Ateísmo, ceticismo e niilismo

by @ 12:24 on 29 junho 2011. Filed under Ateísmo

Ateu, por definição, é a pessoa que considera que não existam deuses de espécie alguma.
Cético é a pessoa que não acredita em nada sem comprovação ou, pelo menos, fortes indícios de credibilidade. Um cético ortodoxo em seu ceticismo, em verdade, não crê. Ele sabe, com garantia, ou não sabe. Mas é impossível viver sem alguma crença, desde que com uma base grande de plausibilidade e de forma provisória. Por exemplo, não é garantido que exista um mundo externo à nossa mente. Mas acreditamos que sim.
Os conceitos são distintos, de modo que é possível ser ateu sem ser cético, bem como ser cético sem ser ateu.
Apesar disso, há uma forte correlação entre as duas posturas. A maioria dos ateus é cética e vice-versa.
A descrença em deuses, normalmente (mas nem sempre), advém do ceticismo, pois eles não possuem evidências nem provas de sua existência.
Da mesma forma, quase todo ateu não acredita em espíritos e elementais de qualquer tipo, nem em superstições, crendices e pseudociências.
Também não acredita em teorias de conspiração, parapsicologia, contatos com extraterrestres e coisas do tipo.
Isto porque, geralmente, é cético e tais fatos não têm comprovação objetiva nenhuma.
Mas, se o ateu não for cético, pode acreditar. Tais casos existem.

Existe um ceticismo filosófico, o pirrônico, que não admite a possibilidade de se conhecer a verdade e existe um ceticismo metodológico, que, mesmo admitindo que se possa conhecer a verdade, sempre coloca alguma dúvida sobre o fato de se já a ter alcançado ou não. Este último ceticismo é o que alavanca a ciência a sempre perseguir a busca da verdade, mesmo sem ter a certeza de já a ter obtido e estando sempre disposta a rever qualquer proposição, em razão de novas informações. Isto não é dogmatismo cienticifista, mas uma postura sensata e madura, pois não se pode garantir que se já tenha obtido a verdade, mas apenas que se tem a melhor aproximação da verdade, face os conhecimentos disponíveis.

Existe o ateísmo forte ou dogmático, que considera que a inexistência de deuses é um fato inconteste e o ateísmo fraco ou cético que considera que não há provas de que existam quaisquer deuses, logo, como eles não são evidentes, é melhor considerar que não existem, mas que se dispõe a aceitar sua existência, caso comprovada. A maioria dos ateus que conheço, como eu, enquadra-se nesta última posição. O agnosticismo, por sua vez, considera que é impossível provar se existe ou não algum deus, ficando a escolha por conta do palpíte.

Muitos confundem o niilismo com o ateísmo. A razão é que colocam o fundamento da moral na pretensa revelação divina que, não existindo, autorizaria automaticamente qualquer comportamento. Isto é falso. O fundamento da moral deve ser a ética. Enquanto a moral é uma disciplina prescritiva, a ética é filosófica e investiga as razões para que qualquer ação tenha algum balizamento. Ética não tem nada a ver com nenhuma revelação divina. Seus fundamentos estão no fato do homem ser um animal social e o bem estar da sociedade requerer que cada um de seus membros tenha uma conduta que não seja prejudicial à coletividade e, em decorrência a cada um de seus membros.
Em verdade há três critérios éticos norteadores da moral: o deontológico, o teleológico e o da reciprocidade. Pelo primeiro, toda ação só é lícita se puder ser erigida como prescrição universal, pelo segundo, se promover a maximização do bem estar para o maior número de seres e pelo terceiro se for aquilo que se deseja para si mesmo. Uma síntese trialética delas pode ser feita pela aplicação da razão e do bom senso na análise da moralidade de cada ato. Isto não tem nada a ver com a existência ou não de deuses.
Assim, o ateísmo não implica no niilismo, pois a vida em sociedade impõe a todos uma conduta ética, creiam ou não em deuses. Além disso, a axiologia, ou a consideração dos valores e das virtudes, é algo válido por si mesmo, sem apelo a nenhuma revelação, mas sim uma questão a ser considerada pela razão.
O niilismo, pois, não encontra justificativa, mesmo sabendo que não existem deuses.

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