Argumentando contra o Craig

by @ 21:52 on 14 dezembro 2010. Filed under Cosmologia, Metafísica

Antes de prosseguir minha argumentação contra o Craig, quero comentar que eu concordei com você, desde o princípio, de que a entropia do Universo está aumentando, portanto não entendo sua insistência neste ponto. Só continuo afirmando que isto não implica em que o Universo não possa ter sempre existido. Eu sei que ele teve um começo. A questão é que a segunda lei da termodinãmica não impede que ele possa não ter tido um começo. Não falo mais nisso.

É claro que a reta se estende infinitamente nos dois sentidos (não necessariamente na horizontal, pois isto é uma orientação puramente local, na superfície de um planeta). Não mencionei isto por fazer parte do próprio conceito de reta. A questão toda é que, se os momentos do tempo podem ser coordenatizados por uma aplicação bijetora sobre os pontos de uma reta, então não há um começo dos tempos, nem infinitamente deslocado para o passado. Se os momentos forem coordenatizados por uma aplicação bijetora sobre um semireta, então haverá um momento inicial dos tempos. O que as observações cosmológicas dizem é que, de fato, como o Craig expõe muito bem, houve este momento, no Big Bang, que se sabe ter ocorrido há 13,7 bilhões de anos atrás.

O argumento Kalam mostra que o Universo não pode ter existido para sempre porque, se assim o fosse, seu início estaria infinitamente afastado do presente e, então, o presente não existiria. Esta hipótese, nem hipoteticamente, pode ser considerada. Não há como se deslocar um momento infinitamente para o passado. Acontece que considerar que o Universo sempre existiu não é isto. Este é o erro do argumento. É considerar que não existiu início nenhum. Assim não se tem que imaginar nenhum momento infinitamente afastado do presente para dizer que, desde ele até hoje, se teria que esperar um tempo infinito. Não há origem dos tempos, não há início do Universo nesta concepção. Então o argumento Kalam não se aplica, pois baseia-se numa suposição incorreta. Não é por causa dele, também, que o Universo teve um início.

A segunda premissa do silogismo do Craig está, pois bem assentada, não por causa do argumento Kalam e nem por causa da Segunda Lei da Termodinâmica, mas sim por causa das observções cosmológicas.

Vamos analisar a primeira premissa: “Tudo o que começa a existir tem uma causa”.

Para começar é preciso entender que causa e efeito são propriedades de eventos e não de seres. A causa em tela é do evento da passagem da inexistência para a existência.
É claro que algo que sempre existiu não sofreu passagem da inexistência para a existência, portanto sua existência não tem causa.

Considera-se que todo evento seja efeito de alguma causa. Não é verdade. É claro que todo efeito tem uma causa, pois efeito é o evento que tem causa, mas nem todo evento é um efeito. Há eventos incausados, fortúitos ou aleatórios. Na verdade são a maioria, se se considerar os de nível atômico e subatômico. Ocorrem aos miríades a todo momento e em todos os lugares. Para sua ocorrência é preciso que certas condições estejam presentes, mas condição não é causa. Condição possibilita, causa determina. Três deles sobressaem: o decaimento radioativo, a emissão de fótons e a produção de pares. Uma partícula atômica pode decair radioativamente em outras, como um núcleo em outro, com emissão de partículas alfa, um nêutron em próton, com emissão de elétron e antineutrino (decaimento beta) ou, ainda, raios gama, por núcleos em estado excitado de energia. A excitação é uma condição e não causa da emissão. Esta ocorre de modo fortuíto, ou não ocorre, Não há como se determinar se e quando vai ocorrer. A única informação disponível é a distribuição de decaientos com o tempo para uma dada população excitada, o que permite determinar a meia vida e a vida média. Na emissão de fótons ocorre o mesmo. O átomo, molécula ou outra estrutura absorve energia, excitando seus elétrons em níveis superiores de energia, que podem decair com emissão de fótons ao fim de um tempo indeterminado, sem que nada provoque o decaimento, que pode, até, não ocorrer.

A questão do tempo se prende a saber se ele é contínuo ou quantizado. Pela Física Clássica, pela Relatividade Geral, pela Mecânica Quântica e pela Teoria de Campos, o tempo e o espaço são contínuos. Pela teoria do Loop Gratitacional e pela Teoria M (das sopercordas e das branas) eles são quantizados. Não há evidências empíricas de sua quantização e essas últimas teorias ainda não são teorias, mas hipóteses não confirmadas, em estudo. Logo, por enquanto, temos que supor que são contínuos. Se fossem quantizados, isto é, enumeráveis, um intervalo finito de tempo teria um número finito de momentos (instantes). Sendo contínuo, qualquer intervalo possui um número infinito de instantes. Portanto, não há diferença, em termos de número de instantes, entre um início dos tempos num passado finito ou infinito. De lá até agora sempre vai haver um número infinito de instantes, até mesmo num piscar de olho.

Não é verdade que todos os seres materiais do Universo surgiram no Big Bang. Nem os átomos de que eles são feitos. No Big Bang só surgiram o Hidrogênio e o Hélio. Todos os demais elementos químicos foram feitos no interior das estrelas (até o Ferro) e nas explosões de Supernova (depois do Ferro). Você mesmo não foi feito no Big Bang, nem os átomos que o constituem. Um ser não é apenas o seu conteúdo. Eu não sou o conjunto dos meus átomos, mas este conjunto, de certa forma estruturado (cada átomo no seu lugar) e “funcionando” de certa maneira. Quando eu acabar de morrer, antes de apodrecer, meus átomos estarão no mesmo lugar, mas eu não existo mais, pois meu organismo não está funcionando. Tem mais: Um ser não algo que “seja”, mas algo que “esteja sendo” em sua continuidade histórica no tempo. Você mesmo não é feito dos mesmos átomos com que nasceu. 98% dos átomos do corpo são substituídos todo ano. Mas você continua sendo você mesmo pela continuidade histórica.

Quanto às interpretaçõe deterministas da Mecãnica Quântica, como as de Bohm, Everett e Cramer, apresentam muitos problemas de aderência aos resultados experimentais, além de serem completamente infalseáveis. A de muitos mundos, por exemplo é algo que beira à ficção.

Considerar que a não identificação de uma causa para os eventos incausados requer a suposição de que ela exista, mas não se achou ainda qual, não procede, pois ela pode até existir, mas não é preciso que exista. Este é o ponto principal que vou trabalhar na próxima postagem. Só quero comentar que incausalidade e indeterminismo são fatos diferentes. O primeiro diz que não é preciso que um evento tenha causa (mas pode ter) e o segundo diz que a mesma causa, nem sempre produz o mesmo efeito.

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