Amor… apenas amor.

by @ 23:31 on 19 abril 2012. Filed under Relacionamentos

Doutras feitas falei filosoficamente de amor neste espaço. Agora quero falar de amor de outro jeito. Quero falar do sentimento, da emoção. Quero dizer como sei que estou amando. E quero cogitar de quando o amor acaba. O amor que vou falar não é outro senão aquele que prende um homem a uma mulher e consiste na coisa mais esplendorosa que pode acontecer na vida de uma pessoa. Existem outros amores, é certo. Deles não cuidarei, porque quero extravasar o que transborda em meu peito mas que,  paradoxalmente, me deixa nele um vazio que não tem tamanho e nada é capaz de encher senão amor. Não o que sai de mim, porque este extravasa e é inesgotável, mas aquele de que estou sedento, aquele que espero merecer e não me vem. Aquele cuja falta me esgota todas as lágrimas e cujo vislumbre me ilumina e transfigura, me faz sentir invadido por um enlevo celestial e leva meu ser a radiar como uma explosão de supernova.

Esse amor é aquilo que te deixa mole como gelatina quando o olhar da pessoa amada cai no fundo dos seus olhos e sua perfumada presença inebriante te entontece. Aquele sentimento que de deixa o coração batendo compassado e profundo, que depõe todas as tuas defesas, que faz descer um calor por todos os teus chacras até aquele que se intumesce e se umedece, mostrando que teu ser é um só e fica completamente paralisado, embevecido, apatetado. Mente, alma, corpo e coração ressoam em uníssono, no compasso de uma melodia etérea, da música das esferas, do som das galáxias em seu rodopio. Aquele sentimento que abre uma janela de luz, coada por um vitral iridescente como de uma catedral, que ao te iluminar te torna leve como o ar e tu levitais, não sentis mais o chão sob teus pés e nada mais te importa do que essa visão paradisíaca. Tu és levado em um arroubo místico para fora do planeta, do sistema solar, da galáxia e do universo.

E isso tudo pode acontecer, mesmo sem a presença física do ser amado. Mesmo tendo uma distância geográfica, que a internet faz zerar, o amor se instala na alma e se torna tão forte, tão intenso, tão sincero, tão completo, tão inebriante, tão real e verdadeiro como se os amados estivesse juntos, naquela juntidade que anseiam vir a ter para se entregarem totalmente ao calor que os une. E mesmo de longe, sentem e sofrem as mesmas emoções, vivem os mesmos sonhos, fazem os mesmos planos, curtem os mesmos momentos de amor, como se lado a lado estivessem.

Isso é o amor e o amor, além desse sentir e dessa emoção, desse desejo de união das mentes, dos corações, das almas e dos corpos é também um querer consentido pela razão, pela vontade. Uma disposição de dedicação integral, de doação total, de cumplicidade, de companheirismo, de profunda amizade, de uma proteção cercada de tão grande ternura que o pensamento de que qualquer mal ou infelicidade vá toldar o ser amado é fonte de tristeza e resolução em evitá-lo seja como for.

Tu amas quando acordas, te deitas, e vives todos os momentos pensando no ser amado. Quando a saudade da sua ausência, por menor que seja, te oprime o peito com uma dor indizível. Quando o seu retorno te enche de um júbilo incontido e tu o abraças rodopiando e beijando, segurando sua cabeça com os dedos entre os cabelos completamente embriagado de felicidade, mesmo que seja só em pensamento ou em sonhos. Quando a perspectiva de viveres até o último dia em sua companhia for a maior aspiração de tua vida e nunca cogites de que isso não venha a ocorrer.

Isso tudo é o amor e nada é mais importante para a felicidade do que ele. Amar e ser amado são a razão de existirmos. É o plano da natureza para a vida, esta singular ocorrência que temos o raríssimo privilégio de desfrutarmos e que não podemos desperdiçar por razão nenhuma. Nada justifica deixar de viver um grande amor. Nem a prosperidade, nem as convenções sociais, nem as religiões, nem as barreiras econômicas, étnicas, culturais ou de que ordem sejam. Mas um grande amor sempre vem da admiração, do compartilhamento de interesses, de convicções, de gostos, de ideais e, sem dúvida nenhuma, da atração física, da “química”.

Mas o amor tem que ser inteiramente livre. Que ninguém seja dono de ninguém nem pretenda dominar ou controlar o ser amado. Se isso ocorrer não há mais amor. O amor é altruísta, não é possessivo, não é dominador. É gentil, é solícito. Não tem o menor ciúme, pois isso é justamente o oposto do amor. Para amar é preciso se estar inteiramente solto. Não se ama por obrigação, nem por coação, nem por gratidão, nem por piedade. Ama-se pelo prazer de amar e ser amado. E amor só com amor se paga, como sexo só com sexo se paga. Quem diz que ama para ter qualquer outro tipo de compensação que não o próprio amor não ama. É um interesseiro e um traidor. Traição é inadmissível no amor pelo próprio princípio do que seja o amor. Não é possível trair um amor, pois no momento em que se trai,  já não se ama mais.

Para que o amor seja assim livre ele não pode ser associado a nenhuma dependência econômica. Cada pessoa adulta tem que prover-se a si mesma. Os filhos são cuidados pelo pai e pela mãe. No momento em que algum relacionamento amoroso ficar vinculado à dependência econômica, ele deixa de ser amoroso. É claro que dois que se amem podem e devem compartilhar responsabilidades financeiras. Mas que isso seja uma opção e não uma necessidade.

Todavia o amor não precisa ser exclusivo. E isso não se configura em traição. Qualquer um é capaz de amar, de se apaixonar, de ter todo esse sentimento já descrito por mais de uma pessoa. Com toda a sinceridade, toda a honestidade, toda a intensidade, toda a emoção, todo o consentimento. Quem nunca se sentiu oprimido por ter que fazer uma escolha entre duas pessoas que ama, porque não se admite que isso possa acontecer? Porque não? Porque a sociedade, por razões econômicas e religiosas assim o estabeleceu. Mas se todos os envolvidos estiverem cientes e concordem, que vilania há nisso? Como não seria muito mais feliz o mundo e quanta dor não seria evitada se isso fosse normalmente admitido. De forma honesta, decente. Indecente é ser monogâmico de fachada e manter casos extraconjugais escondidos. Não consigo entender essa postura. Não digo que assim tenha que ser, mas que assim possa ser. Amores plurais, francos, abertos, aceitos pela sociedade com normalidade no convívio cotidiano.

Mas… o amor pode acabar e há casos em que acaba. Isso é triste, muito triste. Não vou considerar a situação em que o amor acaba porque um dos parceiros comete uma grande felonia. Então é que não havia amor e, muito provavelmente, nunca houve, pelo menos por parte desse. Digo do amor amoroso mesmo, em que os amantes se querem muito. Mas isso pode acabar. Como pode? Pode ser que as expectativas fossem equivocadas. Pode ser que o convívio tenha se desgastado. Pode ser que os gênios não se casem. Pode ser que os interesses que não fossem comuns passaram a ser preponderantes. Pode ser que as pessoas se esqueceram de regar essa plantinha. Pode ser um problema de saúde. Pode ser que um dos parceiros perdeu o desejo. Ou pode ser que tudo não passou de uma ilusão, de uma fantasia, que um dia foi revelado. Mas… se nenhuma vilania foi cometida, a lembrança desse amor ficará para sempre guardada de modo carinhoso no coração. E nenhum novo amor tem o direito de apagar essas doces lembranças porque elas foram a parte mais importante da vida, enquanto o amor foi vivo. Sepultar velhos amores é a pior coisa que se pode fazer. Há que se cultivarem suas lembranças com aquela doce tristeza de pensar o que poderia ter sido e não foi. Com uma saudade do que não aconteceu. Mas a saudade também é uma coisa boa. Quem vier a amar alguém que já teve um grande amor tem que aceitar isso e conviver com a lembrança dos amores passados de seu novo amor.

Por tudo isso eu digo, o que se atribui a Shakespeare:

Se o amor te machucar, ame mais.
Se amar mais te machucar mais, ame mais ainda.
Se amar mais ainda de machucar mais ainda, ame ainda mais.
Até que o amor não te machuque mais.

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