Provir do nada

by @ 17:37 on 30 julho 2010. Filed under Cosmologia

Como nada não é coisa alguma, não se pode provir do nada. Mas isto não significa que algo não possa surgir sem que seja proveniente de alguma coisa. Isto não é proibido e não significa “surgir do nada”, mas sim surgir sem ser de coisa nenhuma. Tanto sem procedência quanto sem causa e nem propósito. Assim é que deve ter ocorrido com o surgimento do conteúdo cujo súbito início de expansão consiste no Big Bang. Outra questão que precisa ficar clara é que o tempo atual começou no Big Bang. Portanto não existe “antes” do Big Bang. Mesmo que o conteúdo ali presente seja proveniente de uma contração prévia, aquilo era um outro Universo, com outro tempo. Este espaço e este tempo em que nos inserimos começou alí.

O Universo pode perfeitamente ter surgido sem provir de coisa alguma, sem causa, razão e propósito e é isto que realmente se deu. Não precisa ter fé para conceber isto, pelo contrário. Esta é a hipótese nula ou “default”. Considerar que houve um criador requer que se prove que houve. Sem prova nenhuma, então não houve: surgiu sozinho. Isto não significa “vir do nada”, pois nada não é algo de que se possa provir alguma coisa. Significa que não foi proveniente de nada, e não “proveniente do nada”, como se “nada” fosse algo.

Tudo o que somos e tudo o que é o Universo inteiro não precisa ter uma causa. Esta é a questão principal. Causa não é uma necessidade. O Universo surgiu sem ter causa. Miríades de fenômenos acontecem a todo momento, em todos os lugares, sem causa nenhuma. Decaimento radioativo, emissão de luz por átomos excitados, surgimento de par partícula-antipartícula e assim por diante. O surgimento do homem foi um processo gradativo, com causas em cada etapa, desde a primeira molécula replicante. Mas as causas são naturais. E não tem nada disso de que a causa tem que ser maior que o efeito. Não tem não. Porque teria? Nâo há lógica nenhuma em que tenha que ser, nem é fato coisa nenhuma. Pequenas causas podem produzir grandes efeitos e produzem.

A Teoria do Big Bang não diz nada sobre o surgimento do Universo. O que ela diz é que seu conteúdo, inicialmente condensado em uma altíssima densidade, começou a expandir-se. Como este conteúdo surgiu não se sabe nem há teoria nenhuma a respeito, apenas conjecturas. Considero que ele surgiu exatamente no momento em que começou a expandir-se. Surgiu sem ter do que fosse proveniente. Antes desse surgimento não havia coisa alguma, nem o conteúdo nem o espaço para contê-lo nem o tempo para evolver. Não é que “surgiu do nada”, pois nada não é algo do qual se pode gerar outra coisa. Nada é só uma palavra para indicar ausência de tudo. Não se pode surgir do nada, mas se pode surgir sem ter do que provir o que é diferente de provir do nada, pois “nada” não é nada que exista.

A evolução, tanto cósmica quanto biológica, não contraria as leis da Termodinâmica. Quanto à primeira, da conservação da energia, em nada a evolução a altera, se se considerar o total de massa-energia, convertidas uma na outra pela equação E=mc². Quanto à segunda, da não diminuição da entropia, ela se aplica a sistemas isolados e um sistema que evolui não o faz isoladamente. Sua entropia diminui às custas de um aumento maior ainda da entropia de sua vizinhança. Há mecanismos naturais para produzir redução localizada da entropia, como as interações cumulativas, como a gravidade. Uma flutuação aleatória de densidade num gás cósmico faz surgir um centro de atração que suga matéria da vizinhança até que se forme uma estrela e seus planetas, gerando um sistema mais ordenado que o gás. Mas a vizinhança se torna um gás mais desordenado. No caso biológico são as forças de Van der Walls e as pontes de hidrogênio que promovem esta agregação.

Um computador não é mais complexo que um homem que o tenha feito, mas, a princípio, poderia ser. O que há que impeça que o seja? Além disso, um computador é um artefato, isto é, algo produzido artificialmente. Um ser vivo não é. Ele surge a partir de alterações progressivas desde a primeira molécula replicante e isto vai fazendo com que a complexidade vá aumentando. Então cada ser, geralmente, é mais complexo do que o que lhe deu origem. Sem problemas, inclusive porque isto não é uma produção planejada.

Quanto ao Big Bang, primeiro que não foi uma explosão e sim um inchamento rápido do espaço. Explosão é uma ejeção de matéria para um espaço vazio pré-existente, com movimento próprio dessa matéria ejetada. No Big Bang a expansão não se deu para um espaço vazio fora do Universo, o que não existe, mas consistiu num crescimento do próprio espaço, afastando as partes umas das outras não porque movessem mas porque o espaço entre elas cresceu. Nisso não houve aumento da ordem, pelo contrário, pois, com maior espaço há mais possibilidades de posicionamento e movimento de cada parte, o que aumenta a entropia, que é o logarítimo da probabilidade macroscópica e esta está na razão inversa do número de possibilidades para a obtenção de um dado estado macroscópio, o que aumenta com a expansão.

A redução da entropia se deu por outros mecanismos, como a formação de estrelas e galáxias pela gravitação.

A probabilidade de se fazer o bolo por acaso, com a farinha e os ovos é extremamente pequena, mas pode ser calculada, só que dá trabalho e gasta tempo. Argumenta-se que, para que os átomos do nosso corpo, amontoados no chão, fossem chacoalhados e, por acaso, nos formassem, é tão pequena (mas não nula) que isto seria impossível. De fato, quase impossível. Mas não é assim que o acaso nos formou. Primeiro há que se calcular a probabilidade de formação de aminoácidos e de nucleotídeos nos oceanos e poças d’agua primitivas, que é grande. Depois, tomando tais moléculas como elementos do espaço amostral, calcular a probabilidade de formação de pequenas proteínas e pequenas cadeias de DNA, que também não é baixa. A probabilidade total é a probabilidade condicionada, que é muito maior do que a probabilidade direta de se formar a proteína átomo por átomo, pois é uma soma de probabilidades e não um produto. Se isto for feito cumulativamente, pode-se ver que a probabilidade, mesmo pequena, não é tanto assim. Ainda farei este cálculo numericamente.

Considere a análise combinatória. Dados três elementos que podem ocupar, cada um, três posições, o conjunto de possibilidades de ocupações dos três elementos é de seis possibilidades. Tudo o que for feito por arranjo ou combinação de elementos fica mais complexo do que os elementos individuais. E isto pode ser obtido pelo acaso. Quanto maior o número de elementos a participar e maior o número de possibilidades para cada um, maior ainda o de possibilidades para o grupo deles. A combinação e o arranjo geram aumento na complexidade, sempre. Não é preciso um agente inteligente para produzir isto. O acaso dá conta, como sempre dá de qualquer coisa. A evolução, que não é uma hipótese, mas um fato comprovado ao vivo e agora, com cepas de bactérias, exatamente gera complexidade a partir da simplicidade, pelo acaso.

Não há razão nenhuma para que exista algo ao invés de nada. Poderia perfeitamente não existir coisa alguma. A existência de tudo não tem razão, causa, propósito nem origem. É inteiramente fortuita. Nem é preciso que tivesse. O conteúdo do Universo, bem como o espaço que o contém e o tempo em que evolve (não existe espaço sem conteúdo nem tempo sem evolução), surgiram sem ter do que provir, sem nada que lhes causasse o surgimento e sem finalidade nenhuma para tal. Isto não significa “surgir do nada”, pois “nada” não é coisa alguma da qual algo pudesse provir. Causa também não é uma necessidade para todo evento, isto é, nem todo evento precisa ser efeito. A passagem do Universo da inexistência para a existência é um deles, além de miríades de outros que ocorrem a todo momento em todos os lugares, como a desintegração radioativa, a emissão de fótons por sistemas excitados (a excitação é condição e não causa – condição possibilita, causa determina) e a criação de pares de partícula e anti-partícula, por exemplo. Na origem do Universo houve o surgimento de um campo indiferenciado primordial, extremamente denso que, devido a quebras de simetria no início da expansão, provocou o surgimento de pares de partículas e antipartículas. Estas a todo momento se auto-aniquilavam, com a emissão de fótons (que não possuem anti-partículas, daí o seu papel essencial na formação do Universo) e novos pares surgiam. Algumas, contudo, decaiam antes de se aniquilarem, possuindo uma meia-vida diferente para a partícula e anti-partícula. Trata-se de uma assimetria Chiral, ligada à interação fraca. Tal diferença propiciou que um bilionésimo do total de partículas e anti-partículas do Universo primitivo não se aniquilou, formando a sobra de matéria em relação à anti-matéria que existe hoje. O que se aniquilou formou a radiação de fundo, atualmente na faixa de micro-ondas, que se desacoplou da matéria 377 mil anos após o Big Bang, ocorrido a 13 bilhões e 700 milhões da anos atrás.

A aniquilação da matéria com a anti-matéria produz fótons e não nada. Esses fótons carregam a energia da massa de repouso das partículas aniquiladas. Para a formação de par de partícula e anti-partícula, também é preciso que haja um campo de cuja energia provém a massa do par. Normalmente é um campo eletromagnético existente na vizinhança de alguma partícula, mas pode ser um campo existente no vácuo, mas não no vazio. Aliás não existe vazio no Universo, só vácuo ou espaço que contenha matéria. A diferença é que, no vácuo só não existe matéria, mas existe campo e radiação, enquanto o vazio não teria conteúdo nenhum, mas teria espaço. Já “nada” não tem nem espaço vazio. Atualmente as leis de conservação impedem o surgimento de algo sem ser proveniente de outro algo anterior, do qual obtém seu conteúdo energético e mássico. Na origem do Universo isto não prevalecia, porque toda lei física descreve (e não prescreve) o comportamento do que existe. Não existindo coisa alguma também não existe lei que diga como se comporta o que não existe. Então não é proibido o surgimento de algo sem que provenha de algo anterior, já que, inclusive, não havendo tempo, não há momento anterior, e as leis de conservação se aplicam a valores existentes em dois momentos distintos. Depois que passa a existir algo, tal conteúdo também traz consigo leis de comportamento e, então, o surgimento passa a precisar de uma origem. O surgimento do Universo é, pois, um evento singular, não mais passível de ocorrer, a não ser que tudo o que existe volte a se aniquilar totalmente e não exista mais nada, nem conteúdo, nem espaço, nem tempo. Pode acontecer…

Pode ser que o modelo que prevê o bóson de Higgs não seja o que descreve a realidade íntima da matéria ou então que a energia para se ver o bóson de Higgs ainda não foi alcançada. De qualquer modo, o fato de não se ter obtido o bóson de Higgs não significa que o surgimento do conteúdo do Universo tenha que ser atribuído à interveniência de alguma entidade extinseca a ele. Da mesma forma que para aceitar o modelo que prevê o bóson de Higgs se faz necessária uma comprovação observacional, também isto é requerido para a hipótese de ter sido o Universo criado e não surgido sem ter do que provir, sem causa e nem propósito. A cosmologia da teoria M, com suas branas e cordas está num estágio pior ainda de estabelecimento. O fato é que, se não se sabe como se deu o surgimento do conteúdo do Universo, assim como do espaço e do tempo, que começaram a se expandir com o Big Bang (teoria que não explica a orígem do conteúdo que expande), nada diz que a origem seja extra-natural. Só se pode dizer que ainda não se sabe. Ter surgido sem provir de nada é muito mais plausível do que ser obra de algum agente externo.

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3 Responses to “Provir do nada”

  1. simone maria disse:

    Primeiro, devo dizer que compartilho com suas idéias acerca da formação do universo, mas você há de convir que o jogo de palavras de que se utilizou para explicar (tudo, nada, algum, nenhum, etc.) jamais poderia ser utilizado em outro idioma para que surtisse o mesmo efeito. Imagine: all, nothing, something, anything, tout, tous, rien, quelques, auquine, quelque chose, alles, nichts, niemand, kein, niente, etc. A Flor do Lácio dos dá ferramentas para a arte de confundir, não é? Os outros acabam até concordando. (rss.)

  2. Ernesto disse:

    Deixe-me esclarecer e então se verá que não há confusão nenhuma.
    Consideremos uma primeira possibilidade:
    Existe algo denominado “nada” que não possui conteúdo de espécie alguma, nem espaço vazio para poder conter alguma coisa, mesmo que não contenha e nele o tempo não passaria. Tal entidade se transformaria em alguma coisa substancial e que ocuparia algum espaço e desenvolver-se-ia no tempo. Isto é o que se denomina “surgir do nada”, ficando entendido em tal proposição que “nada” é algum tipo de entidade.
    Agora outra possibilidade: Não existe nada que se possa denominar de “nada”. A ausência de conteúdo, de espaço e de tempo não é nenhuma entidade. “Nada” é apenas uma palavra para designar tal ausência, mas não é uma entidade. Como não há algo do que provir, o surgimento do espaço, do tempo e do conteúdo que neles se aloja e desenvolve ocorre sem ter do que provir. Não provém nem do “nada”, pois “nada” não é alguma coisa.
    A primeira possibilidade é uma impossibilidade, pois toda transformação é uma transformação de alguma coisa. Logo não há como “provir do nada” se no “nada” não tem nada.
    A segunda possibilidade pode ocorrer, pois não está havendo transformação de algo e sim um surgimento do que antes não existia. Isto não contraria nenhuma lei que descreva o comportamento da natureza, como as leis de conservação de massa e energia, pois tais leis não existem sem que haja algo que se comporte como elas descrevem.
    Se nada existia, também não haviam eventos, logo não há relação de causalidade entre o surgimento do Universo e algum evento que lhe preceda, pois isto não existe. Portanto o surgimento do Universo não tem causa, uma vez que causa é uma relação entre eventos.
    Tal surgimento, portanto, foi inteiramente fortuito e contingente, isto é, não houve necessidade alguma de que ocorresse. Portanto também se deu sem propósito algum. Assim o surgimento do Universo não tem causa nem propósito nem origem.

  3. jonas disse:

    Caro Ernesto!
    Não quero ser grosseiro e nem desrespeitoso contigo,mas concordo com a Simone Maria que há um “ar de embromeixon” em suas declarações.Não sei se conceituo como Paralogismo ou Raciocínio Falaz(depende da sua intenção)o artigo acima exposto.Voce fez malabarismo semântico para conceituar o “Nada” diferenciando-os apenas de um ser Entidade e o outro não, para que tudo viesse a forma.Este “surgimento do que antes não existia” está me “cheirando” a metafísica,e aí sim as implicações podem ser religiosas, pois como explicarias o “surgimento de tais Leis” que descrevem o comportamento da Natureza?Falas com tanta certeza que o Universo não tem causa e nem propósito e nem origem que me desafias a questiona-lo cientificamente para a corrobação de tais afirmações.Só para contrariar,cientistas estão há solapar uma das bases do pensamento da Física Quântica que é a Incerteza de Heisenberg através da memória quântica nos emaranhamentos quânticos(simultaniedade entre duas particulas separadas)podendo “medir” velocidade e momento conjuntamente.Percebes o quão débeis são as Teorias e Princípios quanto ao Cosmos alegando-se que os eventos nele ocorridos são fortuítos e aleatórios,e hoje falasse em “MEMÒRIA Quântica”.Para ter memória deve-se ter informação armazenada,e isto não é aleatório.A Informação é a essência do Cosmos e esta (informação) vem de um Ser que nós estamos longe de conhecer, pois passamos a vida com querelas e conceitos que nos afastam da essência da existência.Abraços

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