A questão da causalidade

by @ 12:23 on 29 junho 2011. Filed under Cosmologia, Metafísica

O ponto principal da argumentação que se desenvolve aqui é se o Universo pode ter dado surgimento a si mesmo ou se requereu a interveniência de um agente extrínseco a ele para tal. Um hipótese é de que ele sempre existiu e, assim, não surgiu nem foi criado. Não há argumento lógico nem ontológico contra isso, apenas fenomenológico. O chamado “argumento Kalam” é falacioso. A questão toda se resume em considerar se todo evento seja efeito de uma causa ou possa não ser. Note que um ser não tem causa. O que pode ter causa é o evento de sua passagem da inexistência para a existência. Não há nada que exija que tenha. Tal consideração advém da observação das ocorrências no nível de percepção direta dos sentidos humanos, que é macroscópico. Nesse nível os eventos são efeitos de causas. A aleatoriedade decorre não da falta de causa, mas da complexidade dos fatores que interferem, como no lance de dados, cujo controle é praticamente impossível, mas teoricamente admissível. Assim, por um raciocínio indutivo, se extende a todos os eventos a conclusão de que sejam efeito de alguma causa, mesmo que desconhecida. No entanto a indução nunca é garantida, sendo derrubada por um único contra-exemplo. De fato, no nível microscópico, há eventos incausados. Cito três: a emissão de fótons por átomos excitados, o decaimento radioativo e a criação de pares. Todos eles se dão sob certas condições, como a excitação ou a instabilidade. Mas condição não é causa. Condição possibilita, causa determina. Um átomo só emite fóton se excitado, mas excitado pode emití-lo ou não de forma inteiramente fortuita, sem nada que o determine. Da mesma forma os outros fenômenos citados. Dizer que há causas desconhecidas não procede, pois significa que se está, aprioristicamente, considerando a necessidade de causa, o que se está pretendendo verificar. Assim cai por terra a grande premissa do argumento Kalam e do argumento cosmológico, já que nem todo evento precisa ter causa.

O Big Bang não teve causa nenhuma. Não é necessário que eventos tenham causa. Podem ter ou não ter. Muitos têm e muitos não têm. O Universo pode e certamente surgiu sem motivo, sem propósito e sem ter do que provir. Ele não surgiu “do nada”, porque “nada” não é coisa alguma. Ele surgiu “de nada”. Porque isto não seria possível? Não havendo nada, não há regra nenhuma que descreva o comportamento de coisa alguma. Não há leis de conservação. Então não há proibição de que algo surja sem ter do que provir. Uma vez que haja algo, então o que existe se comporta de acordo com certas características que são sumarizadas pelas “leis” naturais, dentre elas as de conservação. Mas só depois de existir algo. Quanto à causa, mesmo já existindo algo as ocorrências que se dão não precisam ter causa. Podem ser fortuitas, como o decaimento radioativo e a emissão de fótons por átomos excitados. A excitação é condição e não causa. Não é preciso avocar nenhuma entidade pré-existente, extrínseca ao Universo, para lhe promover o surgimento.

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