AMOR E AMIZADE

by @ 12:20 on 9 março 2012. Filed under Relacionamentos, Sexualidade

Não existe uma distinção precisa entre amor e amizade. Passa-se de modo contínuo de uma amizade, eu diria, asséptica para uma amizade amorosa, para um amor romântico e para um amor erótico, sem rupturas bruscas. Cada uma dessas situações engloba as anteriores. Isso pode acontecer entre pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes. Como sou heterossexual, só vou considerar esse caso. Mas, tanto entre heterossexuais quanto entre homossexuais, pode haver o que eu chamei de amizade asséptica, isto é, que não envolve contato físico, tanto entre pessoas do mesmo sexo quanto de sexos opostos. Essa amizade se caracteriza por uma convergência de interesses, de concepções de mundo, por uma admiração recíproca, pela curtição da companhia, da conversa, de atividades conjuntas e coisas assim. Mas não envolve uma emoção romântica, o desejo de toque.

A amizade amorosa vai um pouco além por envolver um querer bem, um desejo da felicidade do(a) amigo(a), um cuidado com ele(a), uma dedicação maior a atender os seus desejos, mas, ainda, sem o romantismo amoroso. O amor romântico, além disso, é muito emocional e envolve uma ternura especial pela pessoa amada, um desejo de contato físico, mesmo sem sexo, ou seja, beijos, abraços e carinhos, com o contato da pele. E provoca palpitação cardíaca, sudorese, bambeira nas pernas, suspiros, saudade intensa e tristeza pela privação da companhia. Em suma, é o namoro. Nada há nessa atitude que exclua a amizade como admiração e curtição da companhia, do prazer de fazer coisas junto. Não é preciso que os namorados estejam o tempo todo namorando. Também podem estar fazendo outras coisas e, sendo namorados, com muito mais prazer ainda.

Finalmente temos o amor erótico, que envolver o contato sexual. Certamente que incluindo tudo o mais. Não é o sexo apenas pelo sexo. Isso pode haver também, mas não é o caso que eu estou considerando. Estou considerando o sexo no contexto do amor. Assim, cada um quer dar ao outro o máximo prazer sexual e se esmera para agradar o(a) amado(a) antes de si mesmo. Fazendo do sexo uma doação, por incrível que pareça, mais prazer ainda se consegue fruir dele. E, novamente, não há porque, então, quando acontece o sexo, a amizade ser excluída. Nesse estágio é que se atinge a máxima beatitude amorosa: sexo, romance e amizade. Nada há de mais ditoso na vida. Realizar-se plenamente no amor é o maior fator de felicidade que pode haver.

Mas é preciso um grande cuidado em não deixar acontecer o sentimento de posse. Uma condição essencial para o verdadeiro amor é que ele tem que ser inteiramente livre. Jamais existe amor por coação. Não se pode exigir reciprocidade no amor. Não se pode cobrar nada. Tem-se que deixar o(a) amado(a) livre para nos amar ou não. E, mesmo, para amar outros, além de nós. Ciúme é o carrasco do amor. Só existe amor livre. Qualquer coisa que condicione o amor faz com que ele deixe de ser amor.

A questão é que muitos temem perder a amizade quando ela se transforma em amor. Porque a amizade não tolhe o amigo ou a amiga em nada. Não lhe restringe ter outros amigos, não lhe controla as idas e vindas e nem com o que se ocupa nas horas do dia. Não fiscaliza, não faz cobranças. Dedica-se ao amigo ou amiga com alegria. Se fica-se um bom tempo sem se ver, alegra-se no reencontro, sem reclamar de nada. A amizade é totalmente altruísta. Por isso, de certa forma, a amizade é mais valiosa e muitos temem perdê-la ao se transformar em amor. Mas é porque têm uma visão completamente equivocada do amor. Porque consideram o amor como uma posse. Ninguém é de ninguém. Não se pode possuir outra pessoa. É preciso amar de forma tão altruísta como se é amigo. Concedendo toda a liberdade. Não cobrando nada. Não ficando magoado e emburrado se não se tem reciprocidade em algo. Assim amando jamais se perderá a amizade. Jamais haverá motivo para brigas. O contentamento de um vem do contentamento do outro. É uma concepção assim livre, totalmente livre, do amor que é capaz de levar os amados amantes aos sentimentos mais etéreos, ao enlevo mais sublime, aos êxtases mais paradisíacos.

Viver amando dessa forma é ter o céu na terra. Com a máxima alegria, amizade, cumplicidade, companheirismo, afeição, ternura, desejo, prazer, deleite, êxtase… Mas sem servilismo, juntidade compulsória, castração da personalidade individual. Sem promessas, sem juras, sem compromisso de exclusividade e nem perenidade. O compromisso é de dedicação, apoio, bem querer, consolo, doação de prazer, de carinho, de tempo, de interesse e, mesmo, de compartilhamento de responsabilidades da vida. Isso não exclui, de forma nenhuma, uma grande e profunda amizade, uma admiração e um respeito imensos. Isso é viver a vida com sabedoria. Feliz de quem ama o seu ou a sua melhor amiga.

Mas esse compromisso não é uma obrigação e sim um desejo, fruto do bem querer. É um compromisso livre e pessoal, não sendo objeto de cobrança nenhuma. Não se pode, num amor verdadeiro, exigir nada do amado ou da amada. Nem de si mesmo. Exceto coerência e fidelidade ao amor. Isto não significa a noção de fidelidade que se tem, que é a de exclusividade amorosa. O verdadeiro amor se abre para a possibilidade de ser compartilhado de modo franco e honesto. Não necessariamente, é claro. Quando digo fidelidade ao amor estou dizendo ao sentimento. Isto significa que se ama com o coração, a mente, a vontade, o corpo, as palavras, os gestos, as intenções e as ações. Tudo de forma coerente e harmônica, sem dissimulações, sem estratagemas, sem máscaras, se artimanhas. Com toda a sinceridade, todo o empenho, toda a ternura e toda a abnegação. Mas também toda a sensualidade, a paixão, o desejo, a volúpia e o tesão.

Para viver um amor assim não é preciso vínculo formal de espécie alguma. Nem contratos nem alianças. Não que tais coisas sejam necessariamente excluídas, mas que não têm significado nenhum. Não é preciso que se more junto, mesmo que o possa. Tudo pode, mas nada é necessário. O que é verdadeiro não precisa de atestado, de rótulo. Amigos não têm contrato de amizade. Assim amantes amigos também não o precisam. Aí que está o seu grande valor. Porque é uma relação que vem das profundezas, do âmago do ser. Que transcende as convenções sociais, que é maior que a lei, maior que o credo, maior que a vida, pois é a razão da própria vida. Isso é amor e é a coisa mais linda que se possa vivenciar. Pobre de quem não vive um amor assim e miserável de quem, o tendo alcançado, abandona-o pelas conveniências de qualquer ordem.

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