O Perfume da Bondade

by @ 23:35 on 20 janeiro 2009.

Marceneiro

Era um homem ingênuo, bobo mesmo. Mas não era burro. Só confiava nas pessoas e não punha maldade. Muitos lhe tapeavam em negócios e, quando ele percebia, já era tarde. Mas isto o magoava. Sempre foi muito escrupuloso em não enganar ninguém. Daí subestimava, por precaução, suas mercadorias. Se alguém o tapeasse, não tinha importância, o erro não era seu. Mas, se ele enganasse alguém, a consciência não lhe permitia dormir até reparar o malfeito. Nunca deu cano, só que era esquecido. Não por desleixo ou irresponsabilidade. É que vivia no mundo da Lua. Pés no chão é que não tinha mesmo. Esquecia de pagar, mas esquecia também de cobrar. Só pensava no mundo feliz dos seus sonhos e nos carinhos doces de sua patroa.

No trabalho era um capricho que fazia gosto. Nunca se importava com a trabalheira, o gasto de tempo, o cansaço ou em ser mal pago. Valia a pena ver seus olhos brilhando ao concluir um serviço perfeito. Era marceneiro: fazia e consertava móveis. Estofados, torneados e lavrados com formão, que saiam lisinhos e nem precisavam lixar. E o verniz (de boneca) ficava que nem de piano importado: um espelho! Sua especialidade eram os encaixes de asa de andorinha. Os armários não tinham prego algum, nem compensado, nem nada desse tipo. Só tábua de lei: mogno, cedro, jacarandá, imbuia, marfim. Estilo “Chippendale” ou “Luiz XV”, que copiava direitinho das revistas amareladas. Pezinhos de pata de onça ou de cabra. Mandava vir as dobradiças e fechaduras do Rio de Janeiro. Tudo de metal amarelo, coisa fina. Mas só para as casas dos fregueses, os “doutores” da cidadezinha. Na sua, tudo limpo e caprichado, mas modesto.

Bom… a família foi crescendo e as despesas aumentando. A patroa se virava nas costuras, as meninas no serviço da casa e os meninos cuidando da horta, do pomar e das entregas. Mas todos iam ser doutores. Tanto que nem lhes ensinou o ofício. A Mariazinha já se via professora, a Ritinha enfermeira, o Mauro ia advogar e o Eustáquio ser construtor. Para isso ele já ia comprando os livros e fazendo eles lerem todo dia, até mesmo literatura. Pena que nenhum ia ser médico e ele já se preocupava com os problemas de saúde na sua velhice e da patroa.

Começaram a aparecer as lojas com móveis de fábrica. Daqueles bem fuleiros, cheios de prego e compensado, com dobradiças de plástico, que se estragavam num instantinho. E os estofados, por baixo dos panos, eram de caixotes de feira desmontados. Uma feiúra que só vendo. Só que eram baratos e as lojas vendiam a prestação, a perder de vista. A freguesia caiu. E ele, só entrando em dívidas com os fornecedores, o armazém, a farmácia… Não tem problema, meus filhos vão ser doutores e me amparar logo, logo, é o que dizia.

Mas credor não tem coração, ainda mais que agora não eram mais os cumpadres, que, amigos que nada, lhe davam as costas e o mandavam aos bancos, que chegaram para isto mesmo: exatamente para lhe tomarem a oficina, leiloada na porta do fórum e arrematada por seu melhor amigo.

Como arranjar emprego naquela idade? As fábricas de móveis fuleiros não queriam saber de oficial sabichão, para ficar pondo defeito em tudo. O jeito foi ajudar a mulher nas costuras, pregando botão, alinhavando, chuleando e passando. Mas a vista ruim não ajudava.
O coração não agüentou a humilhação e deu para falhar, a princípio rateando até que um dia parou de vez. Os filhos, estudando na capital, nem puderam ir ao enterro, por causa das provas. No velório, só a patroa e as ajudantes da costura. Na hora, por causa da chuva, nem foram ver a terra ser jogada em cima.

O coração da patroa, desgostoso, não durou nem mais três meses. Desta vez os filhos puderam vir enterrar a mãe. Aí fizeram a partilha daquele pouco de tudo. Sem briga, pois não eram gananciosos. Mas não deram muita importância às velharias, que distribuíram para a gente mais pobre ainda da vizinhança, já de olho arregalado no butim. E voltaram para a capital, onde cada qual fez sua vida, um prá cada canto, não tendo nem a casa dos avós para se encontrar e levar os filhos nos natais. Passavam os natais nas casas das sogras.

Poucos anos depois, nem lembranças deles eles tinham. A vida passou e acabou, nada espetacular, nada a ser registrado. Só uma gota de bondade e retidão, como a de um extrato, diluída num oceano, a espalhar um discreto perfume para lembrar que esta vida não significa nada e ninguém liga para ninguém, mas, mesmo assim, só elas é que importam.

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