Ateísmo é apenas a negação de algo

by @ 23:17 on 11 setembro 2011. Filed under Ateísmo

A ética não é de origem divina. Ela advém do fato de sermos gregários e de que, como membros do organismo social, não podemos agir de forma a prejudicá-lo. É daí que vêm os princípios norteadores da ética e que a moral precisa seguir, mas nem sempre o faz. Ateus não são necessariamente niilistas. E, podem crer, existem ateus sim.
Quanto a dizer que negar a Deus é admitir sua existência, afirmo que é uma tolice. Nego a existência de unicórnios e nem por isso eles existem.
Sobre Espinosa, concordo e discordo. Vejamos. Para começar é um dos meus filósofos prediletos. De fato, como ele disse, a própria natureza é a fonte de si mesma. Não há causa extrínseca ao Universo para ele. Mas o evento de sua passagem da inexistência para a existência não foi produzido por ele mesmo, pois não existia. Trata-se de um evento incausado. Isto é perfeitamente normal e existem miríades deles a todo momento. Incausalidade e indeterminismo são características fundamentais da natureza. Não a sua necessidade, mas a sua possibilidade. Minha principal objeção a Espinosa, contudo, está em sua consideração de que a própria natureza, isto é, o Universo, seja Deus. O conceito de Deus, quer como entidade transcendente quer como imanente, envolve a consideração de que possua faculdades como sensibilidade, inteligência, vontade e poder de ação. Ora, o Universo não pensa, não possui uma mente. Todas as ocorrências que se dão com ele não possuem motivo e nem propósito algum. Não há nenhum plano, não há objetivo. Tudo vai acontecendo por acaso, devido às coincidências. Isto não caracteriza Deus nenhum. Deus não existe nem como transcendente nem como imanente.
A consideração de que exista algo, mesmo que não seja um Deus, isto é, que não tenha consciência, mas que tenha poder pode ser admitida. Mas esse poder não é dirigido para nada. Trata-se apenas da capacidade de operar. Isto não precisa ser considerado como atributo de nada senão da própria natureza.
Outro ponto é sobre o conceito de “Energia”. Muitos consideram que “Energia” seria algo com poder para provocar as ocorrências do Universo em razão de algum plano ou propósito. Energia, em verdade, é apenas um atributo dos sistemas físicos que os capacita a realizar trabalhos de alteração do estado do Universo. Por estado se entende o modo como o Universo está, tanto em termos de sua configuração como dos processos que estão se dando e das tendências de alteração desses processos. Isto envolve desde a expansão cósmica até os pensamentos e emoções humanas. Pois bem, toda alteração no estado do Universo só se dá com transferência ou transformação de energia. É o combustível de seu funcionamento. Para que haja isto é preciso que sub-sistemas do Universo possuam níveis diferentes de energia e, em interação, permitam essa troca entre eles. Ao fim da troca o total de energia permanece, mas sua distribuição se altera, caracterizando um novo estado. Uma grandeza, a entropia, mede essa alteração e indica o sentido do tempo. A morte térmica do Universo é a chegada ao estado em que todos os subsistemas tenham atingido seu nível mínimo de energia, impossibilitando as trocas. Então a entropia terá atingido seu valor máximo, nada mais acontece, nem a expansão e o tempo pára de passar. Mas a energia não tem poder de induzir as ocorrências. Elas se dão pelas interações, que são fortuitas, acontecendo em virtude das mudanças de configurações (posições relativas). O mais interessante nisso tudo é que o indeterminismo não permite prever a consequência de cada situação, mesmo que as condições sejam conhecidas. Então a evolução do estado do Universo é algo imprevisível. Destino não existe. Daí é que vém o livre arbítrio, isto é, a liberdade de escolha. O determinismo só existe nos fenômenos macroscópicos, em razão da convergência probabilística dos eventos compostos por muitos outros elementares.

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