O SIGNIFICADO DA VIDA

by @ 1:40 on 11 março 2012. Filed under Comportamento, Educação, Psicologia, Relacionamentos

Mesmo considerando que tudo o que existe existe por acaso e que não há razão nem propósito nenhum para o Universo nem para nossa vida, o fato de possuirmos consciência nos pede encontrar um significado para esta existência, de modo que nossa mente não se desespere. Esse significado nós mesmos podemos dar à nossa vida, independentemente de qualquer coisa externa a ela. Para ver como, vamos analisar os diversos aspectos da vida humana, em uma progressão hierárquica a partir do mais básico até o mais elevado.

Para começar há o aspecto orgânico ou biológico da vida, isto é, a nossa saúde. Há que se cuidar dela com desvelo para que todos os demais aspectos da vida possam desabrochar. Isso é muito sério. Além de providenciar o tratamento de toda doença que aparecer, o cuidado da saúde envolve hábitos de boa alimentação e exercícios físicos, que garantam um bom desempenho orgânico. Certamente isso inclui a abstenção do fumo e das drogas e a moderação no consumo de álcool, gorduras saturadas, aminoácidos refinados e outras coisas prejudiciais à saúde. Mas este não é o tema deste artigo, de modo que pararei por aqui.

Para a manutenção da vida, todo adulto precisa ter uma atividade profissional. Nela ele não apenas obtém recursos para prover-se de tudo o que necessita mas, principalmente, participa da construção da sociedade e da teia produtiva que garante o bem estar de todos. A atividade estudantil nada mais é do que uma preparação, tanto para a vida profissional quanto para os demais aspectos que serão elencados, mas vou considerá-la como um tipo de atividade profissional. Aí se enquadra a importante questão da escolha da profissão. Quem a faz pensando no que lhe dará mais dinheiro pode cometer um terrível engano. Escolher uma profissão errada é pior do que escolher um cônjuge errado, pois é mais fácil trocar de mulher ou de marido do que de profissão. O investimento no preparo profissional é longo e dispendioso. Não se pode dar ao luxo de errar. E, considerando que a profissão será algo a que se dedicará uma expressiva fração do tempo de vida, passar esse tempo aborrecido por não estar se fazendo o que se gosta é uma grande fonte de infelicidade. Ao escolher a profissão tem-se que pensar naquilo que dará prazer e satisfação em ser feito, mesmo que dê menos dinheiro. Realizar-se profissionalmente, especialmente quanto a considerar que se está dando uma contribuição valiosa à sociedade é um dos fatores que pode dar significado à vida.

O terceiro aspecto é o econômico, que, de certa forma, deriva do segundo,  já que a profissão tem como um dos objetivos ganhar dinheiro. E o dinheiro é uma das formas de se obter bens. Economia é a ciência da produção e distribuição dos bens, isto é, de tudo que  se precisa ou se deseja para conduzir a vida de modo satisfatório. Obtém-se um bem de seis possíveis maneiras: pegando, trocando, fazendo, ganhando, comprando ou roubando. Muitos economistas só consideram o processo de compra e venda. Mas pessoas muito pobres só conseguem sobreviver porque ganham, pegam, fazem, trocam muitos bens de que necessitam, já que não têm dinheiro para comprar e estou desconsiderando o roubo, por ser uma forma ilegítima de obtenção de bens. Para viver uma vida significativa é preciso que se tenha condições econômicas para não se passar necessidades. Mas não se precisa ser rico. Basta que se tenha o necessário e um pouco mais para o supérfluo, que dê prazer e alegria ao ato de viver.

Uma das finalidades da boa condição econômica é a possibilidade da realização do aspecto pessoal da vida. Esse consiste na satisfação dos desejos individuais. De se poder fazer o que se gosta, por puro lazer, sem compromisso profissional ou de outra ordem. É curtir os hobbies, praticar esportes, jogos, atividades culturais, ler, ouvir e tocar música, assistir teatro e cinema, navegar na internet, dedicar-se a coleções e tudo o que, pessoalmente, seja agradável. Grande parte das sobras da economia são voltadas para esse aspecto e a sua realização é um grande fator de alegria e felicidade, que dá significado à vida.

Outro aspecto importantíssimo é o familiar. Os laços de família são preciosíssimos. Nas maiores vicissitudes, são nossos parentes os únicos que nos socorrem e apoiam. Que nos acompanham aos hospitais em nossas doenças, que nos emprestam ou nos dão dinheiro em nossas dificuldades, que nos abrigam caso sejamos despejados e coisas assim. Ter uma família unida e solidária é uma grande bênção para qualquer um. Isso precisa ser cultivado para que sintamos que nossa vida seja significativa.

Além da família, nossos laços interpessoais se estendem à sociedade. São os nossos colegas de estudo ou de trabalho, nossos companheiros de clube ou de igreja e, principalmente, nossos amigos. Uma vida sem amigos dificilmente será significativa. Amigos são os que compartilham nossos interesses, nossas conversas, que fazem muitas coisas conosco, que nos visitam, curtem a nossa companhia em passeios e muito mais. Também nos consolam, são nossos confidentes, nos apoiam, alegram-se com nossas vitórias e choram nossas derrotas. São essenciais à nossa vida. Mas o aspecto social da vida vai além. Também se realiza em nossas atividades comunitárias, filantrópicas, políticas e todas as que fazemos coletivamente, como participar de grupos musicais, esportivos, religiosos ou de qualquer outra ordem. Estar integrado à sociedade é outro aspecto que dá significado à vida.

Mais importante, contudo, é o aspecto sentimental. Ninguém é feliz sem ter um amor. Há vários tipos de amor. Philia é a amizade, o amor com reciprocidade mas sem envolvimento sexual. Eros é o amor que inclui, além da amizade, o desejo carnal, mesmo que não realizado. Note-se que eros não é só desejo sexual. É esse desejo acompanhado de amor, isto é, de admiração, de ternura, de carinho, de cumplicidade, de companheirismo, de bem querer, de apoio e ajuda, de compartilhamento de responsabilidades. Se não for realizado fisicamente tem-se o amor platônico, mas, quando realizado físicamente é a maior beatitude que se pode viver. Mas é preciso que, no amor, o sexo seja uma doação. Quando assim se dá, mais prazer ainda se frui desse conúbio. E eros é um amor altruísta. Não envolve sentimento de posse nem de dominação. O(a) amante concede a(o) amado(a) toda a liberdade e não exige nada em troca. Certamente que se deseja a reciprocidade, mas isso não pode ser cobrado nem exigido, jamais. Senão não é amor, é egoísmo. Pathos é a paixão. Paixão é um amor irracional, que não se pode controlar nem evitar. É maravilhoso se estar apaixonado, mas é algo completamente louco. Não se escolhe por quem se fica apaixonado, mas a paixão absorve todas as energias, todo o tempo, todos os pensamentos. É uma obsessão. Normalmente a paixão se arrefece e transforma-se em amor.

Agape é o amor espiritual, que se tem a alguém sem querer nem reciprocidade. É altruísta e deseja o bem do amado. Mas não envolve desejo carnal. Charitas é semelhante ao ágape, mas não direcionado especificamente a ninguém e sim genericamente a todo mundo. Pragma é o amor interesseiro, que se tem pensando em alguma recompensa, como pessoas que se casam por causa da boa situação financeira do cônjuge. É um amor de baixa categoria. E, finalmente, Storge é o amor familiar, entre pai e filho, irmão e irmão ou irmã. Não envolve desejo sexual e nem recompensa. Mas não requer amizade.

Normalmente pode se ter mais de um tipo de amor por alguma pessoa. A máxima realização amorosa acontece com alguém por quem se tem eros, philia, agape, storge e phatos, isto é, quando a pessoa é amante, amiga, irmã e paixão. Quando se acha alguém assim na vida pode-se dizer que se encontrou a felicidade e o significado da vida. Nada é mais positivo do que isso. Mas tal situação não é fácil acontecer. É um brinde da vida que não se pode perder, mesmo que se sacrifique outros tipos de realização, como a profissional, a econômica, a pessoal ou a social.

Quero comentar que um aspecto da realização amorosa é que, diferentemente do que se supõe, ela pode se dar de forma plena, intensa, sincera e honesta por mais de uma outra pessoa. A biunivocidade amorosa não é uma necessidade na biologia nem no psiquismo humano. Pode-se, perfeitamente, amar-se, e muito, a mais de uma pessoa ao mesmo tempo. E o encerramento de uma relação amorosa com o início de outra não implica que se deixou de amar a quem não se relaciona mais. É importante que se tenha essa compreensão para que isso seja aceito, senão pode ser fator de grande sofrimento.

Finalmente quero falar sobre o aspecto transcendental ou idealista da vida. É quando se dedica a vida a uma causa que vai muito além de nossas realizações pessoais. É algo inteiramente altruísta, pelo que, inclusive, se sacrifica outros tipos de realização. É o caso da dedicação a causas religiosas, quando sincera, mas não só. É a dedicação a algum projeto de vida em prol do bem dos outros e da humanidade ou da natureza. É a filantropia, a doação de si, de seu tempo, de seu dinheiro, de sua energia, de seu trabalho, de sua inteligência para uma causa nobre e benfazeja. Esse tipo de atividade pode, até, suprir a ausência de uma realização amorosa. Mas não é incompatível com ela. Se os amantes são unidos na dedicação a um tipo de causa assim, então é que a vida fica repleta de significado mesmo. Tal tipo de atividade é que nos deixa saber que nossa vida é algo que faz diferença para o mundo e que, por causa dela, o mundo fica melhor pelo fato de existirmos.

Note-se, então, que se pode, sem apelar para nada extrínseco à própria vida, preenchê-la plenamente de significado de forma que, a todo momento e, principalmente, a seu fim, ter-se a certeza e a tranquilidade de que se leva uma vida satisfatória e feliz. E que o mundo se torna melhor, a cada instante, pelo fato de estarmos vivendo nele. Isso é capaz de nos deixar apaziguados e tranquilos, mesmo sabendo que, ao morrermos, nada mais restará de nós senão nossos átomos que se reincorporarão à natureza de que provimos e retornaremos. Nossa consciência é uma fugaz ocorrência que surge ao nascermos e se extingue ao morrermos. Mas podemos dar a esse intervalo um valor maior do que muitos que supõem que são eternos são capazes de dar.

A felicidade, assim, é uma consequência de se sentir realizado na vida. Aquele que se empenha na busca da felicidade não a alcança. Mas quem dedica sua vida a se realizar fazendo o bem, ela lhe será concedida de brinde.

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