mutável e temporal também não é uma característica essencial, mas uma circunstância atual. O Universo pode atingir um estado de imutabilidade a atemporalidade. O importante é que o Universo é contingente, isto é, sua existência não é necessária, ou seja, poderia não existir. Isto é um fato.

Ser contingente, contudo, não implica em que tenha que ter tido uma causa para existir, apenas que poderia não ter surgido. Note que, até agora, eu não disse que o Universo não tenha tido uma causa, mas que não é preciso que tenha tido. De fato, considero que não teve, mas ainda não cheguei a este ponto. Se sua passagem para a existência teve uma causa, certamente o agente desta causa seria uma entidade extrínseca ao Universo e, portanto, atemporal, pois o tempo é um constituinte do Universo. Mas o que significa dizer que tal agente seria infinito, se infinito é uma extensão ilimitada e não havia espaço para algo se estender? E como dizer que este agente é imutável, se causar o surgimento do Universo é uma ação e, portanto, uma mudança de comportamento? Fosse imutável tal agente, seria incapaz de fazer qualquer ação.

Universo auto existente

Em segundo lugar, uma outra Causa espaço-temporal também teria tido princípio de existência, e assim por diante em regressão infinita, a menos que se admita uma Causa Primeira que estabeleça a existência da criação. Sem um ser auto-existente a realidade espaço-temporal nunca viria a existir.

É claro que, se todos os eventos experimentados pelo Universo tiverem uma causa, ou o Universo sempre existiu, pois as causas precedem temporalmente seus efeitos, ou houve um primeiro evento cuja causa fosse extrínseca ao Universo, evento este que seria, justamente, o seu surgimento, neste caso chamado de “criação”. Como já argumentei, é perfeitamente possível que o Universo tenha sempre existido, então a sequência pretérita de causas seria infinita. Além disso, não é preciso que eventos sejam efeitos, isto é, que possuam causa, especialmente este evento singular do surgimento do Universo.

Admitir um ser extrínseco ao Universo como agente da causa que lhe deu surgimento (o ato criador) apenas transfere o problema. Se tudo que começa a existir tem que ter uma causa, ou sempre existiu, este agente incausado sempre existiu. Mas “sempre” implica decurso de tempo ilimitado e, sem Universo, não há tempo. Logo este agente estaria fora do tempo. Como tempo é mudança, este agente seria imutável e, portanto, incapaz de qualquer ato, como criar o Universo. Ou então há que se pesquisar a causa da existência desse agente e isto também levaria a uma regressão infinita. Então porque não admitir que o próprio Universo sempre existiu ou seu surgimento não tenha tido causa? Isto é, porque o próprio Universo não seria auto existente?

Unicidade

A Causa Primeira é ilimitada ,e portanto única, pois duas ou mais causas se limitariam mutuamente. A existência de muitas causas implica que elas se limitariam reciprocamente no tempo e no espaço. Em resumo, a Causa transcende este universo de espaço-tempo, unificando as unidades finitas e consecutivas em uma só unidade infinita e atemporal. Ou seja, segundo a perspectiva imanente e fragmentária da criação há muitas unidades de espaço e tempo. Por outro lado, segundo a perspectiva transcendente e absoluta da Causa há apenas uma unidade imutável e atemporal.

O pretenso autor da causa primeira seria ilimitado em que? Ao que parece em seu poder. É o que se chama onipotência. Mas poder significa capacidade de agir sem restrições e agir significa mudar, o que é contraditório com a intemporalidade, que seria inevitável se tal agente fosse extrínseco ao Universo, como precisaria ser para criá-lo. Daí uma grande razão para desconsiderar a existência de tal agente.

A questão da imanência e da transcendência deixa de ter razão de ser ao se considerar a falta de necessidade de causa para o surgimento do Universo. Acabei de mostrar que um agente extrínseco ao Universo (transcendente) é contraditório. Um agente causal do surgimento do Universo que seja parte dele mesmo (imanência) é uma impossibilidade, pois um ser não consegue ser agente causal de seu próprio surgimento, uma vez que toda causa tem que anteceder a seu efeito. As únicas alternativas são a existência desde sempre ou o surgimento incausado.

Não há portanto que se discutir se a causa é única ou não, mesmo que, de fato, se houver, tenha que ser única.

Pessoalidade

A Causa Primeira é pessoal. Se ela fosse impessoal teria então de co-existir eternamente com seu efeito, pois dada a existência da Causa Primeira a existência do efeito viria de forma automática. Em resumo, uma Causa impessoal e eterna não teria o poder de escolha para mudar seu rumo de ação, de maneira que ela teria produzido algum efeito desde sempre. Uma Causa impessoal e eterna teria gerado o seu efeito de forma automática durante o curso de sua existência, de modo que a criação nunca teria tido um princípio. Conclui-se que a Causa do princípio da criação tem de ser pessoal.

O que significa ser pessoal? Significa que o ser em questão é uma “pessoa”, isto é, tem uma mente provida de sensibilidade, inteligência, vontade e consciência. Note que tudo isto são processos, ocorrências. Logo implicam em mudanças e, portanto, tempo. Não é possível existir mente fora do tempo. Se não houver decurso de tempo não existe processo de nenhum tipo, nem pensamento, nem emoção, nada que caracterize uma mente.

Isto significa que, para que a criação do Universo tenha sido um ato volitivo de um agente inteligente, este teria que tomá-lo em um dado momento, portanto seria um ser existente no tempo e, então, pertencente ao Universo que estaria criando, o que é contraditório.

Outrossim, se não fosse pessoal, porque isto implicaria em que necessariamente precisaria causar o efeito de criar o Universo? Neste caso o Universo não seria contingente, isto é, necessariamente teria que existir. Agentes causais, mesmo impessoais, podem ou não provocar os efeitos que causam. Isto é o indeterminismo, uma das mais importantes e consequentes decorrências da descoberta do comportamento quântico.

Mesmo que o surgimento do Universo tivesse tido uma causa, o que, no argumento cosmológico, permite identificar esta causa com a noção de Deus que é concebida pelas religiões, especialmente no que diz respeito ao caráter de provedor e de juiz? Nada! No máximo este argumento poderia provar a existência do deus dos deístas. Mesmo assim não o faz, pois sua premissa maior não é verdadeira.

Importante observação

Antes de prosseguir quero deixar claro que o que está sendo discutido não é a existência ou a inexistência de Deus, mas sim se o argumento cosmológico (ou da causa primeira) é capaz de provar ou não a existência de Deus. Eu poderia acreditar que Deus existisse que, mesmo assim, continuaria a defender a tese de que o argumento cosmológico não a prova, mesmo que ele existisse. Seria interessante haver outros tópicos sobre os outros quatro argumentos tomistas para a existêcia de Deus, que são o do motor primo, do ser necessário, do ser perfeitíssimo e da inteligência ordenadora. Depois se poderia travar um debate sobre a existência de Deus propriamente.

Eventos incausados

Existem eventos IMPREVISÍVEIS, não incausados. O fato de não podermos prever um evento só significa que não podemos controlar suas causas, não que as causas inexistem. Se trata de eventos cujas causas não podemos detectar, mas isso não significa que as causas inexistam. Vc tem de provar que as causas inexistem, pois o ônus da prova é teu. Premissa equivocada, conclusão equivocada.

Pode ser que se venha a detectar alguma causa para o decaimento radioativo e para a emissão de fótons por sistemas excitados. No entanto, nada impõe que seja preciso que haja uma causa, uma vez que não fora detectada. Friso que a conclusão de que todo evento seja o efeito de uma causa foi tirada por indução, já que os eventos macroscópicos, no nível da percepção humana direta, assim o são. Observados que sejam eventos a que não se consegue achar a causa, o raciocínio falha, não se podendo garantir mais a necessidade de causa. Outrossim, não há nenhuma outra razão, a não ser a observação, que implique a necessidade de causa. Portanto não se pode dizer que exista um “Princípio de Causalidade” desta forma estatuído. O único princípio que se pode estatuir sobre causa e efeito é que aquela tem que preceder a este no tempo. Aliás, este é um dos critérios para se determinar o sentido da flexa do tempo. Isto é tão bem assentado na Física que os modelos cosmológicos que contemplam a possibilidade de viagens ao passado, o fazem por meio de uma curva tipo tempo fechada que, localmente, isto é, na vizinhança espaço-temporal de cada evento, sempre se vai ao futuro, chegando ao passado no fim do percurso cíclico. Isto é, a volta ao passado é global, e não local. O indivíduo que faz a viagem vai envelhecendo até encontrar ele mesmo mais novo no passado. Ele não volta localmente para o passado. Isto é que é explorado nos filmes da série “De volta para o futuro”.
Dizer que não existem eventos incausados é um preconceito sem fundamento em nada que garanta sua validade.

Ônus da prova

Não é preciso provar que não existem causas, pelo contrário. A existência de causa não é uma necessidade, como já mostrei. Assim, sua existência é que deve ser verificada, em cada caso. Se não se detecta nenhuma, a suposição básica é que não exista, o que seria mudado uma vez que se a identifique. Note-se que uma correlação altamente positiva entre eventos associados e temporalmente sequenciados não implica, necessariamente, em relação causal, podendo mesmo ambos serem decorrência de uma causa comum. Também precisa ficar bem claro que causalidade e determinismo são conceitos diferentes. O fato de um evento ser causa do outro não significa que ele determine a sua ocorrência mas que, se ocorrer, foi por causa do primeiro. Gravidez é causada por relações sexuais, mas nem toda relação sexual provoca gravidez. Inversamente, se um evento determina a ocorrência de outro, não é sempre que a ocorrência deste último seja causada pelo primeiro. A chuva molha a terra, mas a terra pode ser molhada por outra ocorrência, como uma irrigação.

Nada significa inexistência da matéria. Vc mesmo contestou sua conclusão. Se a lei de conservação só se aplica enquanto o universo existe, logo a criação do universo por Deus não a viola.

ada não é apenas inexistência de matéria. Nada é a inexistência de qualquer coisa: matéria, campos, radiação, espaço, tempo, ocorrências, leis naturais, o que for. Certamente que inclui a inexistência dos atributos dessas entidades, como extensão, posição, forma, duração, massa, energia, carga elétrica, movimento etc. Inexistência de matéria chama-se vácuo, que pode conter campos e radiação. Inexistência de qualquer conteúdo substancial chama-se vazio. No vazio ainda se tem espaço, isto é, capacidade de caber algo. Não havendo nada também não se tem a possibilidade da caber o que seja, isto é, não tem espaço, nem vazio. Nada não é uma entidade, portanto não existe, pois tudo o que existe é algo. Nada é só uma palavra representativa de uma idéia, a idéia da inexistência de qualquer coisa.

Certamente que a criação do Universo por Deus não viola as leis de conservação se entendermos que elas não valem se não houver Universo. Mas se considerarmos que o surgimento do Universo sem ter sido criado e sem ser proveniente de coisa alguma não pode ocorrer porque viola as leis de conservação, então sua criação por um agente extrínseco, sem que nada houvesse antes, também violaria. É isto que eu quiz dizer e me expressei mal.

Totalidade do tempo

Pelo contrário, existe uma totalidade de tempo porque existe uma extremidade cronológica no presente.Ou seja, o tempo é limitado pelo presente e por isso é totalmente plausível a referência à totalidade do tempo. É impossível ao tempo ser infinito no passado pois então nenhum evento poderia ser alcançado, desde que haveria sempre uma quantidade infinita de eventos anteriores para percorrer. A entropia de um sistema isolado sempre aumenta. Isso significa que em escala universal existe um sistema cronológico absoluto. Eu diria que tanto a filosofia quanto a ciência concluem pelo princípio do universo.

O fato do tempo ser limitado pelo presente não implica que ele seja totalizável, ou seja, que exista um número que o meça em toda a sua extensão. Tanto uma reta quanto uma semi-reta são infinitas, logo, não possuem um comprimento mensurável. O tempo também pode ser infinito mesmo sendo limitado em apenas um de seus extremos. Só será mensurável se for limitado nos dois extremos. Já mostrei que é possível o tempo ser infinito para o passado, pois isto não significa que ele iniciou em um momento infinitamente distante mas sim que nunca iniciou.

A segunda lei da Termodinâmica não diz que a entropia sempre aumenta mas sim que nunca diminui. Pode ficar constante. Isto significa que o tempo pode parar de passar se considerarmos o sistema do Universo como um todo (que é isolado, por definição). Mas o que eu quero dizer com o fato do tempo não ser absoluto é que ele não existe por si mesmo, mas apenas em decorrência das ocorrências do Universo, isto é, das mudanças de estado, que aumentam a entropia. Se o Universo permanecer em equilíbrio o tempo para de passar. E isto pode acontecer. Além do mais o tempo é relativo ao observador. Inclusive a constatação de simultaneidade entre eventos.

Concluindo

As últimas afirmações do Vinícius sobre a necessidade de causa já foram refutadas.

Resumindo, o principal argumento para derrubar a prova cosmológica é o de que não há necessidade de causa, contrariando sua premissa maior.

Outra premissa falsa é a de que não seria possível que o Universo tenha sempre existido.

O argumento diz que, como isto não é possível, então o Universo teve que começar e, como tudo que começa tem que ter causa, não havendo Universo antes do seu começo, a causa seria Deus.

Mesmo que as duas premissas fossem verdadeiras, nada indica que a causa fosse Deus.

Aguardo, pois, que Vinícius argumente que razões indicam que causa seja algo necessário para a ocorrência de todo e qualquer evento. O ônus da prova, realmente, é dele.

Não é a Filosofia que conclui por ter o Universo um início, mas sim a Ciência. Pela Filosofia o Universo poderia perfeitamente ter sempre existido. As observações cosmológicas (e, portanto, fenomenológicas) é que permitem inferir que houve um momento inicial do tempo. Mas nem a Filosofia nem a Ciência permitem concluir que o surgimento do Universo tenha sido por obra de Deus, independentemente de se considerar que ele exista ou não. Pode ser que ele exista e que tenha criado o Universo. Mas não há prova alguma de que assim tenha sido. Tal consideração é um puro ato de fé, como já o mostrara Guilherme de Occam, que, aliás, tinha esta fé.

Argumento Kalan

O argumento em nenhum lugar presume um início infinitamente deslocado para o passado. Ele só presume que a totalidade infinita dos eventos até o presente não pode ter sido percorrida. Mesmo contando a partir de números negativos, conclui-se que a totalidade infinita de eventos, desde o passado até o presente, não poderia ter sido percorrida.

Claro que presume. Não fora assim não teria significado nenhum considerar que uma totalidade infinita de eventos não poderia ter ocorrido até hoje. Isto só tem significado se se considerar um momento inicial dos tempos infinitamente deslocado para o passado. Se se considerar que o tempo não teve momento inicial, sua origem pode ser colocada em qualquer instante e não há impossibilidade de que o presente exista, pois a extensão do tempo seria uma infinidade sem começo. Não existe um percurso através dos momentos que tenha começado e que não teve possibilidade de alcançar o presente. Não estou dizendo que isto seja o que, de fato, ocorreu, mas apenas que pode perfeitamente ser o que se dá.

Surgimento incausado

O surgimento não precisa ter causa. Por que não?

Porque algo precisa ter causa? Esta é a questão primordial desta discussão. Na contestação de uma próxima assertiva do Vinícius mostrarei que não existe nenhum “Princípio Causal”. Portanto não é preciso que o surgimento do Universo tenha tido uma causa. Mas pode ser que tenha tido. Neste caso é preciso que se investigue se teve ou não e se demonstre que sim, caso tenha tido. Isto absolutamente não está demonstrado. A pergunta que tem que ser feita é: O surgimento do Universo teve uma causa? Qual?

A minha abordagem demonstra que o universo é cronologicamente finito.

As observações cosmológicas realmente mostram que o Universo é cronologicamente finito para o passado. Mas não o argumento Kalan, como já mostrei.

Exato. Porém, é verdade que se o universo estivesse em estado imutável e atemporal ele jamais voltaria a ser temporal. Ou seja, o tempo existe desde o princípio do universo e só será extinto em um futuro distante.

É perfeitamente possível que o conteúdo do Universo não tenha surgido em seu início, mas já estivesse presente de forma estática, sem que houvesse passagem de tempo e, por alguma flutuação aleatória, tenha iniciado a expandir-se dando início ao tempo. No caso de sua morte térmica futura, as condições de entropia máxima e nível de energia mínima não permitiriam novo início da contagem do tempo. Mas o surgimento de algum novo Universo não é impossível.

Eternidade sempre presente

É cronologicamente infinito, desde que é eterno.

Considerando que Deus tenha criado o Universo e que já existia antes dele, sendo eterno, está se considerando que o tempo já existia antes que o Universo existisse, pois ser eterno é existir ao longo de uma extensão infinita do tempo. Isto, inclusive, significa que o tempo não teve início, senão, como Deus poderia ser eterno? É preciso entender que tempo não é uma entidade apriorística (bem como espaço) como julgava Newton, ao longo da qual os eventos se processam. Tempo é algo cuja existência advém justamente das alterações do estado global do Universo, isto é, do que existe. Espaço só existe se houver um conteúdo para preenchê-lo e tempo se esse conteúdo evolui. Isto significa que se o tempo não for eterno, não há um tempo infinito e Deus não pode ser eterno, a não ser que tempo seja algo extrínseco ao Universo, isto é, sobrenatural, o que não é o caso.

Do ponto de vista transcendente da causa todos os atos estão situados em um eterno presente.

O que poderia significar “eterno presente”? Pelo que depreendo é a situação em que todos os momentos do passado e do futuro de qualquer observador sejam levados a um único momento presente para alguém. Isto é o que acontece com um fóton, para o qual o tempo não passa. Mas o fóton não é eterno. Para observadores externos ele surge em um momento e pode ser aniquilado em outro. Para si mesmo está sempre no presente. Seria Deus a luz? A questão é: como algo assim possa ser uma pessoa, ter sensibilidade, inteligência, vontade, poder e ação sobre o mundo estando sempre no presente? Qualquer ação, envolva ou não causa e efeito, é uma modificação do estado que implica em uma situação anterior e uma posterior, e, logo, em decurso de tempo.

Outrossim, como dizer que algo seja eterno se o tempo para ele não passa?

Inviabilidade da transcendência de Deus

Em primeiro lugar, de acordo com a perspectiva transcendente e atemporal de Deus todos os eventos estão situados em um estado não-diferenciado, ou seja, estão situados em um estado de eterno presente. Em resumo, a criação está em última análise inserida em um estado cronológico imutável.

Isto é um completo não-senso. Não pode haver “eterno presente”, pois eterno significa existente ao longo de um tempo infinito e, portanto, constituído de momentos que se movem do futuro para o passado, passando por um presente, a cada momento diferente, sem limites. Na verdade os momentos futuros ainda não existem, mas são apenas expectativas que se tornam reais no presente e passam a ser registros no passado. Isto é, o passado não é uma realidade, mas apenas a constatação, por registros, de que houve momentos em que tais ocorrências foram presente. Mas o importante, para se considerar a linha do tempo, é que o presente é móvel, isto é, não é sempre o mesmo, pois as ocorrências que se dão, a cada momento, são outras. Aliás, se assim não fora, não haveria decurso de tempo. Portanto, “eterno presente”, no sentido de que em todos os momentos tudo fica igual, implica em que não se passe tempo nenhum, não havendo, pois, eternidade.

O surgimento e a evolução do Universo absolutamente não podem ser, do ponto de vista de nenhum observador, um estado cronológico imutável, senão não aconteceria nada.

Se houver Deus, e se ele for eterno, então ele tem que estar dentro do tempo e isto significa que ele tem que fazer parte do Universo, que, portanto, seria eterno e não criado por nada fora dele. O que, aliás, não existe. O que se poderia admitir é que Deus fosse alguma estrutura de campo total do Universo que tivesse engendrado uma transformação em si mesmo de forma a dar azo ao surgimento das estruturas atuais que, desta forma, seriam partes do próprio Deus. Isto é panteísmo e não teísmo. Note-se, contudo, que esse Deus não é transcendente. Não há provas disto também.

Sem causa primeira

Em segundo lugar, sem uma Causa Primeira as causas secundárias nunca viriam à existir desde que sem uma Causa original a série inteira estaria sem uma Causa.Isso porque as causas secundárias são apenas transmissoras da causalidade, sendo que somente a Causa Primeira é produtora.

Este argumento perde a razão de ser se não se requer a necessidade de causa para os eventos, especialmente de uma causa primeira de todos eles. É claro que todo encadeamento causal é produzido por uma causa primeira. Após o surgimento do Universo inúmeros eventos deram início a encadeamentos causais que se estendem até hoje, sem que tenha havido um único que lhes fosse o iniciador geral. Ao longo do tempo, inclusive no presente, novas causas primeiras estão sempre desencadeando encadeamentos causais cujas interconexões produzem a evolução cosmológica e produziram tudo o que existe como é, inclusive a vida, a inteligência e a consciência de que somos possuidores.

Em terceiro lugar, o universo PODERIA ser auto-existente, caso não houvesse evidência de seu princípio.

Mesmo com evidências de seu princípio, como é o caso, o Universo pode perfeitamente ser auto-existente, entendendo isto como ter surgido sem ser causado por nada fora dele. Mas não que ele seja a causa de si mesmo. Simplesmente que não tenha causa nenhuma. Volto a frisar que esta é toda a questão: causa não é uma necessidade.

Reação da criação

A Causa Primeira não precisa de uma causa.

Claro que não! A questão é que não é preciso haver uma única causa primeira de tudo e nem é preciso que existam causas para tudo.

Eu já demonstrei que agir não implica em mudar pois a perspectiva transcendente de Deus unifica todos os eventos ocorridos no tempo em um estado de eterno presente.

De jeito nenhum! Agir significa em mudar sim! Agir é proceder a uma alteração, e logo em uma mudança, senão não houve ação nenhuma. Se a ação não foi espontânea, isto é, incausada, então ela teve um agente, sobre o qual a ação provoca uma reação que será uma mudança no estado do agente. É o caso da criação do Universo por Deus, logo, ao criar o Universo, Deus mudou, não podendo, pois, existir em um eterno presente e, logo, não ser transcendente ao Universo.

A questão é que existem muitas razões para se considerar que Deus é algo que não existe e, portanto, que o Universo não foi criado por entidade nenhuma. Não só esta prova cosmológica, mas nenhuma das outras consegue provar que Deus existe (como aliás, não se tem prova de que não exista). Os indícios de sua inexistência, contudo, são muito mais fortes do que os de sua existência. Mas isto seria objeto de outro tópico.

O ser transcendente tem de ser também imanente senão estaria espacialmente limitado, posto que não seria onipresente. O ser imanente pode também ser transcendente, por estar presente no universo e ao mesmo tempo ultrapassá-lo infinitamente.

Ser Deus transcendente e também imanente significa que o Universo é uma parte dele, mas não a totalidade. Isto muda o conceito do que seja Universo. Se por Universo se entende o conjunto de tudo o que existe, então Deus, se existir, faz parte dele. Chamemos então de Universo o conjunto de tudo, exceto Deus. E se o Universo é uma parte de Deus, então é possível que ele tenha surgido por uma ação de Deus em um dado momento, que transformou parte de si no Universo. Mas isto nada mais é do que supor o Universo eterno e que, em algum momento, parte dele sofreu uma transformação, iniciando a expansão e convertendo-se em matéria, campos e radiação que são o conteúdo atual. Todavia isto não tem nada a ver com necessidade de uma causa para esse surgimento, muito menos de que Deus seja uma entidade pessoal, nem que seja provedor, juiz, justo e bondoso.

Em suma, desta forma é plausível admitir a existência de Deus, mas o conceito de Deus passa a ser, também, completamente diferente. Deus, pelo conceito que as religiões lhe têm, não fica provado que existe pelo argumento cosmológico.

Criador impessoal

Um pensamento eterno e oni-abrangente é plenamente viável. Logo é plausível um Criador pessoal.

Se Deus for uma pessoa pensante ele não pode existir fora do tempo. Aliás se assim o for não será eterno, como já mostrei. Existir um ser eterno com mente é possível, desde que o Universo nunca acabe. Este ser pode até ser um robô, isto é, não biológico e, portanto, imortal. Robôs com mente e consciência podem vir a ser construídos. Mesmo uma mente não biológica, estruturada a partir de campos seria possível. Seria isto um espírito? Mas seria natural e não sobrenatural. Sobrenatural é um conceito que não possui realidade. Tudo é natural, mesmo Deus, se existir, na concepção que mencionei na postagem anterior. Mas nunca será uma entidade que viva um presente permanente.

Já demonstrei que os atos temporais da perspectiva da criação são um eterno presente da perspectiva de Deus.

Não demonstrou não.

Se fosse impessoal não teria liberdade de escolha para mudar de estado. Logo, sendo uma causa, produziria desde sempre o universo.

É claro que não sendo pessoa não tem escolhas. Mas isto não implica que seja necessário a produção do Universo. Porque? O surgimento do Universo, como já mostrei, foi uma ocorrência fortuita, que poderia não ter havido, exista ou não Deus, seja ele ou não uma pessoa. Outrossim, se, de fato, teve uma causa, causa esta inevitável, então há que se considerar que o Universo não é mesmo contingente, isto é, que sua existência é uma necessidade.

Indeterminismo

O indeterminismo é infalseável de qualquer causa concebível, sendo cientificamente falso.

Claro que não! Há muitas experiências que comprovam o indeterminismo da natureza. Nem é preciso apelar para a Física Quântica. Causas, mesmo quando ocorrem, não são sempre determinantes. Como disse, gravidez é causada pelo sexo, mas sexo nem sempre determina gravidez. Experimentos quânticos, como a difração de elétrons, mostram que não há como se determinar, pelas condições iniciais, qual sua posição após atravessar um anteparo. Existem inúmeros experimentos que confirmam a incausalidade. É um fato extremamente bem estabelecido na ciência, perfeitamente falseável, contudo comprovado.

Este raciocínio está incorreto pois supervaloriza a excessão em detrimento da regra. Em casos de dúvida, a lei geral tem o benefício da dúvida.

Que regra? De que todo evento seja efeito de uma causa? Esta regra não existe! Já mostrei isto sobejamente.

Errado, pelo motivo citado acima.

Certo! Pelos motivos já apresentados.

Princípio ontológico???

O Princípio da Causalidade é um princípio ontológico, independente da questão epistemológica. A base do princípio é auto evidente, a saber, que inexistência não produz existência.

O que significa ser ontológico? Significa que se refere à categorização da realidade em sua apreensão pelo intelecto. Conceitos e definições não precisam de explicação, mas sim de aceitação pela coletividade dos que os usam, uma vez que delimitam a extensão de sua aplicabilidade. Princípios, contudo, sendo assertivas a respeito das relações entre aquilo que os conceitos expressam, têm que ser validados epistemologicamente sim, mesmo que sejam ontológicos. O dito “Princípio da Causalidade” não é auto evidente de forma alguma. Ou seja, não é um “juizo analítico”, na acepção de Kant. Nada no conceito de “evento” inclui o fato de ser uma ocorrência causada, como se dá no conceito de “efeito”. Dizer que todo evento seja um efeito já é um juizo a ser validado pela lógica. Tal proposição ou seria deduzida de um princípio mais geral válido, o que não existe, ou induzida a partir da observação. Até o advento da Física Quântica não se tinha notícia de eventos que não fossem efeitos. No nível atômico e subatômico eles se mostram, o que invalida a indução. Note que uma conclusão induzida não é necessária, mas sempre provisória. Assim, tal “Princípio”, jamais poderia ser estabelecido, mesmo que não houvesse nenhum contra-exemplo.

Por outro lado não se disse, em momento algum que uma inexistência tenha produzido uma existência, ou seja, que o Universo tenha surgido “do nada”. O que se disse é que ele surgiu sem ter sido proveniente de coisa alguma e sem que este surgimento fosse causado por algum agente. Isto é diferente. A criação do Universo por Deus é que teria sido a partir do nada, a não ser no caso de que o Universo seja parte do próprio Deus.

Segunda Lei da Termodinâmica

A segunda lei afirma que em um sistema isolado a entropia sempre aumenta.

Que é isto? Só aumenta nos processos irreversíveis. Consultem estas referências:

HALLIDAY, RESNICK & WLKER. Fundamentos da Física, v. 2, 7ª ed. Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos, 2006. p.249.
SEARS, ZEMANSKY, YOOUNG & FREEDMAN. Física II, 10ª ed. São Paulo, Pearson, 2003. p.222.
SEARS & SALINGER. Termodinâmica, Teoria Cinética e Termodinâmica Estatística, 3ª ed. Rio de Janeiro, Guanabara Dois, 1979. p. 123.
ZEMANSKY. Heat and Thermodynamics, 5th., ed. Mc. Graw-Hill Kogakusha, Tokyo, 1968. p.234.

NENHUMA das referências que vc citou afirma que a entropia de um sistema isolado pode diminuir.

Eu não disse, em momento algum, que a entropia de um sistema isolado venha a diminuir com o tempo. O que eu disse é que ela não necessariamente aumenta, o que é muito diferente. Ela pode ficar constante e isto é o que acontece quando as transformações são reversíveis. Quando elas forem irreversíveis, a entropía aumenta. Se o sistema não for isolado ela pode até diminuir, que é o que possibilita a formação de galáxias, estrelas, planetas, bem como o surgimento da vida a partir da matéria inanimada, de forma expontânea. Esta redução localizada da entropia, às custas de um aumento na vizinhança, é possibilitada pelas interações cumulativas como a gravidade e as forças de Van der Walls ou as pontes de hidrogênio, mas não pela interação eletromagnética, por exemplo. Quando uma flutuação aleatória de densidade de uma nuvem de gás no espaço sideral provoca uma concentração localizada, a gravidade tende a aumentar esta concentração cada vez mais, rarefazendo a vizinhança. Com a aproximação, diminui a energia potencial gravitacional e aumenta a energia cinética, aumentando a temperatura, até que iniciem-se reações nucleares que provoquem uma pressão de radiação que impeça a continuidade da concentração. Temos aí o surgimento de uma estrela. O mesmo se dá com as galáxias.

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