É de chorar

by @ 1:09 on 30 junho 2010. Filed under Inespecífica

É uma pena mas é verdade.
São Leopoldo tem um dos menores índices de analfabetismo e de mendicância do país, talvez por causa de homens como Silvino Geremia, empresário em São Leopoldo, estado do Rio Grande do Sul.
Eis o seu desabafo:
“Acabo de descobrir mais um desses absurdos que só servem para atrasar a vida das pessoas que tocam e fazem este país: investir em educação é contra a lei.
Vocês não acreditam?
Minha empresa, a Geremia, tem 25 anos e fabrica equipamentos para extração de petróleo, um ramo que exige tecnologia de ponta e muita pesquisa. Disputamos cada pedacinho do mercado com países fortes, como os Estados Unidos e o Canadá. Só dá para ser competitivo se eu tiver pessoas qualificadas trabalhando comigo.
Com essa preocupação criei, em 1988, um programa que custeia a educação em todos os níveis para qualquer funcionário, seja ele um varredor ou um técnico.
Este ano, um fiscal do INSS visitou a empresa e entendeu que educação é salário indireto. Exigiu o recolhimento da contribuição social sobre os valores que pagamos aos estabelecimentos de ensino freqüentados por nossos funcionários, acrescidos de juros de mora e multa pelo não recolhimento ao INSS. Tenho que pagar 26 mil reais à Previdência por promover a educação dos meus funcionários?
Eu acho que não. Por isso recorri à Justiça.
Não é pelo valor, é porque acho essa tributação um atentado. Estou revoltado. Vou continuar não recolhendo um centavo ao INSS, mesmo que eu seja multado 1000 vezes.
O Estado brasileiro está falido. Mais da metade das crianças que iniciam a 1ª série não conclui o ciclo básico. A Constituição diz que educação é direito do cidadão e dever do Estado. E quem é o Estado?
Somos todos nós.
Se a União não tem recursos e eu tenho, acho que devo pagar a escola dos meus funcionários. Tudo bem, não estou cobrando nada do Estado. Mas também não aceito que o Estado me penalize por fazer o que ele não faz. Se a moda pega, empresas que proporcionam cada vez mais benefícios vão recuar. Não temos mais tempo a perder. As leis retrógradas, ultrapassadas e em total descompasso com a realidade devem ser revogadas. A legislação e a mentalidade dos nossos homens públicos devem adequar-se aos novos tempos.
Por favor, deixem quem está fazendo alguma coisa trabalhar em paz.
Vão cobrar de quem desvia dinheiro, de quem sonega impostos, de quem rouba a Previdência, de quem contrata mão-de-obra fria, sem registro algum. Sou filho de família pobre, de pequenos agricultores, e não tive muito estudo. Completei o 1º grau aos 22 anos e, com dinheiro ganho no meu primeiro emprego, numa indústria de Bento Gonçalves, na serra gaúcha, paguei uma escola técnica de eletromecânica. Cheguei a fazer vestibular e entrar na faculdade, mas nunca terminei o curso de Engenharia Mecânica por falta de tempo.
Eu precisava fazer minha empresa crescer. Até hoje me emociono quando vejo alguém se formar. Quis fazer com meus empregados o que gostaria que tivessem feito comigo. A cada ano cresce o valor que invisto em educação porque muitos funcionários já estão chegando à Universidade. O fiscal do INSS acredita que estou sujeito a ações judiciais. Segundo ele, algum empregado que não receba os valores para educação poderá reclamar uma equiparação salarial com o colega que recebe. Nunca, desde que existe o programa, um funcionário meu entrou na Justiça. Todos sabem que estudar é uma opção daqueles que têm vontade de crescer…
E quem tem esse sonho pode realizá-lo porque a empresa oferece essa
oportunidade. O empregado pode estudar o que quiser, mesmo que seja Filosofia, que não teria qualquer aproveitamento prático na Geremia.
No mínimo, ele trabalhará mais feliz.
Meu sonho de consumo sempre foi uma Mercedes-Benz. Adiei sua realização várias vezes porque, como cidadão consciente do meu
dever social, quis usar meu dinheiro para fazer alguma coisa pelos meus 280 empregados. Com os valores que gastei no ano passado na educação deles, eu poderia ter comprado duas Mercedes. Teria mandado dinheiro para fora do país e não estaria me incomodando com
leis absurdas. Mas não consigo fazer isso. Sou um teimoso.
No momento em que o modelo de Estado que faz tudo está sendo questionado, cabe uma outra pergunta.
Quem vai fazer no seu lugar? Até agora, tem sido a iniciativa privada.
Não conheço, felizmente, muitas empresas que tenham recebido o tratamento que a Geremia recebeu da Previdência por fazer o que é dever do Estado. As que foram punidas preferiram se calar e, simplesmente, abandonar seus programas educacionais. Com esse alerta temo desestimular os que ainda não pagam os estudos de seus funcionários. Não é o meu objetivo.
Eu, pelo menos, continuarei ousando ser empresário, a despeito de eventuais crises, e não vou parar de investir no meu patrimônio mais precioso: as pessoas.
Eu sou mesmo teimoso.”

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4 Responses to “É de chorar”

  1. Jordana Bianchi disse:

    É deste tipo de “teimosia” que nascem ideias que promovem o bem comum; oferecer aos funcionários a oportunidade de estudar — ainda que isso não seja refletido diretamente na empresa, como o exemplo citado por Geremia de um empregado que decidisse cursar Filosofia — é mostrar a ele que a educação é uma riqueza que dele não será tomada, e “no mínimo, ele trabalhará mais feliz”. E, no entanto, ainda há “teimosos” que insistem no outro lado, em obstruir iniciativas admiráveis como esta e acreditar que educação é salário indireto, e não conhecimento ao alcance de pessoas que, de outra maneira, talvez não pudessem ter acesso a ele.
    Como disse, Ernesto, é uma pena, mas é verdade.

  2. Inês Sagula Fossa disse:

    Isto é revoltante.
    Então nesse caso a bolsa que recebo da prefeitura de São José dos Campos, SP., para qq estudo que eu queira fazer é considerada como salário?
    Estranho, porque a EMBRAER mantem uma escola de ensino médio período integral, e dá bolsa para todos os funcionários que queiram estudar.
    Se eu não me engano, existe, acho que só aqui no estado de SP. Um insentivo fiscal para as empresas que investem em educação.Vou pesquisar melhor sobre.

  3. Marô disse:

    Ainda bem que ainda existe gente teimosa nesse mundo… se esse tipo de teimosia acabar, não sei o que será do nossso país!!!

  4. Entropia disse:

    A educação é o setor mais importante para criar riqueza na moderna sociedade do conhecimento.

    A Carta Magna que versa sobre a organização e estrutura político-jurídica do país, …,o modo de aquisição e exercício do poder só se faz presente na “folha de papel”.

    Os direitos e garantias fundamentais não são assegurados de forma fundamental. Os valores são viciados, eivados de desordem político-administrativa. Diante do caos,os “déspotas esclarecidos” pressionam o “bem-estar” por meio da sobretaxação, mesmo que seja incoerente, insipiente, retrógada, a sua aplicação.

    Diante de tal conjuntura, muitos se calam. Porém, os teimosos mais teimosos ficam, mais educadores se tornam, mais cidadãos assim o são.

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