4 dezembro 2012

Preconceito ateísta

by @ 15:04. Filed under Ateísmo, Religião

Acho estranho que muitas pessoas que creiam em Deus considerem preconceito meu achar que estejam equivocadas. Elas mesmo são preconceituosas umas em relação às outras. Os protestantes consideram que os católicos estão completamente equivocados em rezar para Nossa Senhora e para os santos. Os judeus acham que os cristãos estão completamente equivocados em supor que Jesus seja o messias anunciado pelos profetas do Antigo Testamento. Os espíritas acham que os cristãos estão completamente equivocados em supor que Jesus Cristo seja Deus. Os muçulmanos acham que os judeus e cristãos estão completamente equivocados em considerar que Deus tenha três pessoas. Judeus, cristãos e muçulmanos acham que Brahma, Vishnu e Shiva são tão ficcionais quanto Zeus, Apolo, Athena ou Afrodite. Mas cada um acha que suas convicções são as corretas. Ora, se todos os religiosos pensam que os religiosos de outras religiões estão completamente equivocados, eu simplesmente acho que não há nenhuma que não esteja equivocada. Nem por isso eu acho que pessoas crentes, por isso, sejam burras e ignorantes. Estas as há em qualquer religião, tanto quanto entre ateus e agnósticos. Como há cultas e inteligentes de todas as convicções. Bem como pessoas do bem e do mal, bondosas e malvadas, honestas e desonestas. Isso não tem nada a ver com a religião professada ou a falta dela. É da índole da pessoa. O que eu acho é que uma pessoa precisa ter a mente aberta para refletir sobre os fundamentos de sua crença e discuti-los consigo mesma, para confirmá-los ou rejeitá-los. Não se manter presa a qualquer religião porque seja a que todos à sua volta professem. Tem que se inteirar das outras propostas e examiná-las. Inclusive da proposta ateísta. Por isso é que acho que religião deveria ser matéria obrigatória do Ensino Básico, ao lado de Filosofia, Sociologia e Psicologia. Para que todas fossem apresentadas aos jovens a fim de que escolhessem. Conheço muitas pessoas que mudaram de religião. Elas viram que a sua antiga não era adequada. Mas não examinaram todas. Poucos cristãos conhecem as propostas do Islã. Muitos, eu acho, se tornariam muçulmanos, se conhecessem. Ou judeus. Da mesma forma judeus e muçulmanos não conhecem a doutrina cristã. Ou o budismo, o hinduísmo, o zoroastrismo e outras possibilidades. Isso é muito ruim. Especialmente, acho que todos deveriam conhecer os argumentos agnósticos e ateístas e então examinarem tudo com serenidade, racionalidade e lucidez. Sem paixão, para, daí, tomarem uma decisão. Mas acho muito perigoso se filiar a uma particular denominação religiosa. Como acho ruim pertencer a um partido político. O bom é ter a mente aberta para aceitar parte de uma, parte de outra e parte de nenhuma. Todas têm algo de bom e algo de ruim. Inclusive o ateísmo. Há que se ter a mente aberta para todas as possibilidades. Sem preconceito a respeito de nenhuma delas. Exceto com relação à intransigência e à intolerância. Para isso pode se ter preconceito.

25 setembro 2012

Arte e Ateísmo

by @ 18:27. Filed under Artes, Ateísmo
Interessante como a religiosidade é artisticamente inspiradora. Um dos problemas que vejo no ateísmo é a ausência de produção artística relacionada: músicas, pinturas, esculturas, edifícios, danças, teatro, poesia. A literatura em prosa ainda abriga obras de inspiração ateísta, mas, o resto, é ridículo. Como disse o Alain de Botton, esse conforto estético que a religiosidade oferece precisava ser provido, também, pelo ateísmo. Sem dúvida que isso é possível. É o tipo de coisa que quero fazer.
O ateísmo não é frio e nem exclui elevação espiritual e transcendência, desde que isso seja entendido não como uma orientação para o sobrenatural mas para os aspectos mais elevados da sensibilidade e da consciência. Em suma, para a virtude. E a virtude não tem nada a ver com religiosidade, mesmo que as religiões a cultivem. É só uma questão de achar a inspiração. Quem sabe não se poderia compor um épico como o Mahabharata com inspiração ateísta. Gostaria de fazê-lo, mas é trabalho para toda uma vida.
Eu me achei uma pessoa muito melhor depois que me tornei ateu do que antes. Pois vi que fazer o bem pensando na recompensa eterna ou não fazer o mal para não ir para o inferno é uma tremenda mesquinharia e falta de caráter. Sem Deus eu vejo muito mais beleza na natureza e no Universo. Ainda mais como físico e cosmologista, eu me maravilho com a própria natureza, mesmo que reconheça seus horrores e imperfeições, que ela não teria se tivesse sido feita por algum Deus. E como músico e pintor eu me extasio com a beleza que a arte é capaz de expressar. Isso me dá enlevos espirituais muito mais altos do que minha anterior religiosidade, em que tudo era castrado pela noção de pecado.

11 setembro 2011

Ateísmo é apenas a negação de algo

by @ 23:17. Filed under Ateísmo

A ética não é de origem divina. Ela advém do fato de sermos gregários e de que, como membros do organismo social, não podemos agir de forma a prejudicá-lo. É daí que vêm os princípios norteadores da ética e que a moral precisa seguir, mas nem sempre o faz. Ateus não são necessariamente niilistas. E, podem crer, existem ateus sim.
Quanto a dizer que negar a Deus é admitir sua existência, afirmo que é uma tolice. Nego a existência de unicórnios e nem por isso eles existem.
Sobre Espinosa, concordo e discordo. Vejamos. Para começar é um dos meus filósofos prediletos. De fato, como ele disse, a própria natureza é a fonte de si mesma. Não há causa extrínseca ao Universo para ele. Mas o evento de sua passagem da inexistência para a existência não foi produzido por ele mesmo, pois não existia. Trata-se de um evento incausado. Isto é perfeitamente normal e existem miríades deles a todo momento. Incausalidade e indeterminismo são características fundamentais da natureza. Não a sua necessidade, mas a sua possibilidade. Minha principal objeção a Espinosa, contudo, está em sua consideração de que a própria natureza, isto é, o Universo, seja Deus. O conceito de Deus, quer como entidade transcendente quer como imanente, envolve a consideração de que possua faculdades como sensibilidade, inteligência, vontade e poder de ação. Ora, o Universo não pensa, não possui uma mente. Todas as ocorrências que se dão com ele não possuem motivo e nem propósito algum. Não há nenhum plano, não há objetivo. Tudo vai acontecendo por acaso, devido às coincidências. Isto não caracteriza Deus nenhum. Deus não existe nem como transcendente nem como imanente.
A consideração de que exista algo, mesmo que não seja um Deus, isto é, que não tenha consciência, mas que tenha poder pode ser admitida. Mas esse poder não é dirigido para nada. Trata-se apenas da capacidade de operar. Isto não precisa ser considerado como atributo de nada senão da própria natureza.
Outro ponto é sobre o conceito de “Energia”. Muitos consideram que “Energia” seria algo com poder para provocar as ocorrências do Universo em razão de algum plano ou propósito. Energia, em verdade, é apenas um atributo dos sistemas físicos que os capacita a realizar trabalhos de alteração do estado do Universo. Por estado se entende o modo como o Universo está, tanto em termos de sua configuração como dos processos que estão se dando e das tendências de alteração desses processos. Isto envolve desde a expansão cósmica até os pensamentos e emoções humanas. Pois bem, toda alteração no estado do Universo só se dá com transferência ou transformação de energia. É o combustível de seu funcionamento. Para que haja isto é preciso que sub-sistemas do Universo possuam níveis diferentes de energia e, em interação, permitam essa troca entre eles. Ao fim da troca o total de energia permanece, mas sua distribuição se altera, caracterizando um novo estado. Uma grandeza, a entropia, mede essa alteração e indica o sentido do tempo. A morte térmica do Universo é a chegada ao estado em que todos os subsistemas tenham atingido seu nível mínimo de energia, impossibilitando as trocas. Então a entropia terá atingido seu valor máximo, nada mais acontece, nem a expansão e o tempo pára de passar. Mas a energia não tem poder de induzir as ocorrências. Elas se dão pelas interações, que são fortuitas, acontecendo em virtude das mudanças de configurações (posições relativas). O mais interessante nisso tudo é que o indeterminismo não permite prever a consequência de cada situação, mesmo que as condições sejam conhecidas. Então a evolução do estado do Universo é algo imprevisível. Destino não existe. Daí é que vém o livre arbítrio, isto é, a liberdade de escolha. O determinismo só existe nos fenômenos macroscópicos, em razão da convergência probabilística dos eventos compostos por muitos outros elementares.

20 agosto 2011

10 MITOS SOBRE OS ATEUS

by @ 23:17. Filed under Ateísmo

(Texto de Carlos Wilker)

1. OS ATEUS SÓ ACREDITAM NAQUILO QUE VEEM E TOCAM.
A maioria dos ateus não acreditam em deus por um ou todos esses motivos a seguir:
a) consideram os argumentos pra existência de deus pouco convincentes
b) alegam que na ausência de evidências que deus existe, o natural é pensar, agir ou viver como se ele não existisse
c) alegam que há razões que apontam pra inexistência de um deus.
d) consideram a ideia de deus contraditória, desprovida de lógica.
Nenhum ateu que tenha conhecimentos básicos sobre o assunto, alegará que não acredita em deus por que não ver nem toca.
Alguns comparam deus ao amor e ao ódio, já que estes não podem ser vistos nem tocados, mas isso é sem sentido. Deus existindo, é um ser pessoal, independente, criador de tudo que existe. O amor e ódio são definições de coisas que sentimos e fazemos, são coisas abstratas, que dependem de seres humanos pra existir. Por exemplo: se amanhã não houver mais nenhum ser humano no universo, ainda ódio? Claro que não!

2. OS ATEUS ALEGAM QUE OS SERES HUMANOS SÃO RESULTADO DE UM PROCESSO DE EVOLUÇÃO E QUE O UNIVERSO VEIO DE UMA EXPLOSÃO DENOMINADA BIG BANG.
Quem diz que os seres humanos chegaram até aqui através da evolução, é a biologia, não é o ateus. Quem diz que o universo veio do Big Bang, é a física, a astronomia, a cosmologia, não o ateus. Cabe ao ateus concordar ou não com isso.

3. OS ATEUS NÃO ACREDITAM EM NADA.
O ateísmo é apenas a ausência de crença em divindades, apenas isso, nada mais que isso. Um ateu pode acreditar em vida extraterrestre, acreditar que o mundo vai melhorar daqui há mil anos, etc. Ele só deixará de ser considerado ateu quando passar a acreditar na existência de divindades, de deuses.

4. O ATEÍSMO NÃO EXPLICA A ORIGEM DA VIDA, A ORIGEM DE TUDO QUE EXISTE, A COMPLEXIDADE DA NATUREZA, DO UNIVERSO, DO CORPO HUMANO E MUITAS OUTRAS COISAS.
Realmente não explica. O ateísmo não se propõe a explicar ABSOLUTAMENTE NADA. Isso é papel das ciências. Ateísmo é apenas ausência de crença em divindades. Quem estuda questões relacionadas a vida e ao universo, são áreas como a biologia e a física.

5. OS ATEUS DIZEM QUE NÃO ACREDITAM EM DEUS, MAS ESTÃO SEMPRE FALANDO SOBRE DEUS. SE NÃO ACREDITAM, POR QUE SE PREOCUPAM TANTO? POR QUE ESTUDAR ALGO QUE NÃO ACREDITAM EXISTIR?
A principal característica de um ateu é o fato dele não acreditar em deus, portanto, é normal que ele fale muito a palavra “deus”. E o fato de estudar algo, não significa que você tenha que concordar ou acreditar naquilo que você estuda. Exemplo: existem pessoas que gostam de estudar sobre as guerras, mas isso não quer dizer que elas acreditem que guerras sejam uma solução ou que gostem de suas consequências.
Muitos são fascinados e gostam de estudar a mitologia grega, mas isso não quer dizer que eles acreditem nos deuses gregos.
Eu considero a religião algo que influencia poderosamente as pessoas desde tempos antigos. Pra opinar sobre algo, nada melhor que começar conhecendo, não acha?

6. OS ATEUS QUEREM QUE TODO MUNDO PENSEM IGUAL A ELES.
Infelizmente, existem fanáticos em toda parte. Mas um ateu de bom senso sabe que sempre vai existir incontáveis formas de opiniões e crenças. E que uma unanimidade em relação a isso, é algo fantasioso. Quem vive pregando na TV, nos rádios e de porta em porta não são os ateus.

7. MUITOS COMETERAM E COMENTEM CRIMES POR QUE SÃO ATEUS.
Muitos ateus cometeram e comentem crimes por que são pessoas más e não por que são ateías. O ateísmo não é moral nem imoral, é amoral. Alguém que faz uma boa ou má ação e diz que fiz isso por que é ateu, estar blefando. Ambos não fazem sentido. Repito: ateísmo é apenas ausência de crença.

8. O DEUS DO ATEU É ELE MESMO. ELE É SEU PRÓPRIO DEUS.
Se com deus você quer dizer “seu guia”, verdade. Quem me guia sou eu mesmo, sou responsável por minhas ações e palavras. Isso vale pra qualquer ser humano. E se você quer dizer que o ateu acredita nele mesmo, também é verdade. Ninguém melhor pra acreditar que você mesmo, naquilo que você sente, pensa e é.

9. É IMPOSSÍVEL VIVER SEM CRER EM ALGO, TODO MUNDO CRER EM ALGUMA COISA. PORÉM, PRA OS ATEUS ISSO PARECE SER DIFERENTE.
Claro, todo temos crenças, mas nem toda crença é religiosa. Cada um tem suas opiniões, seu ponto de vista. O problema é quando se fala em crença, se pensa logo em religião, em divindades. Milhões viveram e vivem muito bem sem crenças religiosas.

10. OS ATEUS CREEM NA CIÊNCIA.
Os ateus consideram a ciência o melhor caminho pra se explicar o que nos rodeia. Consideram a ciência a melhor arma pra se buscar respostas e explicações a cerca do ser humano, da natureza, do universo, etc. Mas isso não tem nada a ver com crer na ciência como se ela fosse um deus.

29 junho 2011

Ateísmo, ceticismo e niilismo

by @ 12:24. Filed under Ateísmo

Ateu, por definição, é a pessoa que considera que não existam deuses de espécie alguma.
Cético é a pessoa que não acredita em nada sem comprovação ou, pelo menos, fortes indícios de credibilidade. Um cético ortodoxo em seu ceticismo, em verdade, não crê. Ele sabe, com garantia, ou não sabe. Mas é impossível viver sem alguma crença, desde que com uma base grande de plausibilidade e de forma provisória. Por exemplo, não é garantido que exista um mundo externo à nossa mente. Mas acreditamos que sim.
Os conceitos são distintos, de modo que é possível ser ateu sem ser cético, bem como ser cético sem ser ateu.
Apesar disso, há uma forte correlação entre as duas posturas. A maioria dos ateus é cética e vice-versa.
A descrença em deuses, normalmente (mas nem sempre), advém do ceticismo, pois eles não possuem evidências nem provas de sua existência.
Da mesma forma, quase todo ateu não acredita em espíritos e elementais de qualquer tipo, nem em superstições, crendices e pseudociências.
Também não acredita em teorias de conspiração, parapsicologia, contatos com extraterrestres e coisas do tipo.
Isto porque, geralmente, é cético e tais fatos não têm comprovação objetiva nenhuma.
Mas, se o ateu não for cético, pode acreditar. Tais casos existem.

Existe um ceticismo filosófico, o pirrônico, que não admite a possibilidade de se conhecer a verdade e existe um ceticismo metodológico, que, mesmo admitindo que se possa conhecer a verdade, sempre coloca alguma dúvida sobre o fato de se já a ter alcançado ou não. Este último ceticismo é o que alavanca a ciência a sempre perseguir a busca da verdade, mesmo sem ter a certeza de já a ter obtido e estando sempre disposta a rever qualquer proposição, em razão de novas informações. Isto não é dogmatismo cienticifista, mas uma postura sensata e madura, pois não se pode garantir que se já tenha obtido a verdade, mas apenas que se tem a melhor aproximação da verdade, face os conhecimentos disponíveis.

Existe o ateísmo forte ou dogmático, que considera que a inexistência de deuses é um fato inconteste e o ateísmo fraco ou cético que considera que não há provas de que existam quaisquer deuses, logo, como eles não são evidentes, é melhor considerar que não existem, mas que se dispõe a aceitar sua existência, caso comprovada. A maioria dos ateus que conheço, como eu, enquadra-se nesta última posição. O agnosticismo, por sua vez, considera que é impossível provar se existe ou não algum deus, ficando a escolha por conta do palpíte.

Muitos confundem o niilismo com o ateísmo. A razão é que colocam o fundamento da moral na pretensa revelação divina que, não existindo, autorizaria automaticamente qualquer comportamento. Isto é falso. O fundamento da moral deve ser a ética. Enquanto a moral é uma disciplina prescritiva, a ética é filosófica e investiga as razões para que qualquer ação tenha algum balizamento. Ética não tem nada a ver com nenhuma revelação divina. Seus fundamentos estão no fato do homem ser um animal social e o bem estar da sociedade requerer que cada um de seus membros tenha uma conduta que não seja prejudicial à coletividade e, em decorrência a cada um de seus membros.
Em verdade há três critérios éticos norteadores da moral: o deontológico, o teleológico e o da reciprocidade. Pelo primeiro, toda ação só é lícita se puder ser erigida como prescrição universal, pelo segundo, se promover a maximização do bem estar para o maior número de seres e pelo terceiro se for aquilo que se deseja para si mesmo. Uma síntese trialética delas pode ser feita pela aplicação da razão e do bom senso na análise da moralidade de cada ato. Isto não tem nada a ver com a existência ou não de deuses.
Assim, o ateísmo não implica no niilismo, pois a vida em sociedade impõe a todos uma conduta ética, creiam ou não em deuses. Além disso, a axiologia, ou a consideração dos valores e das virtudes, é algo válido por si mesmo, sem apelo a nenhuma revelação, mas sim uma questão a ser considerada pela razão.
O niilismo, pois, não encontra justificativa, mesmo sabendo que não existem deuses.

25 novembro 2010

Ateísmo versus Anticristianismo

by @ 14:27. Filed under Ateísmo, Religião

O anticristianismo não é uma posição necessariamente ateísta, pois os muçulmanos e os judeus são anti-cristãos e não são ateus. Os espíritas, hinduístas e budistas não são necessariamente anti-cristãos, apesar da religião deles não considerar a divindade do Cristo. Considero o ateísmo uma posição mais ampla e sustentável, pois declara a inexistência de deuses, como concebidos por qualquer religião ou crença. Filosoficamente vém a ser a concepção “fisicalista” ou “naturalista”, antes chamada de “materialista”, que supõe que a única realidade substancial existente é a física, isto é, que tudo que é feito de alguma coisa substancial é feito de campo, matéria ou radiação, não existindo espíritos nem qualquer tipo de entidade sobrenatural, feita de alguma espécie de “matéria sutil”. Certamente que o fisicalismo admite a existência de realidade abstratas, como idéias, conceitos, números ou outras do tipo. Só que elas não são substanciais, isto é não existem objetivamente no mundo, fora de mentes que as concebam. Assim um fisicalista considera Deus como um conceito, isto é, uma abstração, não tendo correspondência a nada real e objetivamente existente fora das mentes. Nesta concepção, Deus não é um ser, mas uma entidade ideal. O fisicalismo também não considera que as idéias tenham uma realidade em si mesmas, mas que sejam produtos da mente, que é, simplesmente, um cérebro em funcionamento. O ateísmo fica sendo, pois, uma decorrência natural do fisicalismo, pois o conceito de deuses é de que sejam espíritos dotados de poderes mágicos para atuar sobre a natureza, à revelia das leis que descrevem seu comportamento. Acho, pois, mais interessante pugnar pelo ateísmo do que pelo anticristianismo, que decorre diretamente do ateísmo, mas não tem significado fora dele.

Concordo com a distinção entre os conceitos de ser contra o Cristo, crendo que ele seja Deus, de ser contra os cristãos, como pessoas e de ser contra o cristianismo. Certamente que não me enquadro nas duas primeiras posições e que sou filosoficamente contra o cristianismo. Apenas argumento que não basta ser contra o cristianismo, mas é preciso ser contra a idéia da existência de qualquer Deus. Considero que os episódios hediondos da história do cristianismo, como as cruzadas, a inquisição, a venda de indulgências, o apoio aos nazistas pela Igreja Católica, a pedofilia de padres ou o estelionato de pastores não pesam uma grama contra a veracidade de sua doutrina e não são motivos para se deixar de ser cristão, desde que se seja um cristão que reconheça esses erros em sua religião e os condene. Considero também que a doutrina cristã é um grande engodo e que seja preciso esclarecer as pessoas, de forma didática, convincente e respeitosa, sobre o engano que cometem por serem cristãos, da mesma forma em relação a todas as demais religiões. Para mim, isto é um dever de consciência, de modo que o dito “neo-ateísmo”, isto é o proselitismo ateísta, é algo inteiramente justificável, no sentido mesmo de desconverter os crentes, é claro, sem pressão e com respeito. O mocinho não pode se valer de todos os recursos do bandido.

Concordo com sua definição da diferença entre religião e crença no outro vídeo e ainda vou comentar mais sobre isto, no outro tópico.
Não acho que um ateu deva se ater apenas à lei para balizar seus atos, mas à ética e a moral, que têm um significado em si mesmas, independente de religiões e de leis. Assim a traição conjugal é errada, mesmo que nenhuma lei a proíba, porque é imoral e é imoral no aspecto de ser uma traição à confiança do cônjuge. Admito a pluralidade amorosa e a não exclusividade conjugal, desde que consentida por todos os envolvidos. Mas a mentira é imoral e ninguém está livre da ética, nem um ateu.

Ao afirmar que é preciso se fazer um proselitismo ateísta, tentando desconverter os crentes para que deixem de acreditar em Deus, não estou infringindo a liberdade de crença de ninguém. Estou apenas sendo caridoso para com todo mundo, abrindo suas mentes para que vejam seu grande equívoco. Não pressiono ninguém e não desdenho da crença de ninguém. Mas acho que, se não fizer a minha parte, estou sendo conivente com a mentira. Não acho válido “demonizar” as religiões, no sentido de fazer acusações não procedentes, para que as pessoas tenham aversão às religiões. Como já disse, os atos condenáveis que religiosos praticam e praticaram ao longo da história não pesam uma grama contra suas doutrinas. O importante é mostrar em que AS DOUTRINAS estão erradas e não que as práticas dos religiosos sejam erradas, quando o forem, pois isto não compromete a doutrina. E isto porque não é possível se viver na ilusão. Considero que religiosos têm sim, o direito de propagar sua crença, desde que não forcem ninguém a aceitá-las ou pelo fio da espada ou por outra coação qualquer. Do mesmo modo os ateus. Isto não fere em nada a liberdade de culto e de crença. Cada qual que sopese os argumentos dos missionários das diferentes crenças ou da descrença e decida por que optar. Ateus estão se tornando idealistas sim, e isto é muito bom, pois o ideal de se ter um mundo inteiramente ateu é um grande ideal a ser perseguido. Isto não desrespeita o direito de escolha de ninguém. É muita pretensão sim, mas não é nada utópico, como também é o caso do ideal anarquista. Para mim a tendência natural da humanidade é tornar-se atéia e anarquista, o que fatalmente ocorrerá em poucas dezenas de séculos. Mas isto pode ser abreviado para poucos séculos se se fizer um trabalho educativo persistente.

Concordo com você em temer lideranças ateístas prepotentes que queiram impor o ateísmo como dogma, sem respeitar o direito de escolha de cada um. Isto pode ser evitado se o ateísmo se irmanar com o anarquismo, da modalidade que luta pacificamente para a abolição dos governos, do dinheiro, da propriedade e das fronteiras.

Outra coisa que não considero válida é a opção pelo ateísmo como meio de apaziguar a consciência pelo cometimento de “pecados”, que levariam à danação eterna, no contexto das religiões. A pessoa quer praticar atos condenados pelas religiões sem ficar preocupado com poder ir para o inferno e, então, adota o ateísmo, pois assim não acredita mais no inferno, podendo pecar à vontade. Para mim isto é tão abjeto quanto a virtude de um crente que não peca exatamente para não ir para o inferno, em que crê.
Considerar que não existe Deus nenhum não exime ninguém de uma conduta moralmente correta. A diferença está nos fundamentos em que a moral ateísta é erigida. A noção de certo e errado, de bom e mau, do bem e do mal, de honesto e desonesto, de justo e injusto, de bondade e crueldade, de generosidade e de egoísmo, de solidariedade e de desprezo, tudo isto que consiste nos critérios de validação moral das ações humanas não se prende a nenhuma prescrição da divindade, mas aos ditames filosóficos da ética. E a ética é, justamente, a parte da filosofia que determina que critérios devem ser obedecidos para atribuir um valor moral às ações, como boas ou más. Estes critérios se prendem a três considerações: se a ação é maximizadorar da felicidade ou redutora do sofrimento para o maior número de seres (critério utilitário), se pode ser erigida como norma geral a ser prescrita para todos (critério imperativo) e se é algo de que se desejaria ser objeto (critério reflexivo). Todos estes critérios são passíveis de críticas e circunstâncias há em que a moral exige que sejam desobedecidos. O importante, contudo, é que nenhum se prende a determinações extrínsecas ao homem e coloca a moral como uma norma disciplinadora dos relacionamentos interpessoais, com a preocupação na coletividade e no outro. Atualmente também se coloca a preocupação com a natureza como um determinante do caráter moral das ações, como não poderia deixar de ser.

19 novembro 2010

Inexistência de Deus

by @ 11:47. Filed under Ateísmo, Religião

Certamente  que posso concluir pela inexistência de Deus a partir de que existem religiões diferentes e, como a verdade não pode deixar de ser única, nem todas podem ser verdadeiras. Até aí, acho que nenhum crente, de nenhuma religião, pode me contestar. O passo seguinte é considerar que, possivelmente, mas não certamente, nenhuma é verdadeira. Isto é algo de que não se pode escapar, uma vez que se verifica que as religiões surgiram de uma institucionalização de mitos ancestrais dos diversos povos. A não ser que algum deles tenha sido privilegiado por Deus como depositário da verdadeira revelação. A questão é, como saber qual deles? Acho que todo mundo há de concordar que a fé não pode ser critério de verdade, pois há pessoas de fé em todas as religiões. Algumas estarão enganadas, ou todas, mas não estou dizendo que sim. O critério que permitirá decidir deverá ser, pois, extrínseco às religiões. O único modo é fazer um trabalho de detetive e se buscar evidências e provas que permitam tomar a decisão. Neste ponto é que não vejo, em nenhuma das religiões, provas ou evidências suficientes que suportem a afirmação de cada uma de ser a verdadeira. Que os seguidores das diversas religiões, por favor, me apresentem. Note que o fato de suas escrituras afirmarem a veracidade delas não é prova de que o sejam. Em não me estando patente que nenhuma seja verdadeira, opto por não me filiar a nenhuma delas.
Não possuir religião nenhuma, contudo, não significa que não se creia em Deus. Pode-se crer em Deus e não ser filiado a nenhuma religião. O ponto principal do ateísmo não é ser contra a nenhuma religião mas considerar que Deus não existe. Logo as religiões, que têm por base o fato de Deus existir, exceto, possivelmente, o Budismo, não teriam razão de ser. Toda e qualquer facção ateísta tem em comum considerar que Deus não existe.

Por outro lado, não há, também, evidências e nem comprovações de que Deus não exista. Note-se contudo, que Deus não é uma evidência sensorial direta, como o Sol, por exemplo. Assim, considerar que exista requer uma demonstração. Não se conseguindo demonstrar isto, deve-se admitir que não exista e não o contrário. Isto é, não é preciso provar que Deus não existe para considerar isto. Basta não se conseguir provar que exista. Além disso, o fato de haver múltiplas concepções da divindade é fato altamente indicador de que ela não existe, pois, se existisse, muito provavelmente todos, de forma independente, deveria chegar à mesma concepção a seu respeito. É por isto que os ateus consideram que a existência de múltiplas religiões é um indício da inexistência de Deus. Outros são a existência do mal, o não atendimento das preces dos justos, as grandes imperfeições da natureza (a existência de doenças, terremotos, furacões, vulcões, enchentes, tsunamis e várias catástrofes naturais) e outras coisas.

A inferência de que a existência de múltiplas religiões seja um indício da inexistência de Deus certamente que é feita pelo intelecto, que é algo natural, mas é só do que dispomos. O que a Bíblia, ou qualquer outra escritura considerada sagrada pelos adeptos da religião que lhe corresponde, diz a respeito, não é garantida nenhuma de que seja verdade, pelo mesmo raciocínio. Em qual das escrituras acreditar, se umas contradizem às outras? Por que critério? Outra coisa: Porque o sobrenatural, “por definição” estaria fora da capacidade de concepção do intelecto humano?
Quanto à existência do mal, é claro que exclui a existência de um Deus simultaneamente onipotente e bom, pois como o mal existe, e Deus sabe disso, ou não quer suprimí-lo ou quer e não consegue. No primeiro caso não é bom, no segundo não é onipotente. De qualquer modo não se enquadra no conceito de Deus. E não falemos apenas no mal causado pelos homens, pois a natureza é fonte de muitos males.
Quanto ao não atendimento das preces dos justos, isto é mais do que patente. Quantas pessoas bondosas e justas oram a Deus suplicando pela mitigação dos males que as afligem e não são atendidas, enquanto reputados injustos e pecadores gozam de boa saúde, fortuna e felicidade. Que Deus bom e justo e este?
Não vejo em que reside a imaturidade em avocar as imperfeições patentes da natureza e as mazelas humanas para justificar a inexistência de Deus. Por outro lado, a sintonia fina que permitiu a existência de nossa vida, mesmo extremamente improvável, não é impossível e, se existimos, é porque exatamente isto é que se deu, caso contrário não existiríamos. Não é preciso supor nenhum planejamento, intenção ou propósito para que todos os acontecimentos levassem a nós. O acaso é perfeitamente capaz de explicar qualquer coisa.

A maior parte dos teístas se aferram à sua concepção de que existe um Deus e consideram falaciosos todos os argumentos em contrário. Nada do que eu disse consiste em falácia.  Sobre a existência de múltiplas religiões, eu não concluo que isto prova a inexistência de Deus, mas digo que é um forte indício nesse sentido. A mesma coisa se dá sobre as correntes filosóficas e psicológicas. O fato de que, a certo respeito, haver várias “escolas de pensamento” inteiramente divergentes, é, também, um forte indício de que, provavelmente, todas estão erradas. Por isto é que a psicologia não se estabeleceu com um estatuto de ciência até hoje. Parece que as neurociências, afinal, serão capazes de prover a psicologia deste estatuto. A filosofia está a carecer de uma metodologia de filosofar que faça com que suas proposições possam ser demonstradas de modo inequívoco, sem possibilidade de não aceitação pela comunidade filosófica, até que novas evidências venham a derrubar o que se tem por estabelecido. Quanto à argumentação de Epícuro, gostaria que me apresentassem uma refutação, pois, pelo que me consta, até hoje, isto ainda não o foi. Concordo me que não há razão para se fazer qualquer prece para atender algum pedido, pois Deus, sendo onisciente, já sabe de tudo. O que me estranha é que justos sofram e pecadores gozem de paz, alegria e felicidade. Em verdade não há motivo para se fazer prece de qualquer espécie, mesmo de louvor, pois, se Deus existe, ele sabe quem o ama e, se não existe, para quem dirigir as preces?

Concluir que o Universo foi planejado não é nada “lógico”. É apenas um palpite. Não existe indício nenhum de planejamento. Aliás, se foi planejado, então seu engenheiro é muito incompetente, porque ele é extremamente imperfeito.

24 julho 2010

Respeito aos ateus

by @ 1:08. Filed under Ateísmo, Religião

Um crente xingar ateus  depõe contra as pessoas religiosas sérias e bem-intencionadas. Respeito as crenças de todos, apenas lamento seu equívoco e procuro esclarecer de forma lúcida e cortez. Estou aberto a críticas bem fundamentadas e respeitosas. Se você me convencer que estou errado, mudo o meu pensar. Mas isto não será fácil, pois minhas convicções ateístas são fruto de prolongados e profundos estudos e reflexões, já que isto não é algo leviano, uma vez que envolve toda a minha cosmovisão. Espero ser respeitado da mesma forma que respeito quem pensa diferente de mim. Só não respeito o escracho, a arrogância, a presunção e a hipocrisia, bem como a crueldade para quem tenha opiniões diversas. Meu ateísmo não faz de mim um ser humano menos ético, compassivo, tolerante, honesto, justo, probo, solidário, virtuoso e bondoso do que qualquer outro que assim o seja como crente. Pessoas vis, covardes, mesquinhas, intolerantes, malvadas, cruéis, desonestas, corruptas e venais as há entre crentes e descrentes, do mesmo modo que inteligentes ou burras, cultas ou ignorantes, diligentes ou preguiçosas, altruístas ou egoístas, democratas ou ditatoriais, virtuosas ou pecadoras. A diferença está apenas em considerar se Deus existe ou não, sem outras implicações.

Fé e crença

by @ 1:03. Filed under Ateísmo, Religião

Quanto à fé, esta difere de crença pelo seguinte:

Crença é a aceitação de assertivas não comprovadas nem evidentes face a sua plausibilidade e os indícios a seu favor. Por exemplo eu creio, sem provas, de que existe um mundo objetivo fora da minha mente. Eu creio que é possível se estabelecer uma convivência harmônica e fraterna entre os homens. Eu creio que é possível se fazer justiça na sociedade. Eu creio que é possível se chegar a um conhecimento sempre mais próximo da verdade de forma racional. Assim por diante…

Em meu blog escreví um texto sobre minhas crenças fundamentais:

http://wolfedler.blogspot.com/2008/11/meu-credo.html

A fé, por outro lado, é uma crença sem apoio em indícios que a suportem. Isto é meramente uma definição.

As religiões se fundamentam em uma fé e em uma doutrina em torno dessa fé, a partir da qual é erigida uma organização que envolve estruturas administrativas, pessoal, rituais, edificações e muito mais.

Existiram, existem e poderão vir a existir várias religiões na humanidade, algumas já extintas. Cada uma delas possui um conjunto de artigos de fé, professados pela coletividade que a segue. Tais artigos se referem, quase sempre, à relação do homem com a vida e a morte, bem como à existência e características de suas divindades e outros seres espirituais envolvidos. Não havendo nada de sobrenatural não se pode falar de religião, mas apenas de algum código de conduta ou ideologia política.

As afirmações que as diferentes religiões fazem a respeito desses assuntos são discordantes entre si. Em todas elas, contudo, há fiéis sinceros e piedosos, que crêem convictamente em seus artigos e pautam sua vida pelos preceitos prescritos por elas. Para eles sua crença é a verdade, sem a mínima hesitação.

Certamente que a verdade tem que ser unica. Logo não é possível que todas estejam certas ao mesmo tempo, mas apenas uma, ou nenhuma. Logo a fé não pode ser erigida como critério de verdade.

Há que se buscar, pois, a verdade a respeito desses assuntos em uma verificação fática de evidências comprobatórias ou em algum raciocínio lógico que permita tirar a conclusão a respeito, a partir de evidências indiretas.

No caso em tela, a questão é se existe ou não existe Deus.

Para precisar a questão há que se considerar o que se entende por Deus e que tipo de deus está por se verificar a existência.

Diferentes religiões conceituam seus deuses ou seu Deus de forma distinta. Contudo há um denominador comum a todos esses conceitos para que se possa denominar algo como sendo um deus.

O conceito de Deus se reporta a um ente, que, caso exista, seria um ser. Um ente é algo que pode existir objetiva e substancialmente, isto é, fora de mentes que o concebam, sendo feito de alguma coisa e possuindo propriedades que caracterizem sua essência, ou seja, que possam identificá-lo como sendo o que é e não outra coisa.

A essência de Deus é possuir as propriedades de onipotência, onipresença e onisciência. Muitas religiões também atribuem a Deus as propriedades de justiça, bondade e sabedoria, mas a ausência delas não deixaria de caracterizar tal ente como Deus.

A Deus é atribuída a criação do Universo, isto é, a causação do ato de levar o Universo da inexistência para a existência. A maioria das religiões também atribui a Deus o provimento continuado do Universo, ou seja, todas as ocorrências que se possam dar com qualquer constituinte do Universo seriam fruto da vontade, do consentimento e da iniciativa de Deus. Esta última concepção constitui o “teísmo”, enquanto a primeira apenas, o “deísmo”.

A substância de Deus, nessas duas concepções, não é física, isto é, Deus não é feito de matéria nem campos nem radiação, que são os constituintes físicos do Universo. Seria outro tipo de substância, denominado “espírito”, de que também seriam feitos a alma humana, os anjos e os demônios. Espírito é uma substância etérea, quer dizer, não possui massa nem outros atributos físicos, como volume e cor.

Posso admitir que quem crê aceita evidências para fundamentar sua fé. E posso também considerar fé como sinônimo de crença, mas não de confiança. Confiança vai além da fé, sendo a fé mesclada com a esperança, ou uma esperança com fé.

Na verdade, grande parte das discussões filosóficas é puramente semântica. Para evitarmos perder tempo discutindo o que entendemos pelo significado das palavras, vou aceitar que fé seja crença com ou sem evidências. O que discutiremos é se essas evidências existem ou não.

O que estou fazendo neste tópico é exatamente teologia natural, às vezes chamada de teodicéia (que também pode ser entendida como o estudo da coexistência do mal com Deus). O que pretendo demonstrar é exatamente que Craig não tem razão em seus argumentos. Conheço perfeitamente o argumento Kalam e refutá-lo-ei aqui.

Não contesto a existência de Jesus como personagem histórico, apenas a sua divindade.

Continuando minha última postagem digo, ao contrário de Anselmo de Cantuária, que a existência não faz parte da essência de Deus. Existência não é uma propriedade de nenhum ente, mas uma situação. Existir é a condição para que um ente não seja meramente conceitual, isto é, só exista em mentes que o concebam. Denomino ser ao ente que, de fato, existe fora das mentes. Tal situação é objeto de uma verificação, que é, exatamente, o propósito deste debate.

Isto derruba o denominado “Argumento Ontológico” para a existência de Deus, segundo o qual Deus necessariamente existe pois, se é um ser perfeitíssimo, não poderia não existir, pois isto seria uma imperfeição. Ou seja, é preciso que haja um ser perfeitíssimo uma vez que se pode conceber tal coisa. Ora, perfeição é uma qualidade dos atributos de um ser e existir não é um atributo. Logo não é necessário que exista um ser perfeitíssimo. Mas pode ser que exista. Veremos.

Não vejo porque ética, bondade, justiça e sabedoria requeiram uma fonte trans-humana para existir. Mas isto não é o objetivo da presente discussão. Em outro tópico poderei me estender sobre isto. Entrementes podem consultar este tópico de meu blog:

http://wolfedler.blogspot.com/2008/07/tica-e-atesmo.html

Vamos analisar o argumento cosmológico, da forma como o apresenta Craig.

Como já debati isto num tópico em outra comunidade, colocarei aquí o link para que todos possam consultá-lo e postar suas refutações a meus argumentos:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=102514309&tid=5477802754424329834&na=1&nst=1

Também, quero colocar o link de outro tópico em que apresentei minha minha defesa do ateísmo:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=341467&tid=5330550560386409943&kw=ate%C3%ADsmo

Por hoje vou encerrar, aguardando novas postagens para respondê-las.

Convido-os a visitar também meu outro blog:

http://www.ruckert.pro.br/blog/

Pode ser que Deus não seja constituído da mesma substância do que almas, anjos e demônios. De qualquer modo, tanto estes quanto Deus não são seres físicos. Se cada um deles possuir um tipo de substância (filosófica e não quimicamente falando), não vem ao caso, no presente (demônios seriam anjos, logo da mesma substância). O que estou dizendo é que Deus, sendo um ser, possui uma substância, certamente que não física. Não estou fisicalizando Deus. O que não é feito de nada não é um ser, mas um mero conceito. Concordo que a substância de Deus seja uma substância divina exclusiva dele, que a substância dos anjos e demônios seja de outro tipo e a da alma humana outro ainda. Nada feito de átomos. Meu entendimento é que nada disso existe realmente. São só concepções. Espero poder mostra isto.

Outra questão é a da transcendência de Deus. Há outra possibilidade: a imanência. O que vém a ser isto? Ser transcendente é estar além, ou seja, fora do domínio dos constituintes do Universo que são matéria, campo, radiação, espaço e tempo. Se os anjos e as almas não são transcendentes, como, de fato seria o caso, se existirem, então o Universo também possuiria uma outra categoria não física de substâncias: o espírito (de dois tipos). Um estudo interessante é o da natureza do espírito e suas interações com o mundo físico, o que Allan Kardec pretendeu desenvolver mas, no meu entendimento, só apresentou doxas, isto é, sua opinião a respeito, sem base alguma.

Imanência é a condição de algo fazer parte integrante de outra coisa, de modo indissociável. O panteísmo considera Deus como imanente ao Universo ou, em outras palavras, o Universo como uma emanação do próprio Deus e não algo extrínseco a ele. Isto, para mim, é mais implausível ainda e poderei discutir depois porque.

Ao Luciano, sobre fé e crença: A questão é apenas semântica, de relevância secundária. Posso aceitar que fé e crença sejam sinônimos nesta discussão, mesmo que considere que não o sejam. Para mim fé não é só crença religiosa, mas sim crença sem indícios de veracidade. O que estou me propondo a mostrar é exatamente que, no caso da existência de Deus, esses indícios não existem, muito pelo contrário, há-os em sentido oposto.

Sobre uma religião verdadeira: Eu não afirmei que nenhuma religião seja verdadeira mas sim que não podem ser todas verdadeiras, possivelmente nenhuma. Quem sabe a verdadeira ainda não foi criada? De fato eu acho que nenhuma seja verdadeira, mas no texto em não disse isto. Tal consideração é que passarei a discutir assim que terminar estas respostas.

Crença no futuro utópico: Certamente que isto é uma fé, se aceito que fé seja sinônimo de crença. Mas não é perigosa e nem ingênua, pelo contrário, é inteiramente possível, desejável, preferível e realizável, se se empreender um programa educativo, político e econônico para se chegar lá. Mas não é marxismo e nem um anarquismo revolucionário. É o comunismo anárquico ou, como prefiro denominar, comunitarismo.

Argumento ontológico: Claro que o argumento ontológico é apriorístico e o que eu disse é, justamente, que isto não tem cabimento. Não se pode dizer, de forma alguma, que seja necessária a existência de um ser perfeitíssimo apenas porque isto é concebível. O erro é exatamente ontológico, pois tal argumento supõe que a existência seja uma qualidade, quando não o é. Qualquer prova da existência de Deus só pode ser “a posteriori”, com base na verificação dos atributos essenciais de algum ser que se possa chamar de Deus.

Regimes materialistas: Os regimes políticos totalitários e tirânicos podem ser materialistas ou não. O comunismo prega o ateísmo bem como a “Ditadura do Proletariado”, como etapa transitória para o comunismo. Na prática o que houve nas nações comunistas foi uma “Ditadura do Partido Comunista”. Tal situação é execrável como também o são as ditaduras e regimes totalitários de qualquer nuance, sejam de esquerda ou de direita, ateus, cristãos, muçulmanos ou de que religião forem, como os regimes teocráticos do Irã, da Arábia Sudita e as monarquias absolutistas católicas da Espanha, no tempo da inquisição ou da França, no tempo das cruzadas. Seu caráter malévolo não provém de que crença professem quanto a Deus, mas da cassação das liberdades inerentes ao ser humano. O ateísmo não prega tal tipo de coisa, pelo contrário, tem um alto padrão de moralidade, inclusive por pautá-la na busca da maximização da felicidade para o maior número de seres e não em prêmios ou castigos pela conduta boa ou má.

Quando respondí ao questionamento do Márcio sobre a substância de Deus eu não estava dizendo nada sobre sua inexistência. Apenas afirmei que, mesmo que seja transcendente, Deus seria um ser e, portanto, constituído de alguma substância, que é aquilo de que é feito. Se não for um espírito então é alguma substância própria apenas de Deus, mas se não possuir algo de que seja feito não é um ser. Pode-se até dizer que a substância de Deus seja o próprio Deus, mas, ao que me parece, nem os teístas, nem os deístas nem os panteístas consideram que Deus seja apenas um conceito. Isto são os ateístas que consideram. Por outro lado, se se está discutindo a validade dos argumentos ateístas para a inexistência de Deus, é preciso que se considerem todos eles, tanto contra o teísmo quanto contra o deísmo e o panteísmo. Em nenhum lugar está dito que esta comunidade é teísta, mas sim que pretende apontar contradições na argumentação ateísta. E eu estou aqui para mostrar que não há contadições.

Examinarei o argumento de Platininga. A contestação que apresentei é de Kant e não de Hume.

No meu entendimento o fato de ser transcedental não significa que seja insubstancial. Não estou falando de substância química. Substância é aquilo de que um ser é feito e isto é algo que todo ser, como ente existente de fato, possui. Somente as entidades puramente conceituais não são feitas de coisa alguma. Certamente que Deus, existindo e sendo transcendente, não seria feito de nenhuma substância física e, como você o disse, nem de espírito, pois isto também seria algo criado por Deus. Posso conceber que a substância divina seja o próprio Deus, não pertencente a nenhum domínio natural nem espiritual. Mas não consigo conceber que um ser exista realmente, sem substância.

Argumentos ateístas

by @ 1:01. Filed under Ateísmo

Os argumentos ateístas não são falácias nem bobagens, nem irracionais, nem erísticos. Pode ser que algum ateu não saiba porque o seja, mas eu sei bem. Meu ateísmo é fruto de bastante estudo e reflexão, pois, inclusive, partiu de um posicionamento teísta que eu tinha e que procurei me aprofundar. Certamente que não me valho de argumentos com base nas incoerências das religiões ou na imoralidade de muitas de suas práticas. Isto é irrelevante para o mérito da questão da existência ou não de Deus. Tampouco teço críticas pessoais a defensores da fé, mesmo que alguns possam merecê-las, mas isto também é irrelevante. Centro-me nos fundamentos da própria fé e na contestação das propaladas provas filosóficas ou científicas da existência de Deus, como as apresenta Craig, por exemplo. Além disso apresento todos os indícios que me levam a descrer da existência de qualquer divindade. Espero debater no plano das idéias e ser respeitado em minha posição, como sempre o faço em relação a meus contendores em todos os debates que já participei. E mais: espero, sinceramente, que me convençam de que estou errado. Todavia, até o momento, ninguém foi capaz de fazê-lo.

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