Filosofando a UFV

by @ 22:41 on 11 novembro 2005.

(artigo submetido à publicação em 1992 na revista “UFV-Debate”)
O pensamento é a atividade distintiva da espécie humana. Sem isso somos meros animais. 0 pensador é, pois, o mais humano dos profissionais. Na antiguidade tais pessoas se autodenominavam, por modéstia, filósofos. Hoje, até ser amigo da sabedoria pode parecer presunçoso. Não se pode, todavia, abdicar da condição humana. Viçosa é uma cidade universitária e uma universidade é, justamente, uma usina de pensamentos. Todavia, nos meus dezesseis anos de Viçosa, o que mais tenho ressentido no ambiente universitário, é exatamente daquela vivência intelectual envolvente e fecunda. Nossa universidade é por demais técnica, voltada mais para o fazer do que o pensar. Por isso, talvez, continue provincial e bairrista. As discussões políticas dos corredores são comezinhas e locais, quer trans ou cis—pilastrinas. As grandes questões fundamentais dos rumos políticos da humanidade no milênio vindouro mui raro são debatidas. A cultura e a arte são cultivadas com moderação. É preciso um vigoroso choque revitalisador de filosofia para transformar Viçosa em uma universidade capaz de ombrear-se com as grandes congêneres brasi1eiras na condução das linhas mestras do pensamento, da ciência, da cultura, das artes e das letras nacionais. Este artigo pretende levantar esta bandeira e concitar as cabeças pensantes a levar aos cafés, gabinetes, praças e salas de aula o alento das idéias, das opiniões e dos questionamentos. Com isso, creio que nossa comunidade tornar-se-á propriamente “Viçosa”, exibindo plenamente sua potencialidade criadora.
Sem dúvida há debates e questionamentos, só que não nas grandes questões abrangentes e gerais. É claro que os problemas específicos e particulares também têm que ser resolvidos, e não se pretende que sejamos como Diógenes, mas a grandeza da vida acadêmica está no plano das idéias e é nele que o professor pesquisador sente-se plenamente realizado. Não se pode também confundir cultura com erudição estéril. O verdadeiro filósofo não é o que pode citar tudo o que disseram os grandes pensadores, com referência bibliográfica precisa, mas o que filosofa, isto é, o que sabe pensar sobre a vida e aplicar as lições dos mestres na solução das questões atuais. É preciso que se crie espaço para a expressão de opiniões. Este periódico “UFV-DEBATE”, primordialmente destinava-se a ser um veiculo de opiniões e debates. Aos poucos foi transformando-se em uma “revista de corpo editorial”, e passou a publicar artigos de pesquisa cientifica formal, com material, métodos e essa coisa toda. Este tipo de trabalho intelectual não comporta a emissão de opiniões que não passem pelo crivo da comprovação cientifica. É preciso lembrar, porém, que os grandes filósofos e cientistas da história, na verdade, elaboraram hipóteses com base no raciocínio indutivo, que, no fundo, são opiniões. Não estou, em absoluto, desmerecendo o trabalho de pesquisa científica metódica, Só acho que falta um “algo mais” na vida acadêmica de nossa universidade. Nos grandes centros geradores de ciência e cultura respira-se uma atmosfera impregnada de intelectualidade por todos os cantos. As conversas giram em torno das idéias em gestação e dos temas científicos e filosóficos. Isto é que espero ver ocorrer corriqueiramente em Viçosa, para levar a universidade à projeção que almejamos que ela venha ter no cenário acadêmico do País.

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