Amor e egoísmo

by @ 12:38 on 13 maio 2012. Filed under Relacionamentos

O egoísmo é a fonte de todos os males e todos os vícios. A princípio poder-se-ia pensar que fosse uma coisa boa, pois, com ele, cada um consegue maximizar os benefícios pessoais. O problema é que o ser humano é gregário. Em nossa espécie existem duas pulsões instintivas muito fortes. A primeira é a da conservação de si mesmo, isto é, a sobrevivência. Esta é egoísta e procura o benefício da própria pessoa, para que continue viva e goze do máximo de vantagens. A segunda é a conservação da espécie. Esta, no esquema da natureza, é superior à primeira, que só existe para  que ela possa ocorrer. Consiste na procriação e manutenção da prole até que, por sua vez, possa procriar. Isso é o que Dawkins chamou de “O gene egoísta”. Todo o nosso organismo é um aparato para perpetuar os nossos genes. Existimos para procriarmos. Mas essa pulsão, ao contrário da primeira, é altruísta. Para conseguirmos procriar e criar nossos rebentos, temos que renunciar a muita coisa para nós mesmos, para constituirmos uma família que dê suporte à criação dos filhos. Há conflitos entre as duas pulsões e é preciso achar um equilíbrio. A primeira é belicosa, a segunda é pacifista. O amor é uma sublimação do instinto de procriação. Todo tipo de amor, inclusive a caridade. E a civilização se construiu sobre o desejo de paz em vez de guerra. A guerra é egoísta, a paz é altruísta. O egoísmo é destruidor, o altruísmo é construtor. Quanto mais civilizado se é, mais altruísta e menos egoísta se é. Porque, inclusive, o altruísmo consegue resolver, de modo mais satisfatório ainda, a questão da manutenção do indivíduo, pela cooperação mútua, que provê cada um do que precisa, por ação de todos, sem que seja preciso lutar e vencer o outro para se sobreviver. Todos, uns pelos outros, proverão a todos de tudo que é preciso. Isso é a construção da civilização. Conclusão: o egoísmo obra contra o bem geral e o altruísmo a favor.

Vejamos o caso particular dos relacionamentos amorosos. O fim último, no esquema da natureza, é a procriação. Mas, sendo o homem racional e consciente, isso é sublimado, de modo que o amor acontece mesmo sem se ter em vista a procriação. E o que é o amor? É um sentimento, uma emoção, mas também uma intelecção, algo consentido racionalmente. É um desejo, um querer, uma vontade, uma resolução. E é uma ação, um comportamento e, principalmente, uma relação interpessoal, que envolve reciprocidade. Mas tem um aspecto importantíssimo. O amor é livre. Não se tem amor por obrigação, nem por piedade, nem por gratidão, nem por conveniência. O amor não se vende e não se compra, Não se empresta e não se devolve. É doado e recebido de presente, completamente de graça. Não se pode exigir amor, cobrar amor. Quando se ama, apenas se ama e se deixa a amada livre para nos amar ou não. E, mesmo que nos ame, para poder amar a outrem também. O amor não tem perenidade nem exclusividade. Pode acabar, simplesmente. Sem nenhum motivo. E pode ser dado a mais de uma pessoa, bem como recebido de mais de uma pessoa. Isso é normal e o impedimento de sua  realização (porque o sentimento não há como se impedir) é fonte de muita infelicidade. O que há no amor é um compromisso de dedicação, de compartilhamento de interesse, gostos, projetos, responsabilidades, de cumplicidade, de apoio, de doação mutua, de estima, de respeito, de admiração.

Assim, cada pessoa envolvida em um relacionamento amoroso, é uma pessoa integral, completa e livre. Não é propriedade do amado. Não deve nenhuma submissão ao amado, Não tem que prestar conta de nada ao amado. Tem-se que amar pensando assim. Ama-se porque se gosta daquele amor, tanto da pessoa quanto do fato de amá-la. E, é claro, deseja-se que isto seja recíproco. E se rejubila quando o é. Mas não se pode exigir que o seja. E, quando se ama de verdade, e não egoisticamente, fica-se feliz com a felicidade do ser amado, mesmo que essa felicidade não consista em nos amar. Quem não ama assim, de fato, não ama a pessoa, mas a si mesmo, querendo ser amado mais do que amar. Todavia só se é amado quem ama sem pretender sê-lo. Então o amor é retribuído de graça. Ou não. E não se pode fazer nada a respeito.

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