Prefácio do livro “Estudos Filosóficos”

by @ 12:14 on 27 maio 2008.

Recebi o convite de um grupo de debatedores de comunidades de Filosofia do Orkut para prefaciar este livro, organizado pelo Alexandre Anello. Esta subida honra emocionou-me, uma vez que, diversamente de vários de seus autores, não me habilitei formalmente em Filosofia e sim em Matemática e Física. Todavia a Filosofia sempre foi a menina dos meus olhos, tanto que, dentro da Física, dediquei-me à Cosmologia, sua parte mais filosófica. Em todos os quarenta anos que venho laborando no magistério secundário e superior, sempre busquei levar ao estudante a visão filosófica, não só do conteúdo em pauta no estudo naquele momento, mas, principalmente, de sua inserção na vida e no mundo.
Com o surgimento da rede de relacionamentos “Orkut”, a que me filiei desde os primórdios, pude usufruir de um privilegiado fórum de debates, inscrevendo-me nas principais comunidades, não só de Filosofia, mas também de outros temas de meu interesse, nas ciências e nas artes. Em todas elas, descontando-se uma fração de perturbadores irreverentes, sempre encontrei pessoas lúcidas e preparadas, imbuídas do desejo maior de buscar a verdade nos diferentes tópicos, e não apenas de vencer eristicamente a discussão ou exibir vaidosamente sua erudição, mesmo que lídima. De muitas dessas pessoas tornei-me amigo virtual, tendo passado a respeitar e admirar suas posturas e argumentos, mesmo, em alguns casos, delas discordando. Morando em Viçosa, uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, que, tendo uma Universidade de renome na área tecnológica, especialmente agrária, não tem tradição humanística e filosófica, eu, que nela lecionei por vinte anos, sentia-me isolado em meus anseios de encontrar pessoas com quem pudesse conversar, discutir, debater e com elas aprender muita Filosofia e adquirir cultura e conhecimento, de um modo mais amplo. Isto eu pude achar no Orkut e, então, extravasei minha verve filosófica, artística, musical, poética e literária, além da científica. A chegada desse convite foi então, para mim, um reconhecimento da sinceridade do meu intento e da propriedade com que a ele me dediquei.
O livro “Estudos Filosóficos” é um conjunto de ensaios, primorosamente elaborado por seus autores, sobre as vertentes que marcaram indelevelmente a virada do século XIX para o XX e, até hoje, dão o tom no discurso filosófico que viceja no ambiente acadêmico e, mais recentemente, até mesmo nas revistas de divulgação filosófica que se colocam à venda nas bancas de jornal. A escolha dos nomes pelo organizador não poderia ser mais judiciosa em encontrar, dentre os participantes das comunidades filosóficas do Orkut, os mais indicados para cada tema desenvolvido. Entre eles encontram-se filósofos de formação, professores secundários, estudantes universitários de diversas áreas, mestres, mestrandos, bacharéis, bacharelandos e profissionais de variados matizes, todos, no entanto, profundamente mergulhados na Filosofia em suas buscas por um significado para a vida, fato revelado por sua erudição filosófica ímpar, além de imbuídos do espírito questionador que norteia toda a obra.
A espinha dorsal do livro é a ruptura com as tradições das linhas mestras da Filosofia européia até o século XIX, em suas várias vertentes, de Tomás de Aquino até Kant e Hegel, passando por Descartes, Espinosa, Hume e outros importantes pensadores, não esquecendo, é claro, de considerar a enorme influência da Grécia, em especial de Platão e Aristóteles. Como pano de fundo de todo esse movimento, está a presença marcante e ameaçadora do Cristianismo, do Judaísmo e do Islamismo, com seus livros sagrados e seus “doutores da lei”, sem falar da espada e da fogueira, como também da guilhotina.
Esta ruptura, em diferentes aspectos, começa com Marx, Comte, Schopenhauer e Kierkegaard, firmando-se definitivamente com Nietzsche. No mundo da Ciência, ela é acompanhada por Darwin, Freud, Planck, Einstein, Bohr e Heisenberg, para citar os mais destacados. Na verdade, há uma constante retroalimentação entre a Filosofia e a Ciência nesse período de mudança de paradigmas. Os modelos cosmológicos de Kant baseiam-se na mecânica de Newton, no cálculo de Leibnitz e na astronomia de Laplace, mas a Filosofia depois de Nietzsche, Einstein e Heisenberg, não pode mais deixar de considerar a relatividade do tempo e do espaço nem a incerteza e a probabilidade inerente a todo encadeamento de eventos. Sem esquecer o quanto devem à demolição da noção bíblica da criação efetuada por Darwin, a aceitação do pensamento materialista de Marx e existencialista de Sartre.
Os nomes de Heidegger, Russell, Bergson, Husserl, Wittgenstein, Horkheimer, Habermas, Adorno, Sartre, Merleau-Ponty, Foucault e Deleuze, dentre outros, despontam no cenário da Filosofia do século XX, não só pelo que tiveram a dizer, mas, principalmente, por sua atitude de independência e busca de caminhos para a Filosofia, sem que estivessem atrelados ao pensamento dos veneráveis vultos imortais da história da Filosofia. Especialmente mostraram o que precisa ainda ser compreendido por muitas instituições acadêmicas: que filósofo é aquele que filosofa e não o que conhece o que os outros filosofaram, por mais útil, importante e indispensável que isto seja para se filosofar. Todo aquele cuja presença marcante na história do pensamento foi de valor suficiente para que sobre ele (ou ela) possa-se dedicar uma tese de doutorado, assim se tornou porque pensou por si mesmo e deu sua contribuição pessoal e original ao legado da humanidade.
Ao comentar a contribuição que eles deram ao debate filosófico, os ensaios que se apresentam abrem a mente do leitor para as grandes veredas da Filosofia contemporânea, em sua busca para o entendimento do mundo e da existência. É importantíssimo que se explorem todas as vertentes e, principalmente, que a juventude seja colocada em contato com alternativas, embasadas e viáveis, aos paradigmas oficiais que o “establishment” político, econômico e religioso lhe apresenta como única alternativa. É uma pena que a maior parte da grande massa de jovens que participa do Orkut não revele o mínimo interesse em agregar-se a comunidades filosóficas e, mesmo, dos poucos que se filiam, vários encarem a coisa de uma forma superficial e, em muitos casos, galhofeira. Não se pode esquecer nunca que a Filosofia é a mestra da vida e que a principal razão para se filosofar não é a busca do saber, mas da sabedoria, de forma tal que o saber seja desejado e perseguido porque é caminho para levar-se a vida de forma a valer a pena ser vivida, não importa que prêmio ou punição posterior porventura possa existir.
Constantin Constantius, no exórdio da introdução do livro, conceitua a Filosofia como aquilo que se faz quando se filosofa, o que leva, não a existência de uma Filosofia única, mas de tantas Filosofias quantos forem os filósofos. Sem dúvida esta é uma característica da Filosofia que a distingue da Ciência, uma vez que esta procura ser objetiva e independente do cientista, buscando uma interpretação da realidade de seu campo por meio de um modelo, abstratamente construído, de conceitos idealizados e pelo estudo empírico das relações que as entidades a que esses conceitos se reportam guardam entre si, no mundo real. Para Deleuze, filosofar é construir conceitos e, de fato, a maior parte das discussões filosóficas é semântica, as diversas escolas atribuindo conceitos diferentes às facetas da realidade filosófica e, em sentido oposto, dando significados distintos a conceitos denominados por uma mesma palavra. O aprofundamento dos seguidores de diferentes escolas nos conceitos estabelecidos pelas demais, no meu entendimento, é um fator importantíssimo para procurar-se um consenso conceitual e, a partir dele, passar-se à investigação da relação filosófica que o que estes conceitos significam guardam entre si. Tais relações, uma vez estabelecidos os conceitos, são passíveis de verificação fatual e esta verificação é o segundo nível (depois da conceituação) de investigação filosófica. Um projeto deste tipo, possivelmente, poderia tirar a adjetivação da Filosofia e levá-la a uma objetividade semelhante à da Ciência. Mas esta discussão já ultrapassa o escopo deste trabalho.
Em minhas lides cotidianas, muitas vezes deparo-me com questionamentos às concepções filosóficas que possuo, não por seu conteúdo, mas simplesmente por ter esta visão de pautar minha vida por princípios que sejam frutos de uma reflexão, ao invés de levá-la de modo pragmatista, deixando de ser tão “teórico” e passando a encarar a vida de um modo mais “prático”. Por exemplo, por ser anarquista e considerar que o dinheiro é algo que não deveria existir, acabo trabalhando de graça na grande maioria dos casos, além de não possuir nenhuma propriedade, exceto minha biblioteca, que almejo disponibilizar ao povo. No entanto, estou profundamente convencido de que a única alternativa capaz de dotar a vida de significado, já que também não considero a possibilidade da sobrevivência da consciência à morte do organismo que a suporta, é viver segundo uma cosmovisão baseada em princípios filosóficos que resultem de um processo, muitas vezes doloroso, por partir ilusões caramente acalentadas, de mergulho nos questionamentos de toda ordem sobre a existência e o mundo e dele emergir, como resultado das reflexões, para um estado de comunhão assertiva com a realidade, por mais aparentemente cruel que ela seja. Isto, contudo, não significa passividade frente as ignomínias e sim, pelo contrário, engajamento em uma militância efetiva na luta pelo prevalecimento do bem e erradicação do mal, no que quer que ele esteja representado. Tal postura leva a uma auto-aceitação, que é o que mais aproxima-se do que eu denominaria “felicidade”.
Para que tal tipo de postura dissemine-se na humanidade e todos possam libertar-se das amarras mentais que os interessados na manutenção do “status quo” pretendem que sejam mantidas por meio das religiões e outros mecanismos de coerção psicológica, a única saída é a educação filosófica. É, justamente, fazer as pessoas deixarem de ser “práticas” e tornarem-se “filosóficas”. E elas só assim o serão se lhes for servida muita filosofia no prato do dia da Educação, em todos os níveis, bem como da educação que a vida fora da escola, muitas vezes mais significativamente, propicia. Os “Estudos Filosóficos” que aqui se apresentam cumprem com oportuna propriedade este objetivo, especialmente por focar-se nas vertentes de pensamento que mais questionam tudo o que aparentemente está assentado em sólidas e inamovíveis bases. No entanto, “Tudo que é sólido se desmancha no ar”, assim, o importante, que é a grande mensagem desta obra, é a perene atitude de questionamento, até mesmo do marxismo, do estruturalismo, da filosofia analítica, do existencialismo, do pós-modernismo e de todo e qualquer “ismo”. Não há uma filosofia definitiva e, na verdade, todos os “ismos” têm que ser encarados, como faz a Ciência, como “hipóteses a testar”, na construção da “Filosofia”, com “F” maiúsculo, sem adjetivos, que, de fato, é um corpo em permanente formação e que, talvez, jamais seja parida. Na essência do poema “Nuvem de Calças” de Maiakovsky, está a destruição de nossas mais caras concepções e estruturas, com a abertura para um mundo de novas possibilidades, não necessariamente socialistas, mas diferentes de tudo o que se tem, isto é: “Abaixo com seu amor! / Abaixo com a sua arte! / Abaixo com sua religião! / Abaixo com seu regime!”
Que todos tenham o excelente proveito que eu tive na leitura das páginas, nem sempre fáceis, mas certamente de requintado sabor e consistente conteúdo que se seguem. Sem esquecer, evidentemente, da sobremesa. Pois que o homem é razão, emoção, lógica e intuição. Os filósofos também amam e na poesia expressam, como na arte de qualquer gênero, sua sensibilidade, emoção, sentimento, criatividade, talento e habilidade literária. Os poemas que fecham a obra revelam essa faceta e a coroam primorosamente.

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One Response to “Prefácio do livro “Estudos Filosóficos””

  1. Alexandre Anello disse:

    Parabéns, Ernesto!
    Foi um prazer tê-lo a bordo.
    Abraço.

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