Considerações sobre a arte e a ciência

by @ 18:37 on 18 junho 2015. Filed under Artes, Ciências, Educação

Fazer ciência é uma arte. E há uma ciência de se fazer a arte. Atividades aparentemente díspares, no entanto possuem uma convergência notável. Tanto o cientista quanto o artista são criadores, pois criam conhecimento e criam beleza. E há uma profunda beleza no conhecimento, como não se aprecia bem a beleza sem conhecimento. Keats deplorou Newton por explicar o Arco-íris, considerando que isso lhe tirara a poesia. Mas a poesia está em saber como surge o arco-íris. Do mesmo modo que a filosofia, sem ser, conceitualmente, nem uma ciência nem uma arte, em seu fazer é a quintessência da ciência e da arte. Pois há uma ciência e uma arte de filosofar. Sim, porque filósofo não é o que entende de filosofia, mas o que filosofa.

Em seu sentido mais amplo, arte é o domínio do fazer humano. Tanto o fazer útil e prático quando o fazer apenas ligado à fruição do prazer da contemplação de seu resultado. Neste caso falamos das “belas artes”. Se bem que o valor artístico de uma obra de arte não se prende, necessariamente, a sua beleza. E nem tem a arte compromisso em transmitir qualquer mensagem, mesmo que a isso se preste muito bem e para isso seja muito válido que dela se faça uso. Uma questão é se uma obra feita sem um propósito artístico consciente, como um quadro pintado por um macaco, seja ou não obra de arte. Do ponto de vista de quem aprecia, seria sim. Inclusive podendo ser bela.

No caso da ciência, a arte considerada é a arte útil. A arte significando o saber fazer. Pois a um cientista não se requer apenas conhecimento, mas também, habilidade em dele fazer uso, inclusive para desenvolver mais conhecimento. Porque o conhecimento se constrói sobre o conhecimento e essa construção tem que ser feita com arte. Mesmo na proposição de hipóteses inéditas e inovadoras, mister se faz dominar a arte de ser cientificamente criativo. Parte disso repousa na capacidade inconsciente de intuir. Isso é que faz a diferença que distingue os gênios dos grandes talentos.

Quanto à ciência de fazer arte, cada uma tem a sua. A literatura requer o domínio da língua, bem como das técnicas de construção de personagens, enredos, cenas, no caso da prosa e, no caso do verso, de um vasto vocabulário e dos truques para fazer com que os versos expressem, num poema, a poesia. No caso da música, então, é que não se consegue fazer muita coisa em um dose bem grande de conhecimento. Nas artes plásticas, igualmente, especialmente na arquitetura. E o cinema é uma arte extremamente científica. Mesmo a dança, aparentemente apenas artística, envolve alguma ciência.

Infelizmente a educação básica, no Brasil, atualmente, confere pouca importância ao aspecto artístico. Para mim saber e fazer música, pintura, escrever, poetar, dançar, representar, fazer oratória e ter domínio razoável de todas as artes é tão importante quanto ter conhecimentos e habilidades em matemática, física, química, biologia, geografia, história, filosofia, sociologia, português, inglês. Porque não caem questões sobre artes no ENEM? Não me refiro apenas a conhecimentos artísticos, mas a habilidades artísticas (como, aliás, de todos os campos).

Em relação à ciência o processo educativo brasileiro atual também deixa muito a desejar. Porque ele se centra apenas na aquisição de conhecimentos e não no desenvolvimento da habilidade de gerar conhecimento. O defeito está no método de ensino. O correto seria o método da redescoberta, em que o estudante é feito um cientista e, ele mesmo, vai descobrir as leis naturais e sociais que outros já descobriram, como se fosse pela primeira vez. Educar não é ensinar e sim produzir aprendizado. E o maior aprendizado se dá quando a própria pessoa descobre o que tem que saber.

Desenvolvendo nos estudantes, tanto as ciências, exatas, biológicas e humanas, quanto as artes, muito especialmente a de escrever, bem como de argumentar e falar (dialética e retórica) se formarão adultos bem instruídos, hábeis, capazes e competentes  para conduzir a própria vida bem como interagir com a sociedade em que se inserem para maior proveito de todos. Isto é, para se construir um mundo justo, harmônico, fraterno, próspero, aprazível e feliz para cada pessoa do planeta.

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