Prefácio do Livro “Escandir” de Diógenes Pereira de Araújo.

by @ 23:35 on 18 setembro 2007.

A internet tem um grande significado em minha vida. Sou usuário da rede desde o tempo da bitnet e dos telnets, que, há 25 anos, intercomunicavam os mainframes das universidades. Com o advento dos PCs, ainda no DOS, antes mesmo da WEB, passei a usar os primitivos e-mails. Hoje a internet é uma ferramenta imprescindível de meu trabalho. Foi por meio dela que conheci minha atual mulher, Fátima, e fiz grandes amizades, especialmente nos últimos dois anos, com minha participação nas várias comunidades do Orkut. Dentre os grandes amigos que vim a ter, destaco a pessoa do Diógenes Pereira de Araújo, proprietário das comunidades ESCANDIR e ESCANDIR EDUCAÇÃO e um dos mais atuantes interlocutores de minha própria comunidade. Espírito a um só tempo lúcido e poético, além de coração de generosidade extremada, Diógenes impôs a si a missão de difundir o ato de escandir como norma de vida para alcançar a plenitude da auto-realização, como condição de felicidade e sabedoria.
Em tudo o que se faz, especialmente na apresentação de um argumento, na exposição de uma ideia ou o que se queira comunicar por meio de um texto escrito ou falado, em uma música ou obra de arte, há que se considerar dois aspectos: o conteúdo e a forma. Muitos priorizam o conteúdo, não se importando com a forma. Nisso cometem grave erro. É certíssimo que o conteúdo seja de importância fundamental. Ao se comunicar, há que se comunicar algo. Mas a forma não pode ser desprezada. Agindo assim, corre-se o risco de não se transmitir o conteúdo pretendido. Isso é especialmente verdadeiro nas artes, em particular na poesia, mas não somente. A prosa também precisa da forma. E pode-se, perfeitamente, fazer poesia em prosa. Aplicar-se em apurar a forma do que se escreve não só é um dever de cortesia para com o leitor, como também é um excelente exercício mental, para afiar a inteligência. Sem a forma, qualquer obra perde a maior parte de seu poder de comunicar a mensagem que pretende. O conteúdo só ganha significado, e a compreensão da mensagem só se dará quando ela for adequada e corretamente formatada. Isso inclui correção ortográfica e gramatical, além do uso de um vocabulário bem esco¬lhido e de um estilo apropriado à modalidade do tema. Mas, principalmente, é preciso haver coerência lógica na explanação e organização das ideias. Para isso, é preciso treino e este se obtém na prática, não só de escrever, mas de falar. É na fala que mais se treina o cérebro para argumentar corretamente, pois nela não há chance de correção. O que foi dito está dito. Retórica, é, pois, uma disciplina que deveria ser ressuscitada nos currículos escolares. Ler muito ajuda também, mas é preciso, principalmente, escrever. E o melhor é escrever poesia, em versos ou em prosa. Nesse mister, vale sempre escandir o que se vai dizer ou escrever. É um ótimo exercício de disciplina mental, que fortalece o cérebro, como o exercício físico fortalece a musculatura. Do mesmo modo que a musculação e a aeróbica modelam a musculatura e dão resistência física, a prática da formatação e a de escandir reforçam o vigor mental. Na comunicação por meio das artes plásticas e da música, então, a forma é parte essencial da própria mensagem. O que se pretende dizer com uma escultura está na própria forma da escultura.
Consideremos a nós mesmos. Certamente que somos feitos pelo conjunto de nossos átomos, mas esse mesmo conjunto, caoticamente empilhados, não é coisa alguma. Cada um de nós é o que é, em todos os aspectos, porque o conjunto dos seus átomos está organizado de certa forma. É a nossa estrutura que nos faz ser o que somos. Teoricamente, se passarmos a informação da localização de cada um de nossos átomos, poderemos ser reconstituídos, integralmente, com outros átomos. Esse é o princípio teórico do teletransporte, que a série de ficção “Jornada nas Estrelas” mostra. Assim também ocorre com qualquer mensagem. Seu conteúdo, isto é, aquilo que faz com que ela seja o que é, está essencialmente associado à estrutura, e, portanto, à forma com que as palavras são colocadas no texto. O próprio significado do que se diz depende de como se diz. Assim, pode-se dizer que não é apenas a substância, isto é, o conteúdo que determina a essência do que quer que seja, mas também a estrutura e, em muitos casos, a dinâmica, ou seja, o modo como essa estrutura evolve no tempo. Nesse sentido, posso dizer que o escandir, como um processo de desnudamento da estrutura, é ferramenta indispensável para que se possa revelar a essência do que quer que seja.
O exercício de escandir, quer pela pronúncia destacada das sílabas quer pela sua contagem com os dedos, é também benéfico para o psiquismo como um todo, porque promove a associação entre diferentes áreas do córtex, estimulando a formação de um número maior de ligações neuronais. Isso também acontece sempre que se força o cérebro a agir de modo inusitado, por exemplo,caminhando de olhos fechados ou de marcha a ré, tentando adivinhar as coisas pelo tato ou pelo odor, usando o relógio invertido ou comendo e escrevendo com a mão que não é a dominante. Esses exercícios também promovem a liberação de neurotransmissores, que aumentam a sensação de bem-estar e, portanto, promovem a auto-estima. Esta, na justa medida, é uma das condições da vida psíquica equilibrada. O exercício físico, sempre que envolva complexidade neurológica, também atua nesse sentido. É perfeitamente possível, por meio desses exercícios mentais e outros, mesmo na maturidade ou até na velhice, fazer crescer a inteligência, em todos os seus aspectos. Disciplinas como a Neuro-linguística e a Neuróbica fundamentam-se nessas considerações. Assim, o ato de escandir, como disciplina mental, promove a inteligência e aguça o espírito, não importa a idade de quem a ele se dedique.
Profissionalmente, minhas áreas de atuação são a Matemática e a Física, disciplinas que venho lecionando desde 1968, no nível médio e no superior. No Bacharelado em Física da Universidade Federal de Viçosa, fui professor de Física Quântica e Relatividade Geral por muitos anos. Um dos aspectos da Física Quântica, por isso seu nome, é a existência de grandezas que, em certas circunstâncias, admitem apenas uma coleção enumerável de valores, que, portanto, podem ser colocados em função de uma variável inteira, denominada “número quântico”. Isso cria um abismo conceituai entre ela e a Física Clássica, que considera qualquer valor do contínuo real acessível às grandezas. Escandir, isto é, contar as sílabas poéticas de um texto, é um processo quântico, por admitir apenas valores inteiros como respostas.
Assim, do ponto de vista do formalismo matemático da teoria, há grandes afinidades as quais me despertaram o interesse pela proposta do Diógenes, inclusive, também, por eu ter sido professor de Matemática Finita, ou Discreta, no Curso de Informática da Faculdade de Viçosa. Ao se passar para o conteúdo substantivo, todavia, não há coincidência, pois o objeto de estudo da Física, quântica ou não, é o mundo natural e seus fenômenos, enquanto o ato de escandir se faz sobre representações simbólicas da realidade ou do imaginário, que são as palavras. É preciso compreender que a ciência é um modelamento re¬presentativo da realidade, em termos de teorias que, especialmente na Física, são construídas com o uso da linguagem matemática e, ao se usar a Matemática, há uma codificação de signos que tomam seu significado internamente no próprio corpo da Matemática. A correlação entre o modelo do mundo que uma teoria constrói e a própria realidade é, inclusive, objeto de profundas reflexões sobre o significado da Matemática. Contudo, o que quero dizer, é que, qualquer ciência que use a Matemática como linguagem fundamenta no ritmo e na contagem, que estão subjacentes ao ato de escandir. Realmente, na teoria dos números, o fundamento está no conceito de número natural. O princípio da contagem estabelece a operação básica, que é a adição de números naturais (inteiros não negativos). Todas as demais operações aritméticas e, até mesmo, o conceito sofisticado de limite, no qual se baseia a análise matemática, alicerçam-se na operação de soma de números naturais. Um computador, em seus circuitos eletrônicos básicos, executa sim¬plesmente a operação de somar. Tudo o mais vem daí, inclusive uma edição de texto, como a que ora faço, ou um programa de manipulação de imagens ou de sons. Subtração, multiplicação, divisão, potenciação, radiciação, funções como logaritmos, seno, cosseno, qualquer uma, reduzem-se a somas de números naturais em um computador. Sistemas matemáticos, por mais complexos que sejam, como os inteiros, racionais, reais, complexos, quatérnios, matrizes, tensores, formas diferenciais, todos eles são construídos, em última análise, sobre os números naturais e a operação de soma. Esta é uma operação de contagem de elementos do conjunto formado pela união dos conjuntos disjuntos das parcelas, tanto que o processo primitivo com que os estudantes aprendem a somar é contando nos dedos das mãos. Assim o ato de escandir é, sem sombra de dúvida, o fundamento de toda a matemática.
Outra área de interesse que tem a ver com o ato de escandir é a música – uma das maiores expressões racionais do sentimento humano e das emoções. Essa questão do controle racional de emoção é muito interessante. De um modo mais amplo, o que se entende por emoção engloba uma série de manifestações somáticas, entre elas o rubor ou palidez facial, o tremor ou enrijecimento muscular, a sudorese, a dilatação ou contração das pupilas, a expressão dos lábios e dos olhos, a palpitação cardíaca, as lágrimas e muito mais. Num nível mais elaborado de controle consciente, a emoção se expressa pelas palavras, pelos gestos, pelo que se escreve ou se cria, em termos de arte. Se bem que os primeiros sinais dificilmente podem ser objeto de controle racional, os últimos certamente o são. Pode-se medir o que se diz mesmo em situações de extremo calor emocional, os gestos feitos, como controlar-se para não dar um murro, por exemplo. Assim o artista, ao criar, usa sua inspiração e sobre ela aplica seu conhecimento técnico do domínio da arte que está a produzir. Isso é especialmente verdadeiro na música, ainda mais a erudita. É possível produzir uma obra de arte plástica sem um domínio de técnicas refinadas, mas na música erudita não. No princípio, a adjetivação de erudita foi dada, exatamente, por oposição à popular, àquela música notada em pautas, que requeria erudição para ser entendida. No ato de compor, o compositor pode deixar fluir a emoção e produzir sua obra apenas dando formato técnico àquilo que brota de seu peito. Ou aplicar sua inteligência e sua racionalidade em dar a essa inspiraçao uma forma estudada e polida, dentro de uma estrutura estabelecida. Na música, isso sempre é feito em grau maior ou menor. Alguns elaboram menos a inspiração, outros mais. Esse é o caso, por exemplo, de Beethoven e Brahms. Este último foi um compositor que expressou intensa emoção de um modo disciplinado por sua férrea vontade e sua prodigiosa inteligência. Acho isso notável. Em geral, vejo que as grandes inteligências são geralmente acompanhadas, mas nem sempre, de refinada sensibilidade e elevado padrão de moralidade. É o “fator global” da inteligência. Assim concebida, a música mostra um grande paralelo com a poesia, tanto é que se pode falar de um “fraseado musical”. A marcação rítmica, exaltada por Diógenes no ato de escandir um poema, é um dos ingredientes essenciais da música, além da própria melodia, de sua harmonização e expressão em termos de andamentos e dinâmica. O que o metrônomo, a batuta do maestro ou a batida dos pés do executante fazem nada mais é do que escandir a música.
Neste livro, que Diógenes traz à luz depois de anos de aprofundamento em suas pesquisas do ato de escandir, o tema é analisado em toda a extensão e profundidade, que somente uma pessoa que toma para si esse empreendimento, como o principal legado que pretende deixar à posteridade, é capaz de fazê-lo.
Os aspectos históricos, linguísticos, psicológicos, neurológicos, estéticos, filosóficos e espirituais que o tema suscita e envolve são magistralmente tratados, levando o leitor a poder abraçar, com conhecimento e segurança, esse utilíssimo hábito mental. Além de tudo, o livro é um convite para que nos dediquemos, também, ao precioso e aprazível mister de escrever poesia. Sim, pois a mais perfeita realização do escandir se dá, exatamente, na composição de um poema.
Apesar de aparentemente serem sinônimos, poesia e poema possuem nuances de significâncias distintas. Enquanto poema é a forma literária em que o texto é composto em versos, implicando um ritmo, poesia é a qualidade do texto que provoca uma impressão estética com maior apelo à emoção, geralmente ligada à sua beleza e sensibilidade. Assim, pode-se ter poesia em um texto em prosa e um poema pode não ter poesia alguma. Letras de música são poemas, tenham ou não poesia. Na escrita de um poema, para que seja uma obra de arte, há que se ter poesia. Nisso se encontram a razão e a emoção. O ofício do poeta é levar ao leitor a magia da palavra em provocar emoção, tanto sensorial quanto intelectual. Não pretende ele convencer de tese alguma nem fazer proselitismo ou moralizar. O único compromisso da poesia é com ela mesma, com sua beleza intrínseca, que emana não só do tema, mas, principalmente, da forma com que é colocado, da melodia do som das palavras, do ritmo de sua silabação, da estrutura gráfica, das conotações semânticas, do duplo sentido,das alegorias e tudo o mais que se faça uso. Nisso o poeta se vale de sua sensibilidade e talento e, principalmente, de seu esforço e trabalho, calcado no cabedal de conhecimeto da língua que possua, de seu rico vocabulário, da memória de tudo o que já leu de poesia, de seu agudo senso de análise psicológica do ser humano e da fina percepção das nuances capazes de fazer o leitor rir, sorrir, chorar, enfurecer-se, enfim, de provocar o estado de comoção e prazer estético na leitura do poema.
Como a poesia é a beleza expressa em palavras, é claro que há grande poesia também na Matemática. Mas há matemática na poesia? Sim! Quando a poesia é metrificada isso é evidente. Mas, mesmo que não seja, todo poema possui um ritmo, uma ondulação musical no fraseado, coisas que refletem a matemática que está por trás do som. E se a poesia, como no caso da concreta, é mais para ser vista do que para ser ouvida, então entra aí a geometria das formas. Das formas das próprias letras e da disposição delas na folha. O movimento modernista foi iconoclasta com relação à poesia com métrica e rima. Atualmente, muitos poetas têm voltado ao ritmo da métrica e da rima como constituintes de grande significância na poesia. É a matemática na poesia. Na verdade, esse procedimento não cerceia a liberdade de expressão, mas exige a aplicação de uma inteligência e um esforço poético mais desenvolvido, para poder moldar as emoções e expressar os sentimentos dentro de um padrão formal estabelecido. Isso é o que mencionei linhas atrás, com relação ao ato de compor música clássica.
Quero concluir minhas palavras com algumas considerações sobre o valor da arte. Se o homem vivesse apenas para produzir o que seja útil, não haveria civilização. É claro que o engenho humano se volta, com proveito, para desenvolver inúmeras utilidades e nisso consiste o progresso. Mas, em verdade, o homem persegue o progresso para conseguir tempo livre para se dedicar àquilo que lhe dá, simplesmente, prazer. Assim, a arte, a ciência e a filosofia desenvolveram-se porque o homem aprecia o belo, tem uma curiosidade incansável e deseja doar de si mesmo, sem recompensa. Que utilidade tem uma poesia, uma sinfonia, ou uma escultura? Ou saber a origem do Universo, ou a prova do Teorema de Fermat? Para que saborear um vinho Bourgogne se só a água é necessária para matar a sede? Sim, são os supérfluos, as inutilidades que fazem a vida ter sabor e é para isso que se batalha. A visão que se tem do Paraíso é a de um lugar em que se vive em êxtase contemplativo, fruindo-se a máxima felicidade sem esforço para sobreviver. É o sonho do homem. Assim, quando se luta por um ideal, e por ele dá-se até a vida, esse ideal, como o próprio nome diz, não é nada de útil ou prático. É um valor transcendental, como a liberdade, a justiça, a felicidade. A vida só vale a pena ser vivida se, ao encerrá-la, tivermos a certeza de que, por causa dela, o mundo ficou melhor, mais fraterno, mais justo, mais harmonioso, mais igual para todos. O que vale na vida é a doação de si, fazer o bem pelo bem e não por alguma recompensa, nem mesmo a salvação eterna. A supervalorização do que é útil e do que é prático, em relação ao que é certo e verdadeiro, é uma inversão sem cabimento.
Diógenes, em sua luta por difundir o ato de escandir, coloca-se como a candeia que não deve estar sob o alqueire, mas no candeeiro, para que a tudo ilumine. Espero que a difusão deste livro seja, de fato, um acontecimento alvissareiro para o processo educacional de nosso país, que, cada dia mais, ressente-se de um viés exageradamente tecnicista, em detrimento de uma formação completa do cidadão, que inclua, com toda a certeza, o aprimoramento da inteligência e do discernimento e a aquisição de valores morais e espirituais que o processo de escandir, como bem vai demonstrar a leitura do livro, é capaz de propiciar.

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