O que é “nada” e “surgir do nada”

by @ 3:27 on 16 julho 2010. Filed under Metafísica

Dizer se algo pode surgir do nada requer, preliminarmente, que se conceitue “nada”. Nada não é algo, mas apenas a palavra que designa a ausência de qualquer coisa. Nada é a falta de conteúdo em termos de matéria, radiação e campos, como também de espaço e tempo. Nada não é um vazio, pois no vazio há um espaço não preenchido por conteúdo algum. Nem é o vácuo, pois o vácuo só não contém matéria, mas é preenchido por campos e radiação. Se você apertar seu indicador contra o polegar, entre eles não há nada, nem espaço vazio. Nada é isto. Como não é coisa alguma não pode engendrar o surgimento de algo. Mas isto não significa que tudo que surja precise ter algo de onde provenha. Pode haver surgimento sem que seja proveniente de coisa alguma. Se o Universo não for eterno para o passado, como as evidências observacionais mostram que não é, então houve um momento zero do tempo em que se deu seu surgimento. Antes disso não havia conteúdo algum, nem espaço nem tempo (logo não havia “antes”). Se algo existe, incluindo o tempo, há que ter havido um surgimento, que é a passagem da inexistência para a existência. E se não havia nada de que tudo fosse procedente, tal surgimento se deu sem que fosse proveniente de nada. Dizer que foi uma obra de Deus não explica de onde proveio, pois Deus teria “criado” (provocado o surgimento) sem tirar de coisa alguma. A não ser que tudo tenha provido da substância do próprio Deus, como considera o panteísmo. Mas Deus, caso exista, o que considero que não, não pertenceria ao Universo. “Surgir do nada” é, pois, uma expressão, não para desiginar a procedência de algo como sendo “o nada”, que não existe, mas como não sendo procedente de coisa alguma, o que é diferente.
É claro que todo efeito tem uma causa, pois efeito é, por definição, um evento que possua causa. Mas nem todo evento é um efeito. Tal suposição é equivocada e provém da observação dos eventos acessíveis à percepção humana direta. No domínio sub-atômico há inúmeros eventos fortuítos ou incausados, como a desintegração radioativa, a emissão de fótons por sistemas excitados e o surgimento de pares de partícula e antipratícula, que se dão aos miríades a todo instante e em todos os lugares. Como a assertiva de que todo evento seja um efeito é obtida por indução e existem muitos contra-exemplos, ela não é válida. Assim o surgimento do próprio Universo não requer causa nenhuma e nem foi algo necessário. O Universo poderia não existir. Outra incorreção é considerar a necessidade de uma inteligência planejadora para a evolução cósmica e biológica. Claro que não! Tudo o que existe pode perfeitamente ter surgido por acaso e, certamente, assim o foi. Por mais baixa que seja a probabilidade não é uma impossibilidade e se existe o que existe é porque assim se deu, apesar da baixa probabilidade. É como ganhar na loteria: uma quase impossibilidade, mas há quem ganhe. O chamado “Princípio da Causalidade” apenas afirma que, quando um evento possui uma causa, esta precede o seu efeito, sendo isto uma das formas de se determinar o sentido da “flecha do tempo”, além do aumento da entropia. Outra observação é que “causa” é um atributo de eventos e não de seres. Um ser não tem causa. O que pode ter causa é o evento da passagem dele da inexistência para a existência.
A expansão e o aumento da entropia são ocorrências que se dão em um Universo existente. Não havendo Universo não há atributo nenhum, pois não há coisa alguma que os possua. Tampouco há leis físicas, pois estas descrevem (e não prescrevem) o comportamento de sistemas existentes. A passagem da inexistência para a existência do Universo é uma ocorrência que se deu sem que houvesse lei nem grandeza associada a atributo algum para descrevê-la. Somente após existir algo é que tudo passa a ocorrer segundo leis que relacionem grandezas, especialmente as de conservação, além da não diminuição da entropia. Esta ocorrência é única e inteiramente singular. Mas não há, ainda, teoria descritiva dela. A teoria do Big Bang se refere à expansão do espaço com seu conteúdo já existente.

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3 Responses to “O que é “nada” e “surgir do nada””

  1. jonas disse:

    Caro Ernesto!
    Acho que estás muito otimista quanto “por mais baixa que seja a probabilidade,não é uma improbabilidade”é improbabilidade mesmo,pois somente um materialismo filosófico(filosófico,pois não há provas cabais,então assume-se pressupostos através de preconceitos)e um desejo de que DEUS não exista,pode com precárias e pífias evidências negar a razão e a lógica tão determinantes em nossa vida.Exemplo:O acaso esgota todos os recursos probalísticos do Universo,em que a montagem de uma proteína funcional se dará na razão de 1×10 na potência de 195,sendo que a grandeza deste número se verifica em que todos os átomos do universo estão na razão de 10 na potência 80.Recursos probalísticos do Universo conseguem gerar no máximo 500 Bits,e é preciso muito mais informação que isso para gerar uma proteína aleatóriamente.Não compreendo como pessoas inteligentes e sensíveis conseguem “obscurecer” a razão e a lógica em suas declarações.A Informação é a essência de tudo que há no Universo,e ela é fruto de uma atividade consciente e isto sabe-se por nossa experiência repetitiva e regular.A inteligência é a melhor explicação ou inferência para a origem da infusão de informação nos seres vivos!Processos naturais não direcionados não produzem grandes quantidades de complexidade especificada(informação)começando de precursores quimicos.Se estamos a ter problemas quanto ao tamanho do Próton(4% menor do que o previsto)que é elementar,quanto de certezas teremos frente há este imenso “oceano incognicível” chamado VERDADE?DEUS nos deixou a Razão e a Lógica para que fossem as nossas tutoras e guardiãs,assumindo livremente que pudéssemos chegar ao SEU pleno conhecimento,independente do nível sócio-cultural.Abraços

  2. Ernesto disse:

    Ao contrário do que pensas, nutro um sincero desejo de que eu esteja errado e Deus exista, especialmente para poder punir a maldade. Mas não vejo indício nenhum disto. Quanto à probabilidade da formação de uma proteína, seu cálculo tem que ser feito por etapas. Primeiro da formação dos aminoácidos. Então, usando estes como unidades, da formação das proteínas. Isto aumenta excepcionalmente a probabilidade, que, mesmo assim, continua extremamente pequena, mas não nula. Não há impedimento lógico nenhum para que tudo o que exista tenha surgido por acaso. A suposição de que tenha havido a interveniência de um agente inteligente extrínseco ao Universo é muito mais implausível do que considerar tudo como obra do acaso. A informação não é a essência do conteúdo do Universo, mas uma decorrência de sua estrutura. Nada “é” informação, mas “contém” informação. Quanto ao número de átomos do Universo, ele é extremamente menor do que o número de possíveis combinações de átomos para formar qualquer coisa.

  3. jonas disse:

    Caro Ernesto!
    Quanto a probabilidade da formação de uma proteína,só quiz poupa-lo quanto aos números,pois estava falando da montagem de uma proteína(pequena por sinal) com 150 aminoácidos,sendo que temos 20 aminoácidos diferentes para sua composição,então:20 na potência de 150.Continuo pasmo com a sua negação a razão e a lógica quanto ao ACASO ser “o motor” deste Universo,sabendo-se pela nossa experiência repetitiva e regular que infusão de nova informação sempre é regida por inteligência.Isto é de senso comum,só não admite quem não quizer!A”a informação não é essência de conteúdo do Universo…”provas-me isto como?É questão de semântica o “É” ou “contém”,pois entendestes bem o que eu queria dizer.O que precisas explicar é a informação(complexidade especificada)absurda que os seres vivos contém!PROCESSOS NATURAIS NÃO DIRECIONADOS NÃO PRODUZEM GRANDES QUANTIDADES DE INFORMAÇÃO(COMPLEXIDADE ESPECIFICADA).A inteligência é a melhor explicação ou inferência para a origem da infusão de informação em nosso planeta.Se um computador precisa de camadas hierarquicas informacionais para sua construção,como as células que tem muita mais complexidade especificada seriam formadas???Precisarás jogar fora duas coisas para atender as demandas da tua cosmovisão:A sua experiência repetida e uniforme e 2 a lógica.Quanto ao número de atomos foi para determinar ou “materializar” a grandeza deste número!Quanto as possíveis combinações estamos a falar de 1 proteína,e só no corpo humano temos por volta de 25000 a 30000 delas!Divirta-se com o acaso!Amigo,não jogue fora a sua razão para apaziguar o seu desejo de justiça.A punição da maldade só poderá ser exercida cabalmente,quando o SER que vê o fim desde o princípio exercitá-la ao SEU tempo,pois toda justiça humana é pífia quanto a sua extensão e entendimento.Deixo-te as palavras do Zoólogo francês Pierre G. Grassé,para notares até aonde se chega a devoção do “deus acaso” no ateísmo:”O acaso torna-se uma espécie de PROVIDÊNCIA que,sob a capa do ateísmo,não é identificado,mas é ADORADO SECRETAMENTE.”Abraços

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