Prefácio do livro “A Música Clássica em Viçosa”

by @ 17:27 on 25 junho 2008.

Somente em 1717, em São João del-Rei, deu-se a formação, possivelmente, do primeiro conjunto de músicos profissionais da capitania de Minas Gerais. Ao longo de todo o ciclo do ouro, a música sempre foi uma atividade remunerada, em especial pela Igreja.
A recepção das influências européias, a formação dos músicos e a difusão da música sacra deram-se principalmente na diocese de Mariana, em cujo seminário leigos e alunos eram formados pelos padres professores. Copistas propiciavam a divulgação das obras por todas as Gerais, fazendo desta capitania, recém desmembrada de São Paulo, no século XVIII, o pólo musical de nível mais elevado da América, mercê do dinheiro das corporações religiosas, mantidas pelo lucro do ouro, findo o qual houve um esmorecimento generalizado.
Tal período é impropriamente denominado Barroco Mineiro, pois, à época, as influências, mesmo do Padre José Maurício Nunes Garcia, no Rio de Janeiro, já eram dos compositores clássicos Haydn, Mozart e Cimarosa.
Além de São João del-Rei e São José del-Rei (cidade vizinha, atual Tiradentes), a música sacra, em Minas, desenvolveu-se também no Serro, em Diamantina, em Mariana e Ouro Preto. Os principais compositores de 1750 a 1810, auge do período, foram José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, Manoel Dias de Oliveira, Marcos Coelho Neto, Francisco Gomes da Rocha, Ignácio Parreiras Neves, Jerônimo de Souza Lôbo e Joaquim de Paula Souza. Todavia, mesmo fora desses centros irradiadores, no restante da capitania floresceu uma grande atividade criativa musical, especialmente dedicada à música sacra, mas também envolvida com a música de salão e a música de bandas. É o caso da região da Vila de Santa Rita do Turvo, hoje Viçosa, se bem que os registros existentes referem-se a um período mais recente, estendendo-se pela segunda metade do século XIX até início do século XX.
O maestro viçosense Modesto Flávio Chagas Fonseca e a cantora lírica Katya Beatriz de Oliveira têm-se empenhado, desde 2001, em pesquisar o acervo de partituras sacras que encontram nas sacristias e casas paroquiais das igrejas da região de Viçosa, em suas constantes andanças. A idéia do projeto Acervo de Música Antiga da Microrregião de Viçosa nasceu conjuntamente com a da formação de uma Orquestra de Câmara para executar essas peças. Em 2006 o financiamento do projeto foi aprovado pelo Fundo Estadual de Cultura, gerido pela Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, para vigorar em 2007. Tal projeto tem por base os antigos arquivos musicais dos mestres viçosenses, José Jacintho Dias de Sant´Anna, Randolpho Sant´Anna, José Sant´Anna e Castro (Zequinha Sant´Anna), Francisco Mariano de Assis e Adson Bicalho, abrigados no Centro de Documentação Musical de Viçosa, que também guarda, provisoriamente, partituras achadas nas cidades de Paula Cândido, Porto Firme, Pedra do Anta, Coimbra, Ervália, Viçosa e em Paraguai, distrito de Cajuri.
São manuscritos e impressos de música sacra e popular dos séculos XVIII, XIX e XX, daqueles mestres, bem como de outros compositores mineiros, tais como, Joaquim de Paula Souza Bonsucesso, João de Deus Castro Lobo, Jerônimo de Souza Lobo, Libório Gomes Moreira, José Alves da Trindade, Manuel Augusto de Medeiros Senra e Francisco de Paula Trindade, além de muitos anônimos. São cerca de 4.000 folhas de 400 títulos, a grande maioria em bom estado de conservação.
Com a realização deste projeto, Viçosa e região resgatam um episódio da história de sua música, pois, até o momento, não existe nenhum estudo sistemático sobre este fenômeno sócio-cultural. No âmbito da musicologia brasileira, esta será mais uma conquista, ou seja, mais uma fonte difusora de informações sobre a música no Brasil. Por meio da distribuição destes volumes de partituras e de um catálogo das obras do acervo, que se pretende publicar, espera-se realizar uma ampla disponibilização da informação sobre tais arquivos à comunidade acadêmica musical, centros de cultura e pesquisa e maiores interessados.
O objetivo amplo do projeto, que ora se conclui com a publicação deste livro, foi a conservação, recuperação e difusão das informações contidas na documentação do Acervo de Música de Viçosa. O projeto se inspira no similar coordenado por Paulo Castagna (que inclusive visitou e elogiou o trabalho realizado em Viçosa), publicado em nove volumes, financiado pela Petrobrás, Acervo de Obras e Partituras do Museu da Música de Mariana, publicado em Belo Horizonte pela FUNDARQ, em 2005. Outro projeto análogo, também de 2005 da FUNDARQ, coordenado por André Guerra Cotta, financiado pela Caixa Federal, foi dedicado especialmente a Lobo de Mesquita. A Editora da Universidade de São Paulo publicou obra semelhante sobre a música do Brasil Colonial, sob os auspícios do Museu da Inconfidência, coordenada por Régis Duprat.
Paralelamente, pela atuação da Orquestra de Câmara de Viçosa, promoveu-se a divulgação, para o público não especialista, do conteúdo do acervo, em apresentações da orquestra. A elaboração de um catálogo e a gravação de discos fonográficos é o seguimento natural do trabalho, em novos projetos a serem submetidos a financiamento, nos moldes do catálogo O Ciclo do Ouro – O Tempo e a Música do Barroco Católico, coordenado por Elmer Corrêa Barbosa e publicado pela PUC – FUNARTE, com apoio da Xerox.
A Orquestra de Câmara de Viçosa surgiu a partir da formação do Quarteto de Cordas Adson Bicalho, formado por Pompéia Bicalho e Juarez Rodrigues nos violinos, Modesto Flávio na viola e Katya Oliveira no violoncelo, em 1994. No mesmo ano, o quarteto foi ampliado para formar a Camerata Santa Cecília, que realizou concertos em Viçosa, Rio Branco e Ponte Nova, até 1996. Em novembro de 1997, com o apoio da sociedade viçosense, instituiu-se a Associação dos Amigos da Orquestra de Câmara de Viçosa, como uma sociedade civil, cultural e beneficente, para dar suporte à existência da que ficou denominada Orquestra de Câmara de Viçosa. Contando atualmente com mais de 120 associados, ela mantém, desde 1998, uma Escola de Orquestra, visando à formação de seus próprios músicos e viabilizando sua profissionalização. A Escola, que conta hoje com 78 alunos regulares, prepara jovens carentes de talento para atuarem como instrumentistas. Os trabalhos da Orquestra e da Escola, entre aulas e ensaios, já contabilizam cerca de quatro mil horas. Suas apresentações ocorrem normalmente em espaços abertos, praças e igrejas, sendo franqueadas ao público. Seu surgimento e sua existência até hoje devem-se, além do pioneirismo do maestro Modesto Flávio, ao esforço e abnegada dedicação de ilustres viçosenses, como o saudoso professor Euter Paniago, o engenheiro José Chequer, a empresária Lúcia Molica, o professor Carlos Roberto Magalhães, a professora Rosely Shiroma e o professor Luiz Clairmont de Lima Gomes, dentre outros. Em 2000, a Associação recebeu da municipalidade o título de utilidade pública.
A Associação, para uso da orquestra e da escola, conta com 50 violinos, quatro violas, cinco violoncelos, dois contrabaixos, um piano, um teclado Roland, para ensaios e apresentações, e um computador. Além do aprimoramento da própria orquestra, a escola dá abertura de perspectivas para um grande contingente de jovens que podem profissionalizar-se na música, como ocorre com alunos que já cursam graduação em música. Até 1998, as apresentações da orquestra requeriam o reforço de músicos convidados de fora, inclusive de outros estados. Com o advento da Escola de Orquestra, seus alunos mais avançados começaram a fazer parte da orquestra e, em 1999, pouca necessidade havia de algum músico convidado para compor a orquestra nos concertos. Como orquestra de nível avançado, dentro do programa de ensino de música da Associação, foi formada a Camerata Randolfo Sant´Anna, homenageando um dos antigos mestres de música de Viçosa, bem como o conjunto Pop-Class, que se apresenta em uma série de eventos da região.
Dentre as mais de cem atuações da Orquestra de Câmara de Viçosa, destaca-se a gravação de um Especial de Natal, em 1998, para a TV-Viçosa, da Universidade Federal de Viçosa. Em 1999, apresentou-se na solenidade de inauguração da Biblioteca Municipal de Viçosa. Em julho de 1999, fez um concerto em Belo Horizonte, no Espaço Cultural UEMG/TURMINA, na Praça da Liberdade, dentro do projeto Liberdade Cultural – Projeto Novas Orquestras. Em 1999, tocou na sessão solene de comemoração do 73º aniversário da UFV e outorga do título de Doutor Honoris-Causa a Dom Paulo Evaristo Arns, na UFV. Em 2000, tocou na sessão solene de transmissão do cargo de Reitor da UFV e na XXXVII Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, na UFV. Em 2001, foi a Mariana tocar no Jubileu de Prata Episcopal de Dom Luciano Mendes de Almeida, em solenidade realizada no Teatro do Sesi-Minas. Em 2002, fez concerto em Rio Casca dentro das comemorações da padroeira local, Imaculada Conceição, e, em Ponte Nova, na Noite de Gala para os Melhores de 2002. Em de 2007, apresentou-se em Ponte Nova por ocasião da Abertura do Natal de 2007, evento conjunto da Prefeitura e Associação Comercial.
Além desses destaques, todos os anos, desde sua formação, a orquestra faz o tradicional Concerto de Natal, sempre com a importante colaboração, como solista convidada, do soprano Katya Oliveira, e, no decorrer do ano, realiza concertos públicos, sempre com entrada franca, especialmente nas solenidades comemorativas do aniversário da cidade de Viçosa. Em vários desses concertos existe a participação de outros grupos musicais convidados de Viçosa, da região e de outros estados.
A relevância do trabalho cultural e social da orquestra e sua escola para a comunidade de Viçosa são patentes. Para realizar esse trabalho, a Associação sempre contou com a parceria da Secretaria de Cultura de Viçosa e da Divisão de Assuntos Culturais da Universidade Federal de Viçosa, tendo já contado com o apoio da TIM Telecomunicações e do Banco do Brasil. No momento, a Associação é beneficiária de projetos das Secretarias de Cultura do Estado e do Município, salientando-se este Acervo de Música Antiga da Microrregião de Viçosa, projeto financiado pelo Fundo Estadual de Cultura e o de manutenção da escola e das apresentações da orquestra, financiado pela Secretaria de Cultura do município. A gestão desses projetos, da orquestra e da escola é feita, voluntariamente, pela diretoria da Associação, eleita bianualmente entre os associados.
Ao engajar no projeto do Acervo de Música Antiga da Microrregião de Viçosa, a Associação dos Amigos da Orquestra de Câmara de Viçosa aliou a experiência de seus professores e instrutores à competência e liderança do Maestro Modesto Flávio, para colocar à disposição dos historiadores, músicos e entusiastas pela cultura das Minas Gerais uma obra de grande apuro e relevância. Além do trabalho de campo, de pesquisa e garimpagem do acervo, há todo um procedimento técnico, que consiste em transcrever as peças para um programa editor de partituras no computador, corrigir os trechos erroneamente transcritos pelos copistas, completar as partes faltantes (tudo isto devidamente registrado), acondicionar as partituras originais em embalagem apropriada para armazená-las, classificá-las e registrá-las em banco de dados e, então, compor e publicar este volume com as principais partituras completas, elaborar o catálogo das demais, para disponibilizar cópias aos interessados e gravar os discos, para divulgação também entre o público leigo.
Que todos possam tirar o melhor proveito e que esta magnífica música de nossa região seja reconhecida por seu valor é o que se pretende com esta publicação.

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2 Responses to “Prefácio do livro “A Música Clássica em Viçosa””

  1. Parejas disse:

    Hola de parte de parejaspareja.es, encontre tu blog navegando por la red buscando partituras para piano en google. Me parece super interesante la información que tienes en tu blog y sin lugar a dudas regresare a leerlo. Tengo una pregunta, si podria traducir tu blog “Ernesto von Rückert » Prefácio do livro “A Música Clássica em Viçosa”” y añadirlos a un de mis blogs en italiano? Y por supuesto con el link direccionando a tu blog. Estare esperando tu respuesta. parejaspareja.es

  2. fatima disse:

    gostaria de saber se encontro alguma biografia do ADSON BICALHO. obrigada

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