Fé e crença

by @ 1:03 on 24 julho 2010. Filed under Ateísmo, Religião

Quanto à fé, esta difere de crença pelo seguinte:

Crença é a aceitação de assertivas não comprovadas nem evidentes face a sua plausibilidade e os indícios a seu favor. Por exemplo eu creio, sem provas, de que existe um mundo objetivo fora da minha mente. Eu creio que é possível se estabelecer uma convivência harmônica e fraterna entre os homens. Eu creio que é possível se fazer justiça na sociedade. Eu creio que é possível se chegar a um conhecimento sempre mais próximo da verdade de forma racional. Assim por diante…

Em meu blog escreví um texto sobre minhas crenças fundamentais:

http://wolfedler.blogspot.com/2008/11/meu-credo.html

A fé, por outro lado, é uma crença sem apoio em indícios que a suportem. Isto é meramente uma definição.

As religiões se fundamentam em uma fé e em uma doutrina em torno dessa fé, a partir da qual é erigida uma organização que envolve estruturas administrativas, pessoal, rituais, edificações e muito mais.

Existiram, existem e poderão vir a existir várias religiões na humanidade, algumas já extintas. Cada uma delas possui um conjunto de artigos de fé, professados pela coletividade que a segue. Tais artigos se referem, quase sempre, à relação do homem com a vida e a morte, bem como à existência e características de suas divindades e outros seres espirituais envolvidos. Não havendo nada de sobrenatural não se pode falar de religião, mas apenas de algum código de conduta ou ideologia política.

As afirmações que as diferentes religiões fazem a respeito desses assuntos são discordantes entre si. Em todas elas, contudo, há fiéis sinceros e piedosos, que crêem convictamente em seus artigos e pautam sua vida pelos preceitos prescritos por elas. Para eles sua crença é a verdade, sem a mínima hesitação.

Certamente que a verdade tem que ser unica. Logo não é possível que todas estejam certas ao mesmo tempo, mas apenas uma, ou nenhuma. Logo a fé não pode ser erigida como critério de verdade.

Há que se buscar, pois, a verdade a respeito desses assuntos em uma verificação fática de evidências comprobatórias ou em algum raciocínio lógico que permita tirar a conclusão a respeito, a partir de evidências indiretas.

No caso em tela, a questão é se existe ou não existe Deus.

Para precisar a questão há que se considerar o que se entende por Deus e que tipo de deus está por se verificar a existência.

Diferentes religiões conceituam seus deuses ou seu Deus de forma distinta. Contudo há um denominador comum a todos esses conceitos para que se possa denominar algo como sendo um deus.

O conceito de Deus se reporta a um ente, que, caso exista, seria um ser. Um ente é algo que pode existir objetiva e substancialmente, isto é, fora de mentes que o concebam, sendo feito de alguma coisa e possuindo propriedades que caracterizem sua essência, ou seja, que possam identificá-lo como sendo o que é e não outra coisa.

A essência de Deus é possuir as propriedades de onipotência, onipresença e onisciência. Muitas religiões também atribuem a Deus as propriedades de justiça, bondade e sabedoria, mas a ausência delas não deixaria de caracterizar tal ente como Deus.

A Deus é atribuída a criação do Universo, isto é, a causação do ato de levar o Universo da inexistência para a existência. A maioria das religiões também atribui a Deus o provimento continuado do Universo, ou seja, todas as ocorrências que se possam dar com qualquer constituinte do Universo seriam fruto da vontade, do consentimento e da iniciativa de Deus. Esta última concepção constitui o “teísmo”, enquanto a primeira apenas, o “deísmo”.

A substância de Deus, nessas duas concepções, não é física, isto é, Deus não é feito de matéria nem campos nem radiação, que são os constituintes físicos do Universo. Seria outro tipo de substância, denominado “espírito”, de que também seriam feitos a alma humana, os anjos e os demônios. Espírito é uma substância etérea, quer dizer, não possui massa nem outros atributos físicos, como volume e cor.

Posso admitir que quem crê aceita evidências para fundamentar sua fé. E posso também considerar fé como sinônimo de crença, mas não de confiança. Confiança vai além da fé, sendo a fé mesclada com a esperança, ou uma esperança com fé.

Na verdade, grande parte das discussões filosóficas é puramente semântica. Para evitarmos perder tempo discutindo o que entendemos pelo significado das palavras, vou aceitar que fé seja crença com ou sem evidências. O que discutiremos é se essas evidências existem ou não.

O que estou fazendo neste tópico é exatamente teologia natural, às vezes chamada de teodicéia (que também pode ser entendida como o estudo da coexistência do mal com Deus). O que pretendo demonstrar é exatamente que Craig não tem razão em seus argumentos. Conheço perfeitamente o argumento Kalam e refutá-lo-ei aqui.

Não contesto a existência de Jesus como personagem histórico, apenas a sua divindade.

Continuando minha última postagem digo, ao contrário de Anselmo de Cantuária, que a existência não faz parte da essência de Deus. Existência não é uma propriedade de nenhum ente, mas uma situação. Existir é a condição para que um ente não seja meramente conceitual, isto é, só exista em mentes que o concebam. Denomino ser ao ente que, de fato, existe fora das mentes. Tal situação é objeto de uma verificação, que é, exatamente, o propósito deste debate.

Isto derruba o denominado “Argumento Ontológico” para a existência de Deus, segundo o qual Deus necessariamente existe pois, se é um ser perfeitíssimo, não poderia não existir, pois isto seria uma imperfeição. Ou seja, é preciso que haja um ser perfeitíssimo uma vez que se pode conceber tal coisa. Ora, perfeição é uma qualidade dos atributos de um ser e existir não é um atributo. Logo não é necessário que exista um ser perfeitíssimo. Mas pode ser que exista. Veremos.

Não vejo porque ética, bondade, justiça e sabedoria requeiram uma fonte trans-humana para existir. Mas isto não é o objetivo da presente discussão. Em outro tópico poderei me estender sobre isto. Entrementes podem consultar este tópico de meu blog:

http://wolfedler.blogspot.com/2008/07/tica-e-atesmo.html

Vamos analisar o argumento cosmológico, da forma como o apresenta Craig.

Como já debati isto num tópico em outra comunidade, colocarei aquí o link para que todos possam consultá-lo e postar suas refutações a meus argumentos:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=102514309&tid=5477802754424329834&na=1&nst=1

Também, quero colocar o link de outro tópico em que apresentei minha minha defesa do ateísmo:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=341467&tid=5330550560386409943&kw=ate%C3%ADsmo

Por hoje vou encerrar, aguardando novas postagens para respondê-las.

Convido-os a visitar também meu outro blog:

http://www.ruckert.pro.br/blog/

Pode ser que Deus não seja constituído da mesma substância do que almas, anjos e demônios. De qualquer modo, tanto estes quanto Deus não são seres físicos. Se cada um deles possuir um tipo de substância (filosófica e não quimicamente falando), não vem ao caso, no presente (demônios seriam anjos, logo da mesma substância). O que estou dizendo é que Deus, sendo um ser, possui uma substância, certamente que não física. Não estou fisicalizando Deus. O que não é feito de nada não é um ser, mas um mero conceito. Concordo que a substância de Deus seja uma substância divina exclusiva dele, que a substância dos anjos e demônios seja de outro tipo e a da alma humana outro ainda. Nada feito de átomos. Meu entendimento é que nada disso existe realmente. São só concepções. Espero poder mostra isto.

Outra questão é a da transcendência de Deus. Há outra possibilidade: a imanência. O que vém a ser isto? Ser transcendente é estar além, ou seja, fora do domínio dos constituintes do Universo que são matéria, campo, radiação, espaço e tempo. Se os anjos e as almas não são transcendentes, como, de fato seria o caso, se existirem, então o Universo também possuiria uma outra categoria não física de substâncias: o espírito (de dois tipos). Um estudo interessante é o da natureza do espírito e suas interações com o mundo físico, o que Allan Kardec pretendeu desenvolver mas, no meu entendimento, só apresentou doxas, isto é, sua opinião a respeito, sem base alguma.

Imanência é a condição de algo fazer parte integrante de outra coisa, de modo indissociável. O panteísmo considera Deus como imanente ao Universo ou, em outras palavras, o Universo como uma emanação do próprio Deus e não algo extrínseco a ele. Isto, para mim, é mais implausível ainda e poderei discutir depois porque.

Ao Luciano, sobre fé e crença: A questão é apenas semântica, de relevância secundária. Posso aceitar que fé e crença sejam sinônimos nesta discussão, mesmo que considere que não o sejam. Para mim fé não é só crença religiosa, mas sim crença sem indícios de veracidade. O que estou me propondo a mostrar é exatamente que, no caso da existência de Deus, esses indícios não existem, muito pelo contrário, há-os em sentido oposto.

Sobre uma religião verdadeira: Eu não afirmei que nenhuma religião seja verdadeira mas sim que não podem ser todas verdadeiras, possivelmente nenhuma. Quem sabe a verdadeira ainda não foi criada? De fato eu acho que nenhuma seja verdadeira, mas no texto em não disse isto. Tal consideração é que passarei a discutir assim que terminar estas respostas.

Crença no futuro utópico: Certamente que isto é uma fé, se aceito que fé seja sinônimo de crença. Mas não é perigosa e nem ingênua, pelo contrário, é inteiramente possível, desejável, preferível e realizável, se se empreender um programa educativo, político e econônico para se chegar lá. Mas não é marxismo e nem um anarquismo revolucionário. É o comunismo anárquico ou, como prefiro denominar, comunitarismo.

Argumento ontológico: Claro que o argumento ontológico é apriorístico e o que eu disse é, justamente, que isto não tem cabimento. Não se pode dizer, de forma alguma, que seja necessária a existência de um ser perfeitíssimo apenas porque isto é concebível. O erro é exatamente ontológico, pois tal argumento supõe que a existência seja uma qualidade, quando não o é. Qualquer prova da existência de Deus só pode ser “a posteriori”, com base na verificação dos atributos essenciais de algum ser que se possa chamar de Deus.

Regimes materialistas: Os regimes políticos totalitários e tirânicos podem ser materialistas ou não. O comunismo prega o ateísmo bem como a “Ditadura do Proletariado”, como etapa transitória para o comunismo. Na prática o que houve nas nações comunistas foi uma “Ditadura do Partido Comunista”. Tal situação é execrável como também o são as ditaduras e regimes totalitários de qualquer nuance, sejam de esquerda ou de direita, ateus, cristãos, muçulmanos ou de que religião forem, como os regimes teocráticos do Irã, da Arábia Sudita e as monarquias absolutistas católicas da Espanha, no tempo da inquisição ou da França, no tempo das cruzadas. Seu caráter malévolo não provém de que crença professem quanto a Deus, mas da cassação das liberdades inerentes ao ser humano. O ateísmo não prega tal tipo de coisa, pelo contrário, tem um alto padrão de moralidade, inclusive por pautá-la na busca da maximização da felicidade para o maior número de seres e não em prêmios ou castigos pela conduta boa ou má.

Quando respondí ao questionamento do Márcio sobre a substância de Deus eu não estava dizendo nada sobre sua inexistência. Apenas afirmei que, mesmo que seja transcendente, Deus seria um ser e, portanto, constituído de alguma substância, que é aquilo de que é feito. Se não for um espírito então é alguma substância própria apenas de Deus, mas se não possuir algo de que seja feito não é um ser. Pode-se até dizer que a substância de Deus seja o próprio Deus, mas, ao que me parece, nem os teístas, nem os deístas nem os panteístas consideram que Deus seja apenas um conceito. Isto são os ateístas que consideram. Por outro lado, se se está discutindo a validade dos argumentos ateístas para a inexistência de Deus, é preciso que se considerem todos eles, tanto contra o teísmo quanto contra o deísmo e o panteísmo. Em nenhum lugar está dito que esta comunidade é teísta, mas sim que pretende apontar contradições na argumentação ateísta. E eu estou aqui para mostrar que não há contadições.

Examinarei o argumento de Platininga. A contestação que apresentei é de Kant e não de Hume.

No meu entendimento o fato de ser transcedental não significa que seja insubstancial. Não estou falando de substância química. Substância é aquilo de que um ser é feito e isto é algo que todo ser, como ente existente de fato, possui. Somente as entidades puramente conceituais não são feitas de coisa alguma. Certamente que Deus, existindo e sendo transcendente, não seria feito de nenhuma substância física e, como você o disse, nem de espírito, pois isto também seria algo criado por Deus. Posso conceber que a substância divina seja o próprio Deus, não pertencente a nenhum domínio natural nem espiritual. Mas não consigo conceber que um ser exista realmente, sem substância.

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